Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

A data do decreto que criou o Imperial Colégio de Pedro II é, como já ficou dito, de 2 de dezembro de 1837, dia aniversário natalício de S. M. o Imperador. A inauguração, porém, do colégio somente foi efetuada a 25 de março do ano seguinte.

O tempo que correu entre 2 de dezembro de 1837 e 25 de março de 1838 foi empregado ativamente em melhorar e aumentar os cômodos da casa do antigo seminário de S. Joaquim, continuando as obras ainda depois por muitos meses, e tanto empenho mostrava o ministro Vasconcelos em vê-las acabadas, que, apesar de atarefado com as pastas ministeriais do Império e da Justiça, e com a direção da marcha política do gabinete de que era indubitavelmente o chefe, e apesar, enfim, da sua cruel paralisia dos membros superiores e inferiores, apresentava-se repetidas vezes no colégio, ativando os trabalhos com a sua presença e fazendo prontamente desaparecer as dificuldades que se opunham ao rápido desenvolvimento deles.

A 5 de fevereiro de 1858, foi nomeado o 1º prior do Imperial Colégio de Pedro II, e essa nomeação recaiu em D. frei Antônio de Arrábida, bispo de Anemúria. Os novos professores foram nomeados em abril do mesmo ano, tendo sido a 31 de janeiro publicado o regulamento contendo os estatutos do colégio, que compreenderam não menos de 239 artigos, marcando as funções do reitor, vice-reitor, professores e todos os empregados, estabelecendo o plano de estudos, dividindo o ensino em oito aulas ou anos letivos, em que se devia ensinar gramáti ca portuguesa, latim, grego, francês, inglês, geografia, história, retórica e poética, e filosofia. Matemáticas, compreendendo aritmética, álgebra, geometria, trigonometria e mecânica. Astronomia, História natural, compreendendo zoologia, botânica e mineralogia. Ciências físicas, compreendendo física e química. Desenho e música vocal. Especificando o enxoval dos alunos, as condições para o bacharelado, o regime econômico e tudo, enfim, quanto era de mister que fosse regulado.

Admira em verdade que neste plano de estudos fosse tão completamente esquecida a doutrina da nossa religião e a história sagrada. Mas julgou-se então suficiente incumbir nos estatutos ao capelão do colégio o cuidado de dar instrução religiosa aos alunos nos dias e horas que fossem marcados pelo Regimento Interno, e por fim de contas, se a organização do colégio ressentia-se de pouco religiosa, em compensação foram os eclesiásticos que tomaram logo o supremo Governo do estabelecimento.

Os primeiros professores nomeados foram: de história natural e ciências físicas, o Sr. Dr. Emílio Joaquim da Silva Maia; de história e geografia, o Sr. Dr. Justiniano José da Rocha; de grego e de retórica, o Sr. Dr. Joaquim Caetano da Silva; de inglês, Diogo Maze; de francês, Francisco Maria Piquet; de filosofia, o Sr. Dr. Domingos José Gonçalves Magalhães; de latim, o Sr. Jorge Furtado de Mendonça; de desenho, o Sr. Manuel de Araújo Porto Alegre; de música, o Sr. Januário da Silva Arvelos.

A simples menção dos nomes do reitor e dos professores com os quais se ia inaugurar o Imperial Colégio de Pedro II devia bastar para os primeiros fundamentos do crédito do estabelecimento. Porque, em geral eram os nomeados ou recomendáveis por sua capacidade já provada nas matérias que tinham de ensinar, ou por sua reconhecida ilustração, e alguns eram até com razão considerados notabilidades.

É triste a idéia de que no Imperial Colégio de Pedro II se encontre hoje apenas um único desses dez escolhidos para a direção do estabelecimento e para o ensino das matérias de que constava o plano dos estudos. Alguns vivem ainda, felizmente, seguindo, porém, diversas carreiras. Os outros a morte já os fez desaparecer da Terra.

O distinto professor de latim o Sr. Jorge Furtado de Mendon ça é o último representante dessa bela família literária que teve a glória de inaugurar o Imperial Colégio de Pedro II.

Ainda mais do que o desejo de abundar em esclarecimentos e explicações, um verdadeiro amor fraternal me convida com ardor a marcar com minuciosidade todas as mudanças que têm havido no pessoal da reitoria, vice-reitoria e professorado do Imperial Colégio de Pedro II, e muito mais me impõe o dever de visitar os jazigos dos reitores e professores que pagaram o tributo à morte; mas esse empenho me levaria agora muito longe, e eu prefiro dedicar a esse assunto um passeio especial.

No dia 12 de março de 1838 tiveram princípio os exames preparatórios dos alunos que se apresentavam para matricular-se no novo colégio, e esses exames estenderam-se até ao dia 30 do mês seguinte.

O decreto da criação deste importante colégio trouxe a data do dia aniversário natalício de Sua Majestade o Imperador o Sr. D. Pedro II. O dia da inauguração do patriótico estabelecimento foi o do aniversário do juramento da Constituição do Império, e portanto, sob gloriosos auspícios nasceu e começou ele.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...121122123124125...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →