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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Que fazes aí, Carlos?... perguntou Félix sem mostrar-se enfadado.

— Eu o estava observando, Sr. Félix, estava colhendo no seu rosto os pensamentos que o ocupam.

— Tu és um importuno, por aqui teres vindo sem motivo algum, e és um tolo pelo que acabas de dizer.

— Eu não sou importuno, Sr. Félix, porque foi uma forte razão quem aqui me trouxe, e não sou tolo, porque, em verdade, sei a respeito de que estava o senhor pensando.

— Então, a respeito de quê?... perguntou Félix ensaiando um sorriso.

— O senhor estava pensando, disse o menino sem hesitar, como é que um homem desconhecido e estranho pôde ter inteiro conhecimento de um contrato criminoso, efetuado em alta noite e sem testemunhas, entre o senhor e Otávio.

— Carlos!...

— Estava pensando em quem poderia ter confiado a esse desconhecido as menores circunstâncias dessa cena criminosa. Quem poderia ter dito que o objeto que Otávio lhe deixou em troca dos que levou, fora escondido no segredo de sua carteira.

— Meu Deus!... meu Deus!... exclamou Félix escondendo o rosto.

— Estava, enfim, pensando que fora o seu próprio amigo quem atraiçoara o seu segredo. — Sim!... é isso mesmo!... disse Félix erguendo-se e encarando o rosto do menino; é isso mesmo!... e então?..

— Não foi Otávio quem o traiu.

— E, portanto, quem foi?...

— Para o dizer, Sr. Félix, é que me acho aqui a esta hora.

— Bem... bem...

— O Sr. Félix vai ouvir a minha história.

— Carlos! que me importa isso?

— Mais do que pensa.

— E o nome?... o nome do traidor antes de tudo!...

— Mas é preciso ouvir a minha história.

— É longa?...

— Fá-la-ei breve.

— Pois conta-a, disse Félix sentando-se no leito.

— Sr. Félix, perguntou o menino, conhece, sabe quem é o desconhecido que aqui veio esta noite?...

— Diz-se um amigo de Lauro de Mendonça.

— Bem, tornou o menino, depois de pensar um instante; bem, é isso mesmo; agora vou começar a minha história.

Félix esperou um momento, mas, notando que o menino não falava, olhou para ele e disse:

— Anda, fala.

Ora, Carlos era eminentemente sangüíneo, e alguma coisa que o devia fazer corar, obrou sobre ele, de forma que seu rosto se tornou de repente cor de escarlate.

— Há, Sr. Félix, um velho costume de que a sociedade não se emenda, e que, todavia, é uma injustiça... uma infâmia. Quando uma mulher é iludida e ultrajada no que tem de mais nobre, a sociedade não fecha suas portas ao homem que a iludiu e ultrajou; cospe, porém, no rosto da mulher que se deixou perder em um instante de desvario, ou que foi, a pesar seu, brutalmente ultrajada.

— E o que vem isso ao caso, Carlos?...

— Perdoe-me, Sr. Félix, eu começo imediatamente. A algumas léguas de distância da cidade da Bahia, vivia há seis anos um abastado fazendeiro, tão honrado como altivo, e que parecia concentrar todas as suas afeições numa filha que tinha: chamava-se esta Paulina. Bela e virtuosam, Paulina tocava os seus trinta anos ainda solteira, e, tendo já rejeitado grande número de pretendentes, ela passava seus dias ao lado de seu velho pai, e, naturalmente melancólica e acanhada, raras vezes se deixava ver; alguém havia, contudo, que merecia de seu coração a mais extremosa amizade; era um pobre menino de dez anos, que fora na sua casa enjeitado, era eu.

“Travesso, talvez engraçado com as minhas meiguices infantis, era eu a única pessoa que ganhava um sorriso de Paulina. Para todos os mais ela se mostrava a mesma: triste... muito triste; dir-se-ia que no fundo de sua alma existia um agudo espinho, que a feria de contínuo.

“Na opinião de seu pai, no entender de todos, um único remédio podia dar-se para curá-la daquele eterno abatimento, que se parecia bastante com o que se chama desamor do mundo: era fazê-la amar.

“Pois Paulina amou. Um estrangeiro, que para perto veio morar, ganhou o que por tantos havia sido debalde pedido; ganhou seu coração; foi esse um amor, Sr. Félix, ligeiro e ardente como a chama... eu tinha tão pouca idade, que não me lembro de nenhuma de suas circunstâncias; sei, porém, que quase milagrosa deveu ter sido a impressão produzida por esse mancebo em Paulina; e recordo-me bem que muitas vezes ela me abraçava, me beijava, dizendo-me: ‘eu vou casar-me, meu Carlos’! e orvalhava-se o rosto com suas lágrimas.

“E, com efeito, eles iam casar-se; o moço a pedira a seu pai, e, como fosse rico e estrangeiro, a tinha sem dificuldade obtido. O dia do casamento estava marcado; esperava-se um negociante da Bahia, que deveria ser o padrinho; só três dias faltavam para chegar o dia da celebração das núpcias; e Paulina chorava sempre, abraçando-me.

“O negociante que se esperava não pôde vir; mas em seu lugar mandou o seu primeiro caixeiro munido de competente procuração; este primeiro caixeiro, Sr. Félix, chamava-se Lauro. “Além de Lauro, uma outra personagem tinha também vindo da cidade, que deveria perturbar os prazeres que antecipadamente se gozavam na casa: essa personagem era uma moça. Viera só, sem pai, nem irmão, nem marido, nem criada; e era bela, chamava-se, oh!... lembro-me bem de seu nome, chamava-se Hipólita.

(continua...)

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