Por Aluísio Azevedo (1895)
Ao fundo do quarto, sobre uma cama estreita e sem cortinas, destacava-se a longa figura de Caetano.
Parecia agora muito mais comprido e mais magro; sentiam-se-lhe os ângulos do corpo por detrás do lençol.
O amo, se se demora um pouco mais, já não o encontrava com vida.
Assentou-se ao lado da cama e ajudou o moribundo a segurar uma vela de cera, que lhe haviam posto entre as mãos extensas e descarnadas.
Entretanto, o velho agonizava, quase sem o menor movimento de corpo ou a menor contração de rosto.
Era uma figura imóvel, hirta, com os membros duros, os olhos cravados no ar, fixos e já turvados pela morte.
O conselheiro debruçou-se sobre ele, disse-lhe em voz baixa algumas palavras de consolação, que não foram ouvidas, e afinal quando a morte chegou de todo, retirou-se para o seu gabinete, sem conseguir resolver em lágrimas o peso enorme que se lhe fora acumulando por dentro.
XXVIII
Dadas as providências para o enterro do velho Caetano, Teobaldo tomou algumas colheres de caldo e meteu--se na cama, recomendando que não o chamassem.
Passou o dia inteiro na modorra da febre e à noite foi necessário buscar o médico, porque o seu incomodo recrudescia.
O médico examinou-o e declarou que havia uma congestão de fígado. Era, pois, indispensável para o doente evitar todo e qualquer abalo moral e submeter-se a um rigoroso tratamento, sem o que podia sobrevir a hemoptise, e a coisa tornar-se então muito mais séria.
Acudiu logo muita gente com a notícia da moléstia de S. Exa.; como, porém, o doutor havia proibido ao enfermo falar a alguém, contentavam-se todos com deixar o cartão de visita; só o Coruja não levou lá o seu nome, porque nunca passava do portão do jardim e entendia-se com os criados inferiores.
Hipólito e D. Geminiana achavam-se então na fazenda e por isso não deram sinal de si. Todavia, e apesar dos afetados desvelos de tanta gente, a hepatite do senhor conselheiro progredia, agravada agora por uma lesão pulmonar, cujos sintomas já se denunciavam. Ele, muito abatido, o rosto cor-de-oca, a barba de quatro dias, os olhos fundos e tingidos de amarelo, mostrava-se muito desanimado e com um grande medo de morrer.
O médico ia vê-lo três vezes ao dia e de todas lhe recomendava a mais completa tranqüilidade de espírito.
O doente sorria ao ouvir estas palavras.
Uma noite mandou chamar a mulher.
Ela não se fez esperar e correu ao quarto do marido. A enorme transformação, que lhe notara logo ao primeiro golpe de vista, impressionou-a vivamente; contudo quedou-se fria e contrafeita à porta da alcova, como se estivesse defronte de um estranho.
- Branca!... murmurou ele, volvendo para a esposa os olhos já despidos do primitivo encanto.
- O médico recomendou que lhe não deixassem falar... respondeu ela, sem sair do ponto em que se achava.
- Venha para junto de mim, pediu o infeliz; preciso do seu perdão.
Branca aproximou-se dele, recomendando de novo que se calasse.
Teobaldo, quando a sentiu ao alcance de suas mãos, quis abraçá-la. Branca retraiu-se com um movimento espontâneo, no qual só transparecia repugnância.
Ele fechou os olhos e deixou cair a cabeça sobre os travesseiros.
Ela então adiantou-se, arrependida talvez de o haver contrariado, mas soltou logo um grito, porque o marido sentindo congestionar-se-lhe o sangue no pulmão, erguera-se de súbito, sufocado por uma golfada de sangue.
Era a hemoptise.
O quarto encheu-se de estranhos; uma balbúrdia formou-se em torno de Teobaldo; todos queriam socorrê-lo, mas ninguém o conseguia; o sangue lhe golpejava pelas ventas e pela boca.
O médico, quando entrou daí a nada, declarou-o morto.
XXIX
O fato, mal caiu em circulação, abalou deveras o público.
Desde as nove horas da manhã notou-se na cidade um movimento anormal de ordenanças a cavalo e de tílburis, que subiam e desciam a todo o trote a praia de Botafogo.
No dia subsequente cada folha das diárias, trouxe na sua parte editorial um artigo de fundo a propósito do ilustre morto. Tudo que se pode dizer sobre um político e sobre um homem de talento publicou-se a respeito de Teobaldo; publicou-se em tipo grande, entrelinhado e guarnecido das melhores flores de retórica de que dispunham as redações; mas, no que pareciam ajustadas, era em glorificar o falecido como um peregrino exemplo de honestidade e retidão.
"Ainda há bem pouco tempo, dizia um dos jornais mais acreditados, tinha o insubstituível cidadão que a morte acaba de arrebatar-nos, a seu cargo uma das pastas mais rendosas, do ministério, e talvez, afora a da Fazenda, a que melhor se presta a certos manejos de especulação e, no entanto bem ao contrário do que é de costume entre nós, ele morreu pobre, paupérrimo, a ponto de se lhe encontrar em casa apenas um pouco de dinheiro em papel e quase nenhum objeto de valor. Só este fato, pela sua raridade, é mais que o bastante para dar idéia de quem foi Teobaldo Henrique de Albuquerque colocar o seu nome entre os daqueles que figuram no Panteão da História, cercado de glória, abençoado pela sua geração e eternamente benquisto pela humanidade."
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.