Por Inglês de Sousa (1891)
O quê! Voltaria a levar a vida estúpida e monótona de pároco da aldeia, a cantar ladainhas, a confessar negras velhas, feias e repelentes, a doutrinar crianças, a morrer de tristeza e de aborrecimento na vastidão daquela vila deserta, onde não tinha para o consolar nas horas de freqüente desânimo, em que a herança materna sobrepujava a fortaleza viril, para povoar o seu isolamento, para lhe suavizar as agruras da vida, o olhar meigo e carinhoso, a fala doce, o amor incansável da sua querida Clarinha, da única mulher que seriamente o amara. Deixá-la-ia naquele sítio solitário, para morrer de saudades, ou - coisa horrível que o fazia estremecer - para cair nos braços de algum tapuio boçal que a cobiçasse para mulher, ou de algum regatão atrevido que a tomasse para o duplo emprego de amante e de criada! Partiria tão às pressas, quando os encantos daquela mulher incomparável lhe prometiam ainda tantos dias vividos à sombra das mangueiras em flor, na intimidade, tantas noites repletas de delícias que jamais encontraria em outra! Tinha visões eróticas, pensando nos prazeres que gozara. Recordava o cacaual, a bela carne clara destacando-se do amarelo avermelhado das folhas secas; o capinzal verdejante do campo, espigado e fino, emoldurando a redondeza palpitante das formas; o furo de água negra, transparente e límpida em que os membros gentis tomavam figuras vagas, fantásticas e vacilantes; a maqueira de tucum, refrescando o calor dos corpos unidos em apertado abraço, na ausência do Felisberto, do João Pimenta e da Faustina, a rede, a macia rede, tentadora e provocante, embalando suavemente os amantes no vaguejar dos sonhos... Mas que perigo em se deixar ficar ali, naquele viver sensual e mole, enquanto a história da sua queda podia chegar a Silves e matar para sempre a aspiração dum futuro glorioso!
Lutava enleado nas pontas daquele dilema terrível, com a cabeça perdida, procurando embalde no arsenal dos seus sofismas, no manancial de argúcias da sua filosofia egoística e chicaneira, um meio de sair daquele embaraço cruel que lhe esmagava o coração. Sentia-se incapaz de sacrificar o futuro àquela mameluca simples, e mais incapaz ainda de desprender-se dos braços dela para salvar a honra de seu nome e o brilho da carreira que imaginara poder percorrer na vida. Entre o presente, representado pelo amor da neta do João Pimenta, pela vida fácil, cheia de gozos e de inação, que tanto satisfazia o seu temperamento de matuto grosseiro e preguiçoso, e o futuro, visto pela lente da ambição que o exaltava nas grandezas e dignidades da Igreja, na confiança depositada na própria inteligência, saber e ilustração adquirida à custa de tantos esforços, a sua alma se balançava hesitante. Toda a fraqueza de caráter que o sangue materno lhe transmitira, se revelava naquela conjuntura da vida. Pálido, arquejante, sem saber o que fazia, atirou-se à cama, cobriu o rosto com os lençóis, e rompeu num choro convulso de criança contrariada.
A Clarinha, que o espiava silenciosa, chegou-se a ele, abraçou-o ternamente, e segredou-lhe ao ouvido com uma meiguice incomparável na voz:
— Levas-me contigo, sim?
CAPITULO XIII
Quando o ubá chegou ao sítio do Tucunduva, no rio do Ramos, seriam três horas da tarde, e havia três dias que viajavam, descendo o rio Abacaxis, na esguia embarcação selvagem, bem provida de todo o necessário que era possível acomodar sob a estreita tolda de japá, improvisada para resguardar a Clarinha do sol ardente de dezembro.
Fora uma partida alegre, despreocupada. A família deixara o sítio da Sapucaia como se fosse fazer uma pequena viagem de recreio. João Pimenta, na indiferença da sua estupidez de antigo tuxaua convertido ao cristianismo, acostumado à subserviência as ordens de padre João da Mata, não achara palavra no seu pobre vocabulário para opor à deliberação dos netos, e concordara com a viagem como se se tratasse da coisa mais simples e natural do mundo. No furo da Sapucaia, no pitoresco bom retiro do defunto padre santo, apenas ficara a Faustina, a preta velha, para cuidar dos numerosos xerimbabos que a moça sustentava.
O Felisberto, remando à proa, vinha alegre, duma alegria ruidosa. Era o mais feliz de todos quantos haviam deixado o sítio do furo da Sapucaia no ubá de João Pimenta.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.