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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

Iria ver Ambrosina... por que não? Negar­se, ou deixar aquela humilde súplica sem resposta, seria mostrar­se receoso de um encontro, e dar por demais importância ao que em verdade já lhe não merecia nenhuma. E, caso ainda houvesse nele vestígios de saudade da estúpida paixão que lhe estragara a vida, semelhante visita os destruiria sem dúvida uma vez por todas, pois a desgraçada, se afinal se havia resignado a um obscuro arrependimento, era seguro por ver­se completamente batida e já sem cotação no mercado do prazer.

Iria ver de perto esse destroço de inimigo, e contemplar, em plena paz, os restos da desmantelada fortaleza, em que ele se chorou prisioneiro durante a melhor parte da sua mocidade.

— Sim, deve estar acabada! deduzia ele, a calcular o tempo decorrido desde que os dois se conheceram. E não é sem razão! Andará pelos quarenta anos ou perto disso... Ora, eu, que sou mais moço, já tenho cabelos brancos e rugas até na alma, ela o que não terá?...

E foi calmo, positivo, cheio de um ar prático da vida, que Gabriel entrou na precária sala de Ambrosina.

Ela apareceu­lhe toda de luto, arrastando uma grande e magoada contrição.

Não tinha consigo um jóia; traje e penteado eram de um simplicidade calculada e artística. Nenhuma tinta no rosto, nenhum artificial perfume nos cabelos. Os braços cobertos por um filó negro; na garganta, pálida e nua, um pequenino crucifixo de marfim pendente de um cordel de seda.

Como ainda está bonita!... Foi o primeiro pensamento de Gabriel, assim que a viu.

E, meio condoído pelo ar triste e resignado da ex­amante, disse­lhe em tom quase cerimonioso:

— Vê que não fiz ouvidos de mercador ao seu convite... Aqui me tem...

— Obrigada! muito obrigada! respondeu ela comovida e suspirosa, indo beijar­lhe a mão.

— Dou­lhe os meus parabéns por dois motivos, volveu o rapaz; porque está muito bem conservada e porque me parece inteiramente convertida...

— Aceito o cumprimento pela segunda das razões, mas não pela primeira... balbuciou Ambrosina, fazendo a visita tomar assento a seu lado num divã rasteiro; convertida, isso estou eu... Ah, se estou! quanto a bem conservada... não sei, nem me interessa saber. Ainda ontem, num dos meus momentos de íntima revolta contra mim mesma, estive quase, por desespero, a despojar­me dos cabelos... Imagine!

— Que loucura!..

— Loucuras foi o que eu fiz noutro tempo... e daria agora, acredite! todo o meu sangue, para me resgatar de qualquer delas!

— Como mudou, hein?

— Oh, sim, felizmente! Muito, porém, tenho sofrido e muito tenho chorado! Reconheço, entretanto, que, no fundo, não sou tão má; posso até dizer que nasci para a abnegação e para o sacrifício. Mas, não sei que revessa estrela me persegue, que maldição me acompanha desde o berço, para que eu, em toda a minha desgraçada vida, deixasse sempre atrás de mim um rastro de vítimas e uma esteira de gemidos angustiosos. Desejei vê­lo de novo, Gabriel, porque ao Senhor devo a parte melhor, mais doce e menos impura, do meu triste destino, o único instante de minha existência em que não me julguei de toda indigna de amar a Deus; chamei­o para lhe pedir que me perdoe e, se lhe merecer compaixão a dor suprema da mais perdida das perdidas, que a esta ampare sempre com a sua generosidade de homem de bem, para que não tenha ela de recorrer dê novo à prostituição, como único meio de vida que lhe resta.

E Ambrosina, cujos suspiros lhe transbordavam por entre as palavras, começou a chorar desafogadamente.

Gabriel, por simples instinto de piedade, deixou que a desgraçada lhe pousasse a cabeça sobre o colo; mas, ao encará­la rosto a rosto, ao sentir nas suas barbas as quentes lágrimas que ela vertia, e a respirar­lhe o fêmeo e ferino cheiro daquelas mesmas carnes e daqueles mesmos cabelos, em que outrora se lhe prendera cativa para sempre a alma enamorada, todo o seu passado, toda a sua louca paixão, lhe acordou por dentro num arranco de desenfreado desejo, no qual ele a chamou inteira para o corpo, cingindo­a nervosamente nos braços e devorando­lhe os lábios com beijos ardentes, doidos, famintos, enquanto da garganta lhe rebentavam velhos soluços há tempo reprimidos e esmagados.

— Eu te amo! Eu te amo! Eu te amo! exclamaram ambos, rolando­se abraçados.

XLVIII

A ÚLTIMA CAMISA

E ferraram­se de novo.

Foram habitar num retiro da Tijuca, para além da Raiz da Serra, numa velha chácara emboscada de mangueiras, entre quedas e sussurros d’água.

Ambrosina parecia completamente transformada. Saía todos os domingos pela manhã, a ouvir missa numa capela próxima à casa, ia sempre de negro, com um véu sobre o rosto. Fazia­se agora muito religiosa, muito amiga de festas de igreja e de dar esmolas aos mendigos devotos.

Sonhava­se já uma santa!

Mas queria mesa farta, e em certos dias o seu jantar era um banquete, a que só faltavam os convivas. Passava em demorada revista as hortas e os galinheiros da chácara, parava a contemplar o chiqueiro dos porcos, o curral das ovelhas, a vaca de leite e os cavalos de serviço. A sua criadagem aumentava todos os dias.

(continua...)

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