Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Ali, de tudo lhe fomos devedores: esta educação que eu tenho; este quase nada que eu sei e que muito me tem servido; o pão que minha mãe comia; os vestidos que ambos vestíamos, tudo era ele que nos dava! oh!... o Sr. Lauro foi a Providência de Deus, que veio em nosso socorro! Ainda mais, Sr. Félix, e aqui vai o que eu nunca poderei esquecer, mesmo quando de tudo me esqueça. Um mês depois de estarmos na cidade da Bahia, minha mãe foi vítima de seus desgostos; vítima do maior mal que pode cair sobre o homem; vítima da maldição da carne!... eu vi surgirem no seu rosto manchas, ora de uma, ora de outra cor, vi intumescerem-lhe os lábios e as orelhas, vi... oh!... minha pobre mãe ficou lázara!... eu acompanhei, Sr. Félix, eu acompanhei passo a passo os progressos da horrível enfermidade! eu li letra por letra todo esse livro de miséria escrito no semblante de minha mãe! oh! e, então, quando sua voz rouca e terrível parecia espantar aos que a ouviam, quando, fugindo horrorizados de seu aspecto, cem homens demônios cuspiam para um lado, mesmo aos olhos dela; o Sr. Lauro... só ele..., só ele vinha sentar-se junto da mísera... derramar consolações em seu seio, enxugar-lhe as lágrimas com o seu próprio lenço, e chamá-la, como eu a chamava, minha mãe!... oh!... Sr. Félix, isto não se esquece e não se paga nunca, nem com o sacrifício da vida!...
Sentindo que minha mãe sofria muito, vivendo no centro de uma populosa cidade, em estado tão lamentável, o Sr. Lauro facilitou-nos uma pequena e retirada casa na vizinhança da povoação de Itapoã. Foi aí, senhor, que se passou a cena que lhe foi contada, entre minha mãe e Otávio.
Deus talvez a conservava para ser o instrumento pelo qual se chegasse a provar a inocência do Sr. Lauro; porque, poucos dias depois da noite que em nossa casa passara Otávio, minha mãe expirou nos nossos braços.
Poucos instantes, porém, antes de morrer, ela ficou a sós comigo, e disse: “Meu filho! se Lauro te pedir a tua vida, dá-lha; crê que minha alma estará sempre sobre tua cabeça para te amaldiçoar, se fores ingrato... e para te abençoar se até à tua morte te dedicares a ele, como o mais fiel dos escravos!”
Depois o Sr. Lauro entrou, e ela falou assim: “Sr. Lauro, não se mente na hora da morte: mereci os seus benefícios, porque nunca fui culpada; o meu crime esteve no meu sono... sono talvez efeito de um narcótico... não sei... nunca pude compreender... não sei quem seja o pai deste menino; seja-o o senhor.” E expirou.
Carlos suspendeu aqui a sua narração para enxugar as lágrimas, que em bagas lhe caíam.
Passando um momento, continuou:
— Foi meses depois da morte de minha mãe, Sr. Félix, que um parente afastado nosso, que finalmente também tinha piedade de nós, apesar de ser tão pobre como éramos, teve de partir por ordem do Sr. Lauro... para descobrir as provas do crime e provar a inocência do jovem repelido.
Pedi licença para vir em companhia dele, e me foi negada; eu queria a todo o custo servir ao Sr. Lauro, e determinei-me: preparei às ocultas os meus despachos, e, quando o navio em que veio este homem, para o senhor desconhecido, deu à vela, eu lhe apareci na tolda sorrindo-me, e disse: “Foi um pequeno ensaio que fiz para provar que posso servir para alguma coisa.”
Aqui chegamos, Sr. Félix, e para logo o seu desconhecido cuidou do que convinha fazer: era preciso observar dois homens... ele tinha dinheiro, dinheiro de sobra à sua disposição; um espião velou sobre Otávio; faltava outro para o Sr. Félix; eu me ofereci.
— Tu, Carlos?...
— Eu mesmo, Sr. Félix.
— Espião!...
— É verdade: espião; meu oferecimento foi de novo rejeitado; o seu desconhecido não queria consentir que eu representasse semelhante papel; mostrou-me o quanto era vergonhoso, e eu respondi: “Quero servir ao Sr. Lauro!”
— E ele?...
— Ele disse que não, que não absolutamente; mas eu sentia sobre a minha cabeça a alma de minha mãe, que parecia animar-me; usei de uma nova astúcia; eu sabia que em casa do Sr. Hugo de Mendonça havia uma mulher que amava extremosamente o Sr. Lauro; procurei falar-lhe a sós, consegui-o, contei-lhe a minha história, disse-lhe o que queria, e no dia seguinte fui recebido como caixeiro na casa do Sr. Hugo de Mendonça, e tratado com a predileção que merecia um sobrinho da mãe Lúcia.
— E portanto...
— E, portanto, o desconhecido não teve mais que opor-se; eu tinha feito tudo por minhas mãos: deram-me um quarto que fica sobre este... pode ver... levante a cabeça... ali está o meu posto de todas as noites... perdi muitas inutilmente; mas, enfim, eu soube, eu vi tudo!...
— E me traíste!...
— Sim, Sr. Félix, para servir ao Sr. Lauro, que tinha sido o anjo da guarda de minha mãe!...
Félix soltou um suspiro:
— Tiveste razão, Carlos!... ao menos tu és grato.
— Oh! mas agora, Sr. Félix, agora eu preciso alguma coisa do senhor; não desci, não vim aqui, não falo há tanto tempo sem um fim!
— E o que queres então?...
— É que eu me lembro que lhe fiz mal, que lhe ofendi, e preciso que me perdoe!...
— Carlos, tu és bom; eu te perdôo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.