Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
“Hipólita pediu uma conferência particular a Paulina: esteve com ela duas horas, e retirouse. Paulina apareceu mais pálida do que nunca; todo o seu corpo tremia convulsivamente, e, dirigindo-se a seu pai, disse que não queria mais casar-se.
“Mas o pai era altivo e arrogante, e o noivo miserável e ambicioso; apesar dos gemidos da vítima e das súplicas do Sr. Lauro, Paulina ia sendo arrastada da sala para o oratório, quando na porta apareceu Hipólita.
— Parai! gritou ela.
“Todos pararam; eu estava presente e chorava; mas pude ver no rosto dessa mulher todo o fogo infernal do ciúme em delírio.
— Parai! e ouvi-me!
“Todos se voltaram para ela, à exceção de Paulina que acabava de desmaiar nos braços do Sr. Lauro.
— Esse homem que caminhava para o altar, disse ela, amou-me, prometeu desposar-me e enganou-me: eu quero saber se se consentirá depois do que acabo de expor que ele se case com aquela senhora.
— É uma louca... uma mulher perdida... disse o noivo.
— Lancem fora daqui aquela mulher! gritou o pai de Paulina aos escravos que o acompanhavam.
— Suspendei! exclamou Hipólita; ainda um instante, e eu parto. Senhores, eu sou filha de uma parteira!...
— É louca ou não?... acudiu o noivo.
— Há dez anos passados, continuou a mulher sem se dar com o que acabava de ouvir; há dez anos passados, essa moça, que vai ser levada ao altar, foi passar alguns meses na cidade da Bahia em companhia de uma senhora, parenta sua.
— E o que tem isso?... perguntou o velho pai.
— Poucos dias depois de voltar ela a esta fazenda, um menino, um enjeitado, aqui foi depositado...
— E a que vem semelhante história?... tornou o velho elevando a voz.
— Senhores!... exclamou a mulher, eu já disse que minha mãe era parteira...
— Insolente!... gritaram algumas vozes.
— Eu digo que esse menino é filho daquela senhora!... eu o denuncio!... e agora, senhor, pode casar-se com ela!
E a mulher infernal deixou para sempre a casa a que viera, como o gênio do mal, semear desgraças.
O longo silêncio que se seguiu à cena precedente foi interrompido por um grito de Paulina, que exclamou:
— Eu sou inocente!... eu não sou culpada!...
— O senhor a está ouvindo: que ela jura que é falso, que é calúnia o que disse aquela mulher! falou o velho ao noivo.
— Mas esse menino... balbuciou este.
— O menino de que se trata é aquele, tornou o velho apontando para mim: é um enjeitado...
— Que um dia pode inventar direitos...
— Senhor!...
— Eu o tenho visto sempre tão cercado de cuidados...
— Pois ele irá para longe, disse o velho; já tem idade...
Paulina levantou a cabeça e animou-se a dar dois passos para meu lado.
— Depois do que acaba de passar-se, continuou o velho, é preciso fazê-lo sair... nós faremos...
— Meu pai! um pobre inocente!... murmurou a moça.
O velho franziu os sobrolhos, ouvindo sua filha defender-me; e prosseguiu:
— É ágil, vivo e esperto... será um belo marinheiro...
— Não!... jamais!... exclamou Paulina.
— Paulina!...
A moça atirou-se sobre mim, e abraçou-me apertadamente.
— Tirem dali aquele brejeiro! gritou o velho; tirem-no!... eu lhe darei o competente destino...
Os escravos avançaram para mim, porém Paulina colocou-se diante deles, e, furiosa, bradou:
— Eu o criei!... eu o criei!...
O velho avançou por sua vez... agarrou-me com tanta força, que me fez gritar, e empurrou-me para fora; eu, sem pensar no que fazia, corri para Paulina; mas, sendo por ele de novo seguro, tal arremesso recebi que fui cair sobre uma cadeira, e vi correr uma onda de sangue de minha cabeça.
Ouvi, então, um grito desesperado:
— Meu filho!...
Senti um corpo de mulher cair sobre o meu, e uma maldição de pai cair também sobre minha mãe.
Por ordem dele fomos ambos arrastados para fora de casa; mil vezes minha pobre mãe jurou que tinha sido vítima de um infame; ela não foi ouvida, nem nesse dia, nem no outro, nem em todos os mais que foram passando.
Minha mãe esperou debalde que o único homem, a quem ela tinha amado no mundo, fizesse alguma coisa em seu favor; enganou-se: o miserável, desde que a viu expulsa da casa paterna, não cuidou mais dela, nem para consolá-la; oh! todos fugiam de minha mãe! seus antigos amigos, seus protegidos, aqueles a quem ela havia enchido de benefícios, seus próprios escravos, enfim, zombavam e escarneciam dela!... dias horríveis passamos nós em uma pobre choupana, jejuando ou comendo frutos agrestes!... no entanto, um único homem se lembrava de nós: era o Sr. Lauro. Depois de querer em vão reconciliar meu avô com minha mãe, ele, exasperado contra seu rigor, deixou-o, procurou-nos, e tendo-nos encontrado, levou-nos consigo para a cidade, capital da Bahia.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.