Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Rematei o nosso último passeio apresentando, em rápido quadro, o transunto de toda a legislação e das mais importantes deliberações do governo relativas ao Imperial Colégio de Pedro II. Não fiz, porém, observação alguma a respeito de matérias tão interessantes, porque receei morrer afogado, metendo-me nesse mare magnum.
Entretanto, há no meio de toda essa longa série de medidas, há no sistema, aliás muito complexo do colégio algumas idéias que ainda estou em tempo de considerar e cujo elevado alcance exige menção menos ligeira e mais séria.
Como ficou claramente exposto na simples determinação do plano de estudos do colégio, está adotado neste estabelecimento o sistema do ensino simultâneo, e são, portanto, os alunos obrigados a estudar diversas matérias cujo número vai sempre avultando e crescendo à medida que eles vão subindo aos anos superiores. Este sistema, aliás tão conhecido como justamente preconizado na Europa culta, ainda não pôde no Brasil triunfar das prevenções de muitos críticos que, aferrados à velha usança que não abria aos estudantes as portas da lógica sem trancar sobre eles o portão do latim, nem lhes permitia resolver os problemas de Euclides sem que tivessem primeiro tirado todas as conseqüências do Genuense, esses críticos, repito, não compreendem que um menino possa estudar tanta coisa ao mesmo tempo, e sem mais tir-te nem guar-te, condenam por absurdo o ensino simultâneo.
É tempo perdido atacar com argumentos esta opinião prevenida. A lição da experiência há de destruí-la pouco a pouco, e em verdade sobram já os fatos que depõem contra ela.
É justo, porém, fazer uma concessão à trilha, que é ainda uma senhora de grande poder no Brasil, onde conta numerosos apaixonados, apesar das suas rugas e cabelos brancos.
O antigo sistema servia a todos e para todos. As inteligências, ainda as mais mesquinhas, conseguiam no fim de longos anos entender o seu Horácio, e adivinhar no sermão do padre-mestre professor de retórica as figuras de Quintiliano. E, pelo contrário, no ensino simultâneo seguido no Imperial Colégio de Pedro II, não podem aproveitar bastante as inteligências menos que medíocres.
Mas que se deve concluir daqui? Concluam outros como entenderem. Eu, porém, tenho para mim que isso abona ainda mais o sistema de ensino simultâneo em um curso de bacharelado em letras.
O jovem que quer ter o curso do bacharelado em letras pretende naturalmente seguir uma carreira literária e nessa carreira não aproveitam ao país senão aqueles que têm uma inteligência pelo menos medíocre e, por conseqüência, o Imperial Colégio de Pedro II, com o seu sistema de ensino simultâneo, tem um fim duplamente útil. Porque, ao mesmo tempo que facilita o progresso das inteligências felizes, faz com que desanimem no princípio da carreira literária os desfavorecidos da natureza, os pobres de espírito, os moços sem capacidade intelectual, que, por fim de contas, ainda conseguindo uma borla e um capelo, nunca passam de doutores de letras gordas, e trelêem, porque pensam que sabem o que ignoram e porque supõem que uma borla e um capelo enchem de idéias uma cabeça que nunca as teve.
Não vão concluir que eu entenda que se deva criar o impossível diante daqueles que, não tendo bastante capacidade para aprender, procuram com um estudo assíduo e com a mais louvável constância triunfar da sua natureza mesquinha. A esses convirá seguir o antigo sistema de ensino, e ninguém se lembrará de ir dizer-lhes que não o sigam.
Ouvi. Mas não creio que havia quem pensasse, ou que há homens importantes que acreditam na conveniência de se dificultar a carreira das letras aos pobres de fortuna. É uma teoria que bem merecia o título de infernal. Não é aos pobres de fortuna: é aos pobres de espírito que convém não facilitar a carreira literária.
O templo das letras não se abre com chaves de ouro. Abre-se com as chaves da inteligência e da capacidade.
Estou convencido de que, não o sistema de ensino, mas o plano de estudos do Imperial Colégio de Pedro II, precisa ainda de revisão e de aperfeiçoamento. Não é, porém, aqui o lugar próprio para discutir esta matéria, que exige um exame muito desenvolvido.
A reforma que dividiu o Imperial Colégio de Pedro II em dois estabelecimentos, internato e externato, foi de suma vantagem para a disciplina, que apesar da mais constante vigilância, não podia ser sempre perfeita e isenta de inconvenientes em conseqüência da comunicação entre os alunos internos e externos. E a resolução que mandou os mesmos professores lecionar em um e outro estabelecimento atendeu à necessidade de se uniformizarem os estudos das duas casas de uma única instituição.
Do que deixo enunciado transpira sem dúvidas nem sombras a minha opinião sobre o Imperial Colégio de Pedro II, opinião conscienciosa e sem o menor vislumbre de parcialidade embora me quisessem achar motivos de suspeição.
Há, porém, ainda um ponto da questão que tem evidente interesse.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.