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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Confundam-se todas as senhoras, pois lhe asseguramos que, em menos de um quarto de hora, o rapaz estava completamente vestido de mulher; era um gosto vê-lo! Um vestido de seda verde, que oito meses antes estivera muito na moda, por ser em demasia curto, lhe deixava à mostra um bom palmo de finíssimas pernas, e dois imensos pés terrivelmente apertados em sapatos de lã; o desconhecido pendurou-lhe, como melhor pôde, dois cachos postiços aos lados da fronte, e depois escondeu-lhe os cabelos com uma touca cheia de rendas brancas e encarnadas; mas com tanta inabilidade o fez, que a touca mostrou-se na posição inversa da que deveria ficar, isto é, a frente ficou para trás. Finalmente, um longo xale de seda já usado embrulhou desarranjadamente o corpo de Manduca.

— Bem... disse o desconhecido, está lindíssimo, está mais belo do que o amor, esbelto como uma palmeira... é uma virgem... uma vestal completa... vamos...

— Vamos! exclamou o pobre Manduca entusiasmado com o elogio pomposo que lhe fazia o desconhecido.

E desceu a escada, ele, jovem senhora improvisada, com esse andar asselvajado e rude, próprio das pessoas afeitas às botas.

Os dois tornaram a subir para a sege que partiu; poucos momentos antes das dez horas parou; o desconhecido e Manduca apearam-se.

Uma outra sege estava parada na esquina, que do lado da cidade mais próxima ficava da casa de Hugo; o desconhecido mostrava-a a Manduca, quando soaram as dez horas.

— Senhor, disse ele, apresentando uma máscara a Manduca, deixe agora arranjar-lhe a máscara no rosto, e parta; durante a viagem não diga palavra... olhe... lá sobe Honorina para a sege... ainda bem que o senhor está pronto... ande... corra... vá...

— Mas o boleeiro para onde nos levará?...

— Para o convento da Ajuda; o boleeiro está peitado por mim...

— Bom... adeus... vou salvar a beleza! disse Manduca partindo.

— Sim! vá imortalizar-se!... seja feliz!

Logo depois duas seges rodavam para a cidade: iam na primeira dois vultos de mulher; e mais atrás o desconhecido, na segunda, ria-se desabaladamente.

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Um gênio benfazejo velava, portanto, a favor de Honorina: o moço loiro, pois não pode restar dúvida de que este desconhecido é ele, o moço loiro tinha em poucas horas prestado à sua bela amada os mais valiosos serviços.

Ainda com uma nova cabeleira, ainda trajando estranhas vestes, ele aparece, confunde a Félix, e, nós o sabemos, a cruz de brilhantes torna às mãos de sua herdeira, e a inocência de Lauro é demonstrada.

Sem que se saiba como, compreende ou adivinha o que se passa entre Lucrécia e

Honorina, e protesta castigar a viúva.

É ele que escreve a Lucrécia a palavra do ajuste, o sim, simples termo que simboliza a vingança de uma mulher e a perda de outra.

Na tarde desse dia, a viúva tinha ainda escrito a Honorina, recomendando-lhe que, se pudesse, fugisse mascarada para não ser conhecida ao sair de casa, e que durante a viagem se abstivesse de falar, para não ser ouvida pelo boleeiro que as devia conduzir.

O moço loiro intercepta essa carta, também ignoramos por que meio, e, senhor do plano de Lucrécia, forja então o seu. Tão bom como travesso, tão nobre como extravagante, o projeto que concebe é uma extravagância, e sua execução deverá ser uma travessura. Ele dispõe-se a tornar vestido de mulher e ir dar, embora mascarado, um passeio noturno com Lucrécia; mas, escondido dentro do guarda-roupa de Félix, ouve o que diz Manduca, sabe que é também seu rival, abre um pouco a porta do guarda-roupa para ver a cara do homem que ama Honorina; vê-se a ponto de soltar uma risada... contém-se... pensa, e modifica seu projeto de vingança contra Lucrécia... fá-lo uma travessura completa; e, enfim, nós o sabemos, vê seu plano coroado pelos mais felizes resultados.

Provavelmente importantes negócios o obrigam a não seguir por muito tempo a sege em que vão os dois vultos de mulher; pois que ele volta a seu sótão, despe os falsos vestidos, arranca a mentirosa cabeleira, começa a vestir-se com todo o zelo e afã de um namorado, e defronte de seu toucador fala consigo mesmo, sorrindo-se:

— Estou fatigado; mas pouco falta... muito bem! muito bem! fingi-me pobre e desgraçado... abatido e melancólico... escrevi um livro de amor, todo molhado de lágrimas, sondei o coração de Honorina, e conheço que, pobre ou não, feliz ou desditoso, sou por ela amado... agora sim... posso e quero consagrar-lhe a minha vida...

O tal Sr. Lauro de Mendonça não deve também desejar mais nada... continuou sorrindo-se com malícia; está tudo feito: a vaidosinha D. Lucrécia lá se vai com Manduca, passeando pelas ruas da nossa boa cidade... ora pois: acabemos com isto... vamos depressa fazer as últimas visitas.

(continua...)

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