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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Passeava agitado na varanda, com as mãos atrás das costas, carrancudo, irritado, reproduzindo na fisionomia os traços duros do caráter paterno. Desabafava a ira em palavras grosseiras, que pela primeira vez saíam daquela boca acostumada aos doces fraseados com que captava os ânimos do auditório. Sentia uma grande cólera contra aquele estafermo que ali estava, estúpido e mole, sem ânimo de protestar contra os insultos que ele lhe atirava, e gozava um alívio cada vez que um palavrão porco ou indecente lhe caía dos lábios. O Felisberto, atônito, punha os dedos em cruz, e beijando-os, jurava que não dissera nada ao Costa e Silva, mas S. Rev.ma não o ouvia e continuava a descompostura que só cessou quando o tapuio, corrido e atemorizado, fugiu, receando o castigasse mais severamente do que com palavras.

S. Rev.ma durante todo o dia evitou a Clarinha, que, sentada na maqueira, balançando-se de mansinho, com os olhos baixos, sem ânimo de dizer palavra, curtia a primeira mágoa que lhe amargurava a existência depois da morte de sua querida mãe.

À noite, por força do costume, reuniram-se no quarto do padre, que mudo e carrancudo, vagamente arrependido dos excessos a que se entregara, quedava-se estirado na marquesa, a parafusar sobre a solução do intrincado problema que a

indiscrição do Felisberto lhe dera a resolver. Clarinha trocava os bilros da almofada, mordendo os beiços de despeito, pela mudança que se operava no amante, e alternava os alfinetes, cravando-os com força nas casas novas, como se aquela vingança contra o papelão da renda lhe satisfizesse a zanga com que estava. João Pimenta, indiferente, como se não tivesse percebido aquela súbita catástrofe que tão inesperadamente perturbara a paz gozada pela família, mascava o seu tabaco forte, salivando a miúdo. Somente o Felisberto, que a cólera do hóspede não conseguira fazer calar por muito tempo, papagueava, como de costume, muito interessado em fornecer pormenores sobre o seu encontro com o Costa e Silva, para provar que nada lhe dissera sobre o modo de vida de padre Antônio no sítio da Sapucaia, tendo-se limitado a contar-lhe apenas que o conhecia e o sabia vivo. Nem mesmo houvera tempo para mais, valha a verdade, por Deus Nosso Senhor o jurava. O encontro dera-se na casa da família Labareda, onde o Felisberto fora receber dinheiro e o Costa comprar vinte libras de guaraná para o Elias, um sujeito do Pará. Por sinal que a família Labareda era muito ladrona, pois que vendera ao Costa e Silva o guaraná por muito mais dinheiro do que lhes dava a eles que o colhiam. Fora a primeira vez que o Felisberto vira esse desaforo, de que não fazia idéia, e se não fosse o medo de perder a freguesia, teria reclamado. O Costa lhe perguntara, quem és tu? Sou neto do meu avô João Pimenta, Jiquitaia, da tribo mundurucu. Saberá V. M.ce que meu avó era tuxaua, valente, e governava todo o Carumã.

— Pois vai-te queixar ao bispo, dissera-lhe o Costa e Silva.

O bispo estava muito longe, lá para as bandas do Amazonas, e não valia a pena. Então o Felisberto declarou que pediria a S. Rev.ma, padre Antônio, que quando fosse para esses lados, falasse por ele ao bispo, para acabar com a ladroeira da família Labareda, que estava tirando dos pobres tapuios o suor do seu rosto, que lhes custava tanto a ganhar trabalhando no sertão e arriscando a sua vida para colher o guaraná para aquela família de unhas-de-fome. O Costa ficou muito admirado e perguntou:

— Que padre Antônio é esse?

— É S. Rev.ma, padre santo muito bom, que se chama padre Antônio de Morais.

— E tu conheces a padre Antônio de Morais, mentiroso? disse o Costa e

Silva.

— Mentiroso, ele, Felisberto, não, nunca mentira, porque sabia que isso era um pecado mortal. Conhecia padre Antônio tão certo como ter sido Jiquitaia seu avô, catequizado pelo padre santo lá da Sapucaia. E por sinal que padre Antônio tinha-se encontrado com ele e o avô João Pimenta à margem do Sucundari, sozinho, muito assustado, porque havia escapado dos parintintins ou mundurucus, o Felisberto já não se lembrava bem...

— Dos parintintins, disse o Costa e Silva, foi dos parintintins!

Nesse momento o filho mais velho do Labareda, aquele que quis casar o ano passado com a filha mais moça do Francês, chamou-o para ver o guaraná que estava saindo do forno. O Costa saiu apressado e gritou do corredor ao Felisberto:

— Deixa estar que no Madeira hei-de saber notícias dele.

O Felisberto saiu, e não se encontrou mais com o regatão que nesse mesmo dia seguia viagem, ao passo que o rapaz ainda se demorara uma semana em Maués, por causa dum ....... Era coisa que não perdia, um sairé. Se esta não era a verdade, Deus Nosso Senhor o castigasse por aquela luz que os estava alumiando, e que lhe faltasse à hora da morte.

(continua...)

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