Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
O menino caiu, chorando nos braços do moço.
Havia em tudo isto uma coisa pouco natural: era a frieza com que Félix ouvira a confissão de Carlos; mas a consciência daquele, acusando-o de seu crime, tinha podido justificar a falta do menino.
Além disso, no meio da relação de Carlos, tinha por acaso vindo uma idéia à mente de Félix, que lhe sorria, que tinha um não sei quê de lisonjeira para seu coração; foi por tal que ele não sentiu forte abalo, ouvindo a acusação que a si próprio acabava de fazer o jovem caixeiro; foi por tal, enfim, que ele o desviou de seus braços, e disse:
— Está bem, Carlos, vai-te; eu preciso sair; há um negócio muito grave que devo concluir esta noite.
XXXVIII
Aventura noturna
Às nove horas da noite, dois vultos tinham-se aproximado um do outro, junto à igreja da Lapa do Desterro.
— Eis-me aqui, senhor, disse Manduca à misteriosa personagem, com quem de plano se aí encontrava.
— Bem, venha o senhor comigo, respondeu-lhe o desconhecido.
— Mas de que se trata?...
— Não há tempo a perder, tornou-lhe o homem; entremos naquela sege que ali nos espera, e, enquanto ela rodar, eu lhe explicarei tudo.
Manduca, que automaticamente se tinha deixado levar pela mão, logo que ouviu o rodar da sege, começou de novo o interrogatório.
— Para onde vamos?...
— Para minha casa.
— E a que fim?...
— O senhor vai vestir-se de mulher.
— Eu?! exclamou Manduca; então, que diabo quer isto dizer?... Não; não convenho em semelhante asneira...
— Há de convir, quando souber das críticas circunstâncias em que nos achamos.
— Pois então fale, fale, ande...
— Saiba, pois, que a jovem viúva D. Lucrécia detesta furiosamente a bela filha de Hugo de Mendonça.
— Homem, ainda não reparei nisso; mas hei de pensar a tal respeito.
— Detestando-a, como fica dito, determinou perdê-la; e achou que o melhor meio para isso era sacrificá-la a Brás-mimoso.
— E o mais é que foi bem pensado! deve ser um sacrifício casar-se uma mulher com aquele composto de postiços...
— Ora pois; sabendo Lucrécia que apuros comerciais ameaçam a Hugo, o qual para salvar-se deles tratava de um casamento entre Otávio e D. Honorina, que aborrece... quero dizer, que estima a este homem ainda menos que a Brás-mimoso, a atilada viúva, que se finge amiga de D. Honorina, foi à casa desta, e com sua conhecida habilidade convenceu-a de que devia fugir para um convento, a fim de não se casar com Otávio.
— E foi um conselho muito bem dado.
— O caso terá de passar-se pelo modo seguinte; uma sege estará postada na primeira esquina distante da casa de Hugo e do lado da cidade; D. Honorina, quando ouvir dar dez horas, sairá da casa, e entrará na sege, logo depois entrará D. Lucrécia; ambas as moças estarão mascaradas... e a sege partirá!
— Bravo! bravo!... tomara eu saber quantas semanas levarão a arranjar um plano tão intrincado!... essas moças são capazes de fazer uma revolução política no mundo!
— Mas em lugar de ir parar à porta e abrigar-se no seio de um convento, D. Honorina será por sua falsa amiga sacrificada a Brás-mimoso.
— Que mixórdia!... que mixórdia!...
— Ora, eu que amo ardentemente a D. Honorina, e que por ela velo sempre, pude penetrar esse pérfido segredo, e fiz também o meu plano; ainda não o conhecia, e, pois, não contava com o senhor. Comprei vestidos de mulher, e uma máscara para mim, disposto a ir às dez horas sentarme na sege ao lado de D. Honorina, antes que D. Lucrécia o fizesse.
— Essa é que é uma dos diabos!
— Encontrando-o, porém, ouvindo a confissão do seu amor, e simpatizando logo muito com a sua fisionomia nobre, distinta e luminosa... determinei propor-lhe fugir com D. Honorina, ir pô-la no convento... salvá-la de Brás-mimoso; porque, enfim, eu não sou egoísta; se se descobrir isso, o senhor pode casar-se com ela, e lavar-lhe a mancha, e eu não posso... sou casado.
— Homem, não é melhor irmos declarar tudo ao chefe da polícia?...
— Como? publicar a fraqueza de uma pobre moça?...
— Então, dirijamo-nos a seu pai...
— Para fazê-la vítima de seus justos furores?...
— Antecipemos, do que ocorre, à mesma D. Honorina.
— Ela se não recolherá ao convento, e casar-se-á com Otávio...
— Decerto... o caso é grave!... se me dessem ao menos três dias para meditar sobre a matéria...
— Chegamos... senhor; apeie-se... venha vestir-se...
— Homem, escute...
— Estou quase crendo que o senhor tem medo de encontrar-se amanhã com Brás-mimoso.
— Que é lá isso?... ora, eu lho mostro: entremos... e vista-me de mulher.
— Venha!... a sua missão é sagrada... o Sr. Manduca já tem ares de cavaleiro andante.
O desconhecido acabava de lembrar-se de D. Quixote.
Logo depois, Manduca estava em um pequeno sótão, onde achou tudo quanto era necessário para vestir-se de mulher.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.