Por Aluísio Azevedo (1895)
- Saiba V. Exa. que a Sra. D. Branca, que o tem ido ver muitas vezes todos os dias, deu ordem ao Sabino para não sair do lado dele.
- Bem. Previne ao Sabino que eu quero ir ver o Caetano.
O criado, surpreso com estas palavras, mas sem o dar a perceber, afastou-se imediatamente; ao passo que o amo, vestindo-se às pressas e, contra o seu costume, em desalinho, abandonou ainda uma vez o gabinete e ganhou em direitura ao quarto do enfermo.
Não era, como ele próprio supunha na sua necessidade de fazer bem, o interesse pelo velho servo de seu avô e companheiro de seu pai o que o impelia àquele ato de piedade, mas simplesmente a urgência de falar com alguém que ainda o estimasse; alguém que lhe arrancasse o coração do lastimável estado em que se achava naquele instante. Recebeu um logro. O pobre velho não dava mais acordo de si e só dizia palavras desnorteadas pelo delírio da febre.
- Não me reconheces, amigo velho? perguntou-lhe o conselheiro, amparando-se-lhe das mãos hirtas e nodosas.
- Sim, Nho Miló? Meta a espora no cavalo, que os Saquaremas, embicando por este lado, hão de encontrar homem pela proa!
E os olhos do velho torciam-se nas órbitas com um aceso de cólera senil.
- Sonha com meu pai e com as revoluções de Minas!... pensou Teobaldo entristecido. Ah! o Barão do Palmar foi ao menos um homem! É justo que este desgraçado lhe dedique os seus últimos pensamentos em vez de os dedicar a mim, que nem isto mereço. É justo! É justo!
E saiu dali para esconder o seu desespero contra aquele maldito velho, que, no delírio da morte, não achava uma palavra de consolação para lhe dar.
Atravessou a chácara sem levantar a cabeça, o ar muito sombrio e pesado, os olhos fundos e cheios de sangue.
Quando chegou à rua, estacou e pôs-se a olhar para as águas da baía que se douravam aos primeiros raios de sol.
Pôs-se a andar pela praia, vagarosamente, quase que sem consciência do que fazia. E o dia, que apontava, um dia triste e cheio de névoas, um dia sem horizonte, como o próprio espírito de Teobaldo, ainda mais lhe agravava o mal-estar.
Ele sentia frio e dores por todo o corpo.
Caminhou assim durante uma hora; cabeça baixa, mãos nas algibeiras do sobretudo e uma secura enorme a lhe escaldar a garganta.
Três vezes tentou fumar e de todas lançou fora o charuto, porque não podia suportar o cheiro do fumo.
Afinal viu um carro de praça, chamou-o, meteu-se dentro dele e mandou tocar para a casa do Coruja.
Todavia, depois mesmo de estar em caminho, hesitava em lá ir. O seu procedimento para com o pobre amigo não podia ser pior e mais ingrato do que fora, ultimamente.
Nada fizera do que lhe prometera; não lhe dera o tal emprego, nem mandara publicar a célebre história do Brasil.
- E havia tanto tempo que já não se viam!... Em que disposição estaria André a respeito dele?... Qual teria sido nessa ausência a sua vida, com uma família às costas e sem meios de ganhar dinheiro?... Quem sabe até se ele tivera estado doente?... Quem sabe se já não teria morrido?...
Davam sete horas quando Teobaldo entrava em casa do Coruja.
O aspecto do corredor, o silêncio que aí reinava, entristeceram-no, pondo-lhe no coração um vago sentimento de remorso.
- Com um bocadinho de esforço, pensou a sua consciência, ter-se-ia restituído a esta pobre gente a primitiva felicidade!...
Foi Inez que veio recebê-lo, e, posto que surpresa com a visita, ela deixava transparecer no semblante as contrariedades de sua vida.
- Como está a senhora sua mãe? perguntou Teobaldo.
- Mal, Sr. conselheiro; há mais de um mês que ela não faz outra coisa senão gemer. Está cada vez pior. Agora tudo lhe dói: são as pernas, os braços, a caixa do peito, as costas, o pescoço e a cabeça! Coitada, chega a fazer dó!
- E o André? Como vai?
- Não sei, não senhor, mas também não anda bom! Ultimamente quase que não dá uma palavra a pessoa alguma; entra da rua e sai de casa, sem tugir nem mugir; às vezes mete-se no quarto às seis da tarde e só dá sinal de si no dia seguinte.
- E como vão os negócios dele? Sabe?
- Sei cá! Se ele não fala com pessoa alguma! Não dá uma palavra!
- Tem trabalhado muito?
- Trabalhado?
- Pergunto se tem escrito.
- É natural; pelo menos leva um tempo infinito metido no quarto.
- Ele está aí?
- Está, sim, senhor; faz favor de entrar.
Teobaldo foi bater à porta do Coruja e ficou gelado defronte do ar frio que este o recebeu.
- Como vais tu? disse.
André sacudiu os ombros e resmungou alguns sons que não lhe passaram da garganta.
- Que diabo tens hoje? Acho-te mudado.
- Nada.
- Não! Tens alguma coisa que te aflige!
- Aborrecimento. Entra. Já tomaste café?
- Ainda não, e quero, porque não me sinto bem.
- Estás doente? Nunca te vi tão amarelo e tão abatido.
- É! Efetivamente não tenho passado bem! Apoquentações... Agora mesmo creio que sinto febre! Não imaginas a vida que levo! Um martírio!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.