Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Parece­te? Pois fica então sabendo que não tornarás a pôr os pés neste quarto, se não trouxeres os brilhantes contigo!

— Vai dormir! Isso passa!

À noite, porém, Ambrosina não lhe abriu a porta, como lha não abriu no dia seguinte, nem no outro.

Gabriel, que havia caído numa estranha tristeza, resignada e fria, foi então à casa bancária onde depositava o seu dinheiro, e perguntou de quanto ainda dispunha.

— Quatro contos e tanto, responderam­lhe.

— Passe o recibo.

— De tudo?

— Sim.

Embolsou o dinheiro, tocou para a casa do Farani.

Parou defronte do mostrador. Os dois brilhantes, as duas tentações de Ambrosina lá estavam em toda a sua refulgente glória; e o desgraçado estremeceu ao trocar com eles um rápido olhar, como se desse com efeito de surpresa com os olhos de alguém, de algum demônio, do cruel demônio que implacavelmente o perseguia desde o seu primeiro sonho de amor.

No meio de um ardente eflúvio de cintilações, feito de acesas cores em que parecia transluzir a alma fulgurante dos minerais preciosos, destacavam­se, a fitar Gabriel, as duas irrequietas pupilas de carbone vivo. Havia a granada e o rubi, com as suas luzes quentes e sangüíneas, que lembram os sorrisos do pecado; a esmeralda, matinal e alegre como a lágrima do mar gotejada dos cabelos de Afrodite, ao lado da safira, triste e sombria. como as gotas da noite; e opalas, misteriosas e sinistras em contraste com turquesas cor do céu em dias felizes, e pérolas que guardam no rijo e imaculado seio secreta: luzes do fundo do oceano, e místicas ametistas, sensuais cornalinas, topázios cheios de sol, e camafeus mais polidos e trabalhados que um verso de Virgílio. Mas a todo esse refulgir da ardente e rica pedraria, sobrelevava­se o fulgor das duas lúcidas pupilas de luz diamantina, que provocadoramente desafiavam Gabriel para um supremo desvario.

O amante de Ambrosina entrou na loja.

— Deseja alguma cousa?... perguntou­lhe o moço do balcão, a medi­lo com certo ar desconfiado.

— Aquele broche que está exposto...

— A que broche se refere o senhor?

— Ao de quatro contos, com dois brilhantes..

— É só para ver?...

— Não; é para comprar.

— Pronto!

— Separe­lhe as pedras.

— Separar­lhe as pedras?!.

— Sim; desengaste os dois brilhantes.

— O senhor dessa forma estraga a peça...

— Não faça caso; separe­as.

— Mas...

— Compreendo... Aqui tem o dinheiro.

— Pois não! É um instante!

E o caixeiro, depois de conferir e recolher o pagamento, isolou as duas belas gemas, que entregou ao comprador juntamente com os engastes e o cofre.

— Está servido, disse; quando precisar de mais jóias...

— Obrigado, resmungou Gabriel, guardando aqueles objetos no bolso do sobretudo.

E dirigiu­se então a uma casa de armas. Aí comprou um jogo de pistolas de carregar com bala pela boca. Depois pediu ao armeiro que a carregasse com pólvora seca, muniu­se de espoletas, e saiu.

Estava a cair de fome. Foi ao Mangini, meteu­se num gabinete reservado, e, enquanto esperava que lhe servissem o jantar, carregou as duas pistolas com um brilhante cada uma.

Acabada a refeição, acendeu tranqüilamente um charuto, e seguiu, sem alterar os passos, para a casa de Ambrosina.

Eram cinco horas da tarde, mas anoitecia já quando ele lá chegou, porque junho orçava pelo seu meado e viera muito nebuloso esse ano.

— Ainda?! berrou a loureira, ao ver entrar Gabriel. Não lhe disse que não voltasse sem os brilhantes?! É birra!

— E quem te diz que não te trago?...

— Hein?! interrogou ela, correndo para o amante, de braços abertos. Não estás gracejando?...

Ele mostrou o estojo.

— Meu amor! Oh! deixa ver! Dá­me! dá­me cá!

E Ambrosina beijava o infeliz, a bater palmas, a rir e a saltar numa alegria igual às dos seus melhores tempos do passado.

— Prepara então o teu colo... exigiu Gabriel. Quero­o nu, todo nu!

Ela, num gesto rápido e frenético, rasgou o corpete do vestido, patenteando os infecundos e carnudos peitos.

— Agora, bem! dá­me o teu lenço... acrescentou ele.

— Meu lenço?... Aí o tens... Para quê?...

— Espera... É uma fantasia... Deixa vendar­te os olhos...

Ambrosina submeteu­se, com arrepios de gozo, a perguntar se o broche então armava também em colar.

— Sim, respondeu o amante, empunhando as pistolas, que já tinha engatilhado. E quero que só o vejas defronte ao espelho... com os teus brilhantes no colo.

— Pronto! disse ela afinal, de olhos vendados.

Gabriel, fazendo­lhe pontaria sobre os peitos clamou:

— Aí os tens, demônio!

E disparou ao mesmo tempo as duas armas.

Ambrosina, soltando um gemido, caiu de costas, banhada em sangue.

Semanas depois, recebia Gabriel na casa de Detenção a visita da mãe do finado cocheiro Jorge. De todos os seus conhecidos, foi essa, foi a velhinha Benedita, a única pessoa que se lembrou de ir vê­lo.

E a pobre de Cristo estava cada vez mais engelhadinha, mais seca e mais curvada, e também mais agarrada à vida, sempre com um terrível medo de morrer, e sempre a terminar os seus intermináveis aranzéis com o grato provérbio: "Viva a galinha com a sua pevide!"

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...125126127128129Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →