Por Aluísio Azevedo (1897)
E Gabriel, que a despeito dos conselhos "in extremis" do padrasto, fora pouco a pouco, com a última aragem da fortuna, recaindo na primitiva prodigalidade, um belo dia, quando deu por si, depois de uma noite de dissipação em que adormeceu inconscientemente nos braços de Estela, acordou, sem mesmo saber como, nos da sua velha amante, e entre bocejos de apatia se deixou quedar.
Já não tinha, porém o relapso, ao lado de Ambrosina, vislumbres dos arroubos da sua paixão de outrora; amavaa de cara fechada, como traga um bêbado a indispensável dose de aguardente, que lhe exige o vício.
Mas, ainda assim, existiram juntos quase um ano, ao fundo de um policromo hotelzinho de gente de teatro, por cima do recémcriado Casino da rua do Espírito Santo, que se propunha substituir o Alcazar de saudosa memória popular. E durante esse tempo, valha a verdade, nada de notável ocorreu entre eles, a não ser o próprio fato que de novo os desuniu — um doido capricho de Ambrosina por um hércules francês, que se exibia todas as noites no Círculo do Lavradio; homem belo e brutal, com músculos de bronze, a cujo áspero peso gemia a outonada loureira, sentindo esmagaremselhe as dormentes gelatinas em que se lhe havia derretido pelo corpo o palpitante e branco mármore do passado.
A desgraçada o idolatrava, sem a si própria explicar a razão por que. Ele comialhe o dinheiro que lhe fariscava nas meias, e batialhe com os pés; ela, entre soluços de mulher adorada, dizialhe abjeções, cuspialhe nas barbas, mas ia, lacrimejante de amor, rebuscálo ao fundo das bodegas, para lhe pedir perdão e lhe suplicar que não estivesse a matála de ciúmes.
O francês levoua a esfocinhar nas últimas degradações da crápula rasteira, enquanto teve de partir para Buenos Aires com a companhia de funâmbulos a que pertencia, esgueirouse à sorrelfa, receando que o seu crampon lhe estorvasse a saída.
Ambrosina reparou então que o miserável, ainda pior do que fez D. Felipe, lhe carregara com os poucos objetos de valor imediato que lhe restavam, e tratou logo de arranjar meios de encostarse de novo a Gabriel.
Este porém, já de frouxos recursos poderia dispor por esse tempo; achavase quase completamente esgotado em todos os sentidos. Dera ultimamente para beber e jogar por vício, equilibrando a existência pelas alternativas da roleta e do álcool. Tornavase desleixado em extremo, e até desbriado.
Ambrosina conseguiu empolgálo de novo, e agora mais do que nunca fazia dele o que bem queria, insultavao constantemente, e lhe não abria a porta, quando o desgraçado fora de horas lhe chegava ébrio e sem dinheiro.
— Vá dormir na estação de polícia, que isto aqui não é lugar de vagabundos! exclamava ela, pondo a cabeça entre as folhas da janela.
E, se insistia, despejavalhe o balde das águas servidas.
Mas, nem assim, o pobre diabo a deixava de vez.
Uma ocasião afinal, largos meses depois do último aferramento dos dois, Ambrosina, passando de manhã cedo pela rua do Ouvidor, para ir ao Mercado regatear as compras do almoço, viu em uma das vitrinas do Farani, um belo e rico broche de brilhantes.
Eram apenas duas pedras, muito fundas, porém, e muito limpas. Ao lado um cartão com letras de ouro dizia que a jóia custava quatro contos de réis.
— Ah! meu tempo!... suspirou a filha do comendador Moscoso, a fitar, enamorada e triste, as duas sedutoras gemas.
E, depois de muito as contemplar em platônico desejo, soltou um novo e mais fundo suspiro, e lá se foi seguindo o seu caminho, mal amanhada e bamba, levando cravada na alma uma agonia que toda por dentro a encharcava de fel.
Ao mercado, inteiramente fora dos seus hábitos de lambareira, fez as compras nesse dia sem se demorar na escolha das vitualhas e sem desfranzir o rosto, passando alheada e torva por entre a pilhas do legumes viçosos e peixes cor de prata que espalhavam no ar o quente aroma das hortas e o frio olor das maresias; e não se deteve um só instante, como costumava, a olhar gulosamente para os montões de frutas frescas e caças despojadas, ou para as relumbrantes serpentes de chouriços e salpicões banhados de gordura, em que das outras vezes deixava a alma pendurada pelos olhos.
É que os dois belos brilhantes não lhe saíam da imaginação.
Chegou a casa possuída de uma raiva dolorosa e surda, uma como íntima revolta contra a certeza do seu aniquilamento, a dura certeza de que ela, nunca mais seria ninguém.
Chorou, chorou muito, arrepelouse, e pensou em morrer.
— Mas por que não hei de eu possuir aqueles brilhantes?! exclamou a miserável a sós com a sua agonia, entre arquejos desabridos. Sim, hão de ser meus! Ainda há nesta carne fibras da Condessa Vésper !
E quando o amante lhe apareceu à tarde, disselhe ela secamente:
— Ó Gabriel! tens ainda algum dinheiro em depósito?
— Quase nada, filha; por quê?
— Porque preciso que me compres um broche de brilhantes que vi no Farani; um de duas lindas pedras, levemente azuladas, e engastadas num simples alfinete de ouro. Custa quatro contos...
— Estás bêbeda!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.