Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Na manhã do dia 25 de março de 1838, o atual Sr. marquês de Olinda, então regente do Império, e todo o Ministério, que se compunha de Bernardo Pereira de Vasconcelos e dos Srs. Miguel Calmon Du Pin e Almeida, depois marquês de Abrantes, Joaquim José Rodrigues Torres, depois visconde de Itaboraí, Antônio Peregrino, Maciel Monteiro e Sebastião do Rego Barros, dirigiram-se ao antigo seminário de S. Joaquim, e no meio de um numeroso concurso de cidadãos assistiram e presidiram às cerimônias da inauguração do Imperial Colégio de Pedro II.
A inauguração do colégio precedeu mais de um mês ao começo dos trabalhos do ensino.
No dia 27 de abril principiaram a entrar para o colégio os alunos internos, cujo número chegou apenas a trinta no fim de maio, faltando ainda cinco dos que tinham sido aceitos. No número desses trinta contavam-se sete pobres e gratuitos. No maior dos dormitórios, que en tão já se achavam preparados, podiam caber mais cinco leitos do que os que eram necessários para acomodar os alunos internos apresentados.
O colégio oferecia já proporções para receber sessenta e cinco pensionistas.
As aulas abriram-se no dia 2 de maio, notando-se algumas irregularidades, que foram pela maior parte devidas à falta de compêndios e livros apropriados para os estudos das diversas matérias.
O estado sanitário dos colegiais foi se mostrando satisfatório e o médico Dr. Emílio Joaquim da Silva Maia, professor de ciências naturais, prestou-se a tratar gratuitamente alguns alunos, que foram acometidos de erupções de pele, aliás pouco importantes.
É completamente inútil dizer que durante os primeiros meses o serviço interno do colégio ressentia-se de muitas faltas, que foram pouco a pouco desaparecendo.
Já lá vão vinte e três anos depois do dia 25 de março de 1838, dia de festivo triunfo das letras e de faustosa conquista civilizadora, e no correr desses vinte e três anos a experiência e a sabedoria têm introduzido tantas reformas e modificações nos estatutos e planos de estudos do Imperial Colégio de Pedro II, que a história de todas essas mudanças, inovações e aperfeiçoamentos exigiria longos artigos para ser completamente desenvolvida e bem acabada.
Tenho medo de fatigar a paciência dos meus companheiros de passeio, e por isso, prefiro resumir toda a história a que me refiro, apontando simplesmente as datas e as matérias dos decretos e atos mais importantes do Governo em relação ao Imperial Colégio de Pedro II.
Submeto-me, portanto, à cruel necessidade de escrever um mal arranjado índice da legislação do colégio. Quem não tiver coragem para acompanhar-me neste trabalho pode dar por terminado o passeio de hoje, e deixar-me só, navegando por este mare magnum.
Eu principio.
Decreto de 2 de dezembro de 1837, convertendo o seminário de São Joaquim em Imperial Colégio de Pedro II.
Decreto de 31 de janeiro de 1838, dando regulamento ao Imperial Colégio de Pedro II.
Decreto de 5 de fevereiro de 1838, nomeando D. frei Antônio de Arrábida, bispo de Anemúria, reitor do Imperial Colégio de Pedro II.
29 de abril de 1838, data das nomeações dos primeiros professores do colégio.
Decreto de 14 de fevereiro de 1839, tomando novas disposições a respeito do enxoval dos alunos.
Decreto de 24 de março de 1839, revogando a disposição que determinava ser necessária a licença do Governo para a matrícula dos alunos que tivessem mais de 12 anos de idade.
Decreto de 4 de outubro do mesmo ano, nomeando uma comissão composta do bispo de Anemúria, bispo eleito do Rio de Janeiro e do Senador José Saturnino da Costa Pereira, para propor as alterações convenientes aos estatutos do colégio.
Decreto de 1º de fevereiro de 1841, estabelecendo novo plano de estudos, dividindo o curso em sete anos, devendo ensinar-se, no primeiro ano, gramática portuguesa, latim, francês, desenho e música. No segundo, latim, francês, inglês, geografia, desenho e música. No terceiro, latim, francês, inglês, alemão, geografia e história antiga, desenho e música. No quarto, latim, francês, inglês, alemão, grego, geografia e história romana, desenho e música. No quinto, latim, francês, inglês, alemão, grego, geografia e história média, aritmética e álgebra, zoologia e botânica, desenho e música. No sexto, latim, francês, inglês, alemão, grego, geografia e história moderna, retórica e poética, filosofia, geometria e trigonometria, física e química, desenho e música. No sétimo, latim, francês, inglês, alemão, grego, geografia antiga e história do Brasil, retórica e poética, filosofia, cosmografia e cronologia, mineralogia e geologia, zoologia filosófica, desenho e música. Convém saber que este plano de estudos foi proposto pelo Sr. Dr. Joaquim Caetano da Silva, então reitor do colégio.
Decreto de 21 de janeiro de 1842, mandando dispensar do enxoval de entrada os alunos cujos pais preferissem tomar a seu cargo dar-lhes a roupa.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.