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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

– De suas mãos - nada! O senhor é um homem mau! É um egoísta, é um fátuo! Prefiro morrer de fome, prefiro ir acabar em um hospital, mas deixe-me, deixe-me, por amor de Deus!

XXVII

Teobaldo abandonou a casa de Leonília e, depois de vagar ainda pelas ruas, recolheu-se mais aborrecido do que nunca.

Uma indomável necessidade de companhia, mas de companhia amiga e consoladora, o assoberbava a ponto de irritá-lo.

Foi com o coração desconfortado e o espírito oprimido que ele atravessou as salas desertas de sua casa. Dir-se-ia que ali não morava viva alma; um silêncio quase completo parecia imobilizar o próprio ar que se respirava; os quadros, as estatuetas e as faianças nunca para ele haviam sido tão mudos, tão frios e tão imperturbáveis.

Meteu-se no gabinete, disposto a trabalhar qualquer coisa, para ver se conseguia distrairse; mas aquela solidão tirava-lhe o gosto para tudo; aquela solidão o aterrava, porque o desgraçado já não podia, como dantes, fazer companhia a si mesmo; já não podia entreter--se a pensar em si horas e horas esquecidas, e também já não tinha ilusões, porque o principal objeto de suas ilusões era ele próprio, e ele estava desiludido a seu respeito.

Seu ideal era como um espelho, onde só a sua imagem se refletia; quebrado esse espelho, ele não tinha coragem de encarar os pedaços, porque em cada um via ainda, e só, a sua figura, mas tão reduzida e tão mesquinha que, em vez de lhe causar orgulho como outrora, causava-lhe agora terríveis dissabores.

Como a vida é horrível! pensou ele; como tudo que ambicionamos nada vale, uma vez alcançado! Como eu me sinto farto e desprendido de tudo aquilo que até hoje me interessava e me comprazia! Afinal, do que serve existir? Para que viver? Que lucramos em atravessar estes longos anos que atravessei? Onde estão os meus gozos? as minhas regalias? Que espero fazer amanhã melhor do que fiz hoje? Que há em torno de mim que possa me dar um instante de ventura? Ah! Se eu não tivera sido tão mau! Tão mau para mim, pensando que o era para os outros!.

E ouviu bater três horas.

- Três horas da madrugada! E não trabalhei, nem li, nem fiz coisa alguma. e nem posso dormir, e tenho de suportar a mim mesmo, sabe Deus até quando! E sinto-me doente! A febre escalda-me o sangue!

Levantou-se do lugar onde estava e, cambaleando, fez algumas voltas pelo quarto.

- Oh! Este isolamento me aterra!

Pensou então na mulher: - Ela nessa ocasião dormia, com certeza... Naquele momento daria tudo para, a ter junto de si.

Mas ele a queria, não como ela era ultimamente, porém, como dantes, quando o amava, quando vinha recebê-lo à porta da rua e não o abandonava senão quando ele tornava a sair de casa.

Assim é que a queria - companheira, amiga, unida e inseparável.

- Ah! Se eu não tivesse me incompatibilizado com ela!... Se pudesse ir buscá-la, traze-la aqui para o meu gabinete, desfrutar a sua companhia, gozar o seu coração!... Oh! mais tudo isto já não pode ser! Está tudo perdido! Ela continua a ver em mim um vaidoso, um fátuo, um homem ainda menor que o mais vulgar! Nunca mais poderei ser para Branca o que fui, o que ela me julgou na cegueira do seu primeiro amor!

E Teobaldo deixou-se cair de novo na cadeira, com o rosto escondido entre as mãos, a respiração convulsa, os olhos ardendo como se fossem duas chagas.

- Se eu não tivesse sido para ela o que fui, talvez, quem sabe? tivéssemos agora um filhinho?

Esta idéia lhe trouxe uma golfada de soluços.

E, no seu desespero, ele via esse filho imaginário; esse ente que nunca existira e de quem ele tinha saudades, porque entre os vivos não encontrava um coração que o recebesse.

Chorou muito ainda, depois ergueu-se e saiu do gabinete.

Atravessou como um sonâmbulo os aposentos da casa, ate chegar ao corredor por onde se ia ao quarto de Branca.

A porta estava fechada.

- Se ela soubesse quanto eu sofro!... Ela, que é tão boa, tão compassiva e tão casta, talvez, tivesse compaixão de mim!...

Mas não se animou a bater.

- Havia tanto tempo que não se falavam senão em público!... Ele tantas vezes desdenhara dos seus carinhos; tantas vezes fingira não compreender as lágrimas dela!...

Abandonou de novo o corredor, na intenção firme de recolher-se à cama.

Chamou o criado, pediu conhaque, bebeu, despiu-se e deitou-se. Não conseguiu dormir. Tocou de novo a campainha.

- Meu amo chamou?

- Sim. Vê roupa. Torno a sair.

- Mas V. Exa. parece incomodado; creio que faria melhor em...

- Vê roupa! Não ouves?!

E, quando o criado ia de novo a sair, depois de cumprida aquela ordem: - 0lha!

- Senhor!

- Chama o Caetano.

Era uma idéia que lhe acudira com vislumbres de inspiração.

- O Caetano... repetiu o criado, saiba V. Exa. que o Caetano está de cama.

- De cama?... Que tem ele?

Amanheceu há quatro dias com muita febre e ainda não melhorou.

- Achava-se nesse estado, e nada me diziam! Canalha!

- Peço perdão, mas devo notar que o senhor conselheiro há muito tempo que não aparece a ninguém.

- Cala-te. Sou capaz de apostar que deixaram sozinho o pobre do velho!...

(continua...)

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