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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

— Que estás tu aí a falar do Madeira, perguntou padre Antônio, que afinal prestara atenção à tagarelice do tapuio, e sentiu que uma idéia luminosa lhe atravessava o cérebro. Pois o Costa e Silva, perguntou ainda, sentando-se na marquesa, pois o Costa e Silva não voltava para Silves?

— Não voltava tão cedo, afirmou Felisberto, levantando-se e apontando de novo para a candeia de andiroba, jurava por aquela luz. O Costa e Silva seguira para o Madeira, onde poderia estar há uns quinze dias e onde havia de demorar-se mais dum mês. Por sinal dissera que havia de perguntar por S. Rev.ma lá no Madeira, e se ele voltasse para Silves, que é que ia perguntar no Madeira?

Mas então, em Silves ainda ninguém sabia a verdade! Então padre Antônio de Morais podia voltar para a sua paróquia, sem receio de que lhe descobrissem o segredo que tanto lhe importava guardar, e do qual dependia o seu futuro! Voltaria, pois, e sem demora, para evitar que o Costa e Silva regressasse à vila antes dele lá estar. Partiria quanto antes, pois que o pateta do Felisberto gastara tanto tempo em Maués, 'ria surpreender os seus ingratos paroquianos, que já se preparavam para receber de braços abertos o sucessor que a solicitude do senhor bispo não tardaria em nomear, zelando das suas obscuras, mas nem por isso menos queridas ovelhas! Partiria e ninguém, ninguém em Silves era capaz de duvidar de que padre Antônio de Morais tivesse gasto aqueles três meses na catequese de índios bravios, em pleno sertão do Sucundari e do Guaranatuba.

Pensava, rejubilando-se com esta solução tão fácil que a bendita tagarelice do Felisberto lhe tinha feito brotar no espírito abatido, e enquanto os outros prosseguiam no insípido serão, ele, cheio de coragem, criando alma nova, combinava, refletia, pesava todas as hipóteses que se lhe apresentavam, resolvia as dúvidas, discutia consigo mesmo as probabilidades, e assentava finalmente na resolução firme de partir no dia seguinte pelo rio Abacaxis fora em busca do lago Saracá e da vila que à sua margem repousa entre eternas verduras.

Quando se recolheram todos, e o padre ficou só com a mameluca, uma última luta se travou entre e a ambição e o amor a que se acostumara na posse daquela rapariga gentil, cujo amuo passageiro, cujos olhos vermelhos de lágrimas, cujo retraimento inesperado. naquela noite de despedida lhe incendiavam de novo os sentidos, despertando a paixão adormecida, como se já há muito tempo estivesse privado do gozo do seu corpo.

Já agora deixá-la era impossível. Depois que a notícia da viagem do Costa e Silva ao Madeira lhe reanimara o ânimo abatido, mostrando que não estava impossibilitado de regressar à sua paróquia com o mesmo prestígio de outrora, a alegria e a esperança extinguiram o ressentimento contra a linda mameluca que lhe revelara as delícias inefáveis dum amor correspondido. Pensando em partir, em a deixar para nunca mais a tornar a ver, em abandonar por seu gosto aquele tesouro inapreciável de encantos que só ele, ele só, conhecera e gozara, sentia um grande abalo que lhe tirava a firmeza da resolução que acabara de tomar. Os ressaibos dos beijos da Clarinha chocavam-se com as recordações dos tédios de Silves, e a sua natureza sensual reagia em favor dos doces prazeres que a moça lhe proporcionara.

(continua...)

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