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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

Coruja afastou-se para ir buscar café e o outro então o considerou melhor. O desgraçado estava muito mais acabado e mais feio: caía-lhe agora, todo o cabelo sobre os olhos, que se sumiam debaixo das pálpebras; a boca envergava-se para baixo em uma expressão constante de desgosto e ressentimento; as costas arqueavam-se-lhe como as de um catético, e o peito afundava-se-lhe cavernosamente, tornando-o mais encolhido, mais mesquinho e mais reles.

- Pois, meu amigo, confesso-te, disse Teobaldo, quando ele voltou com as xícaras, que te procurei, porque preciso de ti, como de pão para a boca. Preciso da tua companhia. Aqui onde me vês, sou uma vítima do isolamento e do tédio!

André não respondeu e foi assentar-se a um canto do quarto, sobre um caixão vazio. - Ah! meu bom Coruja, prosseguiu S. Exa., não calculas como ando! Um inferno! Sinto-me farto, inteiramente farto da vida! Sinto-me devastado! Preciso de ti! Quero-te ao meu lado!

Venho buscar-te, e não volto para casa sem te levar comigo!

- Impossível! respondeu o outro seca mente.

- Impossível?! repetiu o ministro, fulminado por esta palavra. Como impossível?! Pois tu não queres vir comigo?

- Não posso.

- E por quê?

- Porque me sinto inutilizado! Já não presto para nada! Já não posso suportar a companhia de ninguém!

- Ora essa! Então tu também estás desgostoso?

- Mais do que podes supor. E peço-te que mudemos de assunto.

Fez-se um grande silêncio entre os dois; cada um fitava o seu ponto, sem ânimo de trocarem um olhar entre si.

Teobaldo perguntou afinal, erguendo-se:

- Não devo então contar contigo?

- Não, não posso ir. Desculpa-me.

- Está bom! Paciência!

E, depois de dar em silêncio uma volta pelo quarto, disse meio hesitante:

- É verdade! E a tua história do Brasil? Terminaste-a?

O Coruja, sem desviar os olhos do lugar em que estavam presos, apontou para um grande montão de papéis rotos, acumulados ao fundo do quarto. - Que é isto? interrogou o conselheiro.

- Desisti.

- Como assim?

- Abandonei por uma vez!

- Não concluíste o trabalho?

- Não.

- Mas foi loucura de tua parte.

Coruja sacudiu os ombros, indiferentemente, e pousou os cotovelos sobre os joelhos, ficando com as duas mãos abertas contra o queixo, sem dar mais uma palavra.

Causava estranha e viva impressão aquela figura tétrica e sofredora, que parecia agora mergulhada nesse estado comatoso que às vezes acomete os loucos.

Embalde tentou o outro puxar por ele e, vendo o egoísta que, em vez de consolações, encontrara ali ainda maior desânimo que o seu, despediu-se e saiu arrastando até à casa a negra túnica das suas aflições.

- Até este! pensava ele já na rua, até o Coruja me vira as costas! Só o público, essa bestainsuportável e estúpida, só o público me abre os braços! E do que me serve o público, se não tenho a quem amar? Do que me serve o público, se vivo neste isolamento pior que tudo? Do que me servem admiradores, se não tenho amigos?

Durante o caminho, Teobaldo, justamente ao contrário do que sucedia com André, encontrou mil pessoas que corriam a saudá-lo, apertar-lhe a mão, que o abraçavam, que o felicitavam "mais uma vez" por tais e tais gloriosos feitos.

Mas em todas essas fisionomias só viu e percebeu: - em umas, a adulação; em outras o fingimento; em outras a má vontade invejosa e sem ânimo para se patentear; e em nenhuma encontrou o que ele procurava com tamanho empenho, aquilo que ele dantes descobria em quantos o amavam e a quem afastou de si, para sempre; isto é, a dedicação, o desinteresse, a verdadeira amizade.

- Ah! não valia a pena sacrificar àquela besta esse inestimável tesouro, que agora lhe fazia tanta falta!

E era tarde! O egoísta já não podia encontrar em torno de si senão a sombra de si mesmo. E todos que o idolatravam com tanto desinteresse e aos quais ele só respondeu com a ingratidão, perpassavam agora em torno de seu espírito como espetros de remorso que se erguiam para o fazer mais infeliz, mais inconsolável e mais revoltado contra o seu isolamento.

Ainda como o Coruja, ele desejava fugir do público e ao mesmo tempo sentia medo de meter-se em casa. A rua e o lar eram para ambos um tormento de gênero diverso, mas de iguais efeitos.

Foi, pois, completamente aniquilado, que ele chegou ao portão da sua chácara.

Um criado veio dizer-lhe logo, que o velho Caetano estava agonizante.

Teobaldo apressou-se a ir ter com ele, apesar da prostração, em que se achava.

O quarto do moribundo parecia agora ainda mais sombrio do que à noite.

Um quarto estreito, enterrado no porão da casa, mas dignamente arranjado e limpo.

Era tudo de uma simplicidade austera e pobre. Na parede via-se um retrato do Barão do Palmar, sobre o qual dependurava-se uma grinalda de rosas murchas, contrastando com uma espada enferrujada e um jogo de pistolas antigas, que guarneciam a parte inferior do quadro; por cima deste, em um intervalo talvez de dois palmos, havia ainda um pequeno crucifixo de metal branco.

Dir-se-ia que aquilo era a célula de algum fidalgo vitimado pela revolução.

(continua...)

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