Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Terríveis tormentos deviam estar dilacerando o coração do infeliz guarda-livros.
— Tudo isso!... maldito!... miserável!... desgraçado!... maldito, sim: porque fui capaz de ceder a essa influência satânica do demônio da inveja! maldito porque manchei a minha vida! maldito porque cometi um crime infame, e denunciei a um inocente como perpetrador dele!... miserável, porque, sofrendo torturas indizíveis, remorsos despedaçadores, nunca tive ânimo em sete anos que são passados, de vir aqui ajoelhar-me, confessar o meu crime, e obter o meu perdão!... desgraçado, sim, oh! muito desgraçado!... porque as penas que tenho sofrido, que sofro, e que sofrerei, são ainda maiores do que meu próprio delito!...
No entanto, Ema arquejava exasperada!... seu semblante deixava adivinhar que havia no fundo da sua alma uma dor cruel; Hugo o percebeu, e cuidadoso lhe falou:
— Que tem, minha mãe?
— Arrependimento também!... ele era inocente!...
— Eu o pensava, minha avó!... disse Honorina.
— E a cruz?... e a cruz?... exclamou a velha voltando-se de repente para Félix.
O guarda-livros arrancou do seio a caixa forrada de veludo preto, e de joelhos aos pés de Honorina:
— Só a ela!... disse, só a ela, que me há de perdoar!...
— Nunca!... nunca!... bradou Ema arrancando a caixa da mão da neta.
— Perdão!... perdão!... perdão!...
— É ela!... é a mesma!... a cruz sagrada!... a cruz da família!... exclamou a velha beijando a santa relíquia com entusiasmo.
— Perdão!... perdão!... perdão!...
— Possa meu primo perdoar-lhe, disse Honorina, como eu de todo o meu coração o perdôo...
— Nunca!... nunca!... sai desta casa!... disse Ema.
— Minha mãe! acudiu Hugo; ele deve estar bem arrependido!...
— Nunca!... nunca!... bradou a velha afastando-se até o fundo da sala, como horrorizada. Era tal a comoção que experimentava Ema, que Hugo a seguiu ao sofá, onde ela acabava de cair sufocada.
Félix aproveitou esse momento, e falando a Honorina:
— O meu perdão!... disse ele.
— Eu já lhe perdoei de todo o meu coração, respondeu ela.
— Oh! mas é preciso conseguir para mim o perdão de sua avó e de seu pai! eu podia esconder para sempre o meu crime; uma pessoa, porém, por amor da senhora talvez, uma única pessoa no mundo me arrastou a face pela vergonha, e me obrigou a vir aqui! não há, pois, virtude no que fiz!... confesso-o; eu estava arrependido; mas o medo... o medo só de um homem pôde fazer tanto; e é em nome desse homem que eu exijo também da senhora o meu perdão! e que faça com que sua família me perdoe e esqueça o meu delito!... não sou eu1... é ele quem lhe restitui a sua cruz, quem prova a inocência de seu primo, quem exige que eu seja por todos perdoado!... é ele!... ele só!...
— E quem é ele?... perguntou Honorina admirada.
— O moço loiro!...
Honorina não pôde esconder o prazer imenso que sentia; sorrir belo e divino espraiou-se em seus lábios... abriu a boca para exalar um longo suspiro... e soltou um grito...
Hugo e Ema acudiram, medrosos.
— Minha avó!... meu pai!... exclamou a virgem fora de si, o perdão!... o perdão deste homem pelo amor de Deus!...
Minutos depois Félix descia as escadas de Hugo de Mendonça, perdoado por toda aquela família.
Antes que o guarda-livros acabasse de descer a escada, outra vez desenhou-se atrás de uma das vidraças uma sombra de mulher, que se voltou para o lado da árvore, debaixo da qual ainda estava o desconhecido; mas desta vez não foi ele, mas, sim, a mulher quem agitou no ar um lenço branco.
Portanto, não era acaso, era um sinal de antes ajustado.
Quando Félix chegou à rua, o desconhecido aproximou-se dele e disse:
— Sei tudo: o senhor cumpriu a sua palavra, e foi perdoado. Adeus!
Um momento depois, Félix caminhava apressadamente para o lado da casa de comércio, onde morava, e um pouco atrás dele o desconhecido descia pelo cais da Glória.
Às nove horas da noite dois vultos se aproximaram um do outro junto à igreja da Lapa do Desterro.
XXXVII
Carlos
Félix entrou em seu quarto, nesse quarto em que pouco antes se haviam passado cenas para ele acerbas, e atirou-se sobre o leito, vestido como estava, sem lhe importar mais trancar a porta por dentro.
Eram pouco mais de nove horas da noite, e posto que já estivesse o armazém fechado, ainda nenhum dos caixeiros e serventes deveria dormir.
Aflito ainda com o que tinha ocorrido, porém, sentindo-se livre desse peso enorme que por sete anos lhe esmagara o sossego, Félix pôde, enfim, ordenar suas idéias e pensar no vôo desses acontecimentos inesperados, na representação improvisada desse drama vergonhoso em que lhe coubera o mais triste papel.
Havia um ponto em que Félix não podia explicar sem acusar a Otávio como traidor; de que meio se valera esse desconhecido para saber até o lugar onde ele tinha escondido a cruz de brilhantes?...
Estava, pois, entregue a tais pensamentos, quando, ao voltar uma vez os olhos, viu em pé, com os braços cruzados defronte de seu leito, um jovem de dezesseis anos, caixeiro da casa.
Esse menino era belo, alegre e esperto, e mostrava-se, então, abatido e melancólico.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.