Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Oh!... se vós, senhores, soubésseis o que é a inveja!... se tivésseis sido invejosos uma só hora na vida!... mas não, não! vós não podeis compreender o que é sentir dentro do coração esse demônio, que agiganta o merecimento alheio e com isso nos tortura; que nos consome, nos rouba o sossego, o prazer, a saúde, e nos vai mirrando... nos vai enchendo a alma de amargor, de veneno, de raiva, de malvadeza!... que nos ensina a mentira e a calúnia... a intriga e a traição!... que nos promete a paz a troco de uma ação indigna, e nos ilude depois... e depois de nos tornar infames, nos aperta ainda com suas garras, e nos conserva tão desgraçados, tão miseráveis como dantes!... oh!... era esse demônio que eu tinha no coração!... cada triunfo do talento do Sr. Lauro era um golpe doloroso que eu recebia; cada raio de seu espírito me lançava o desespero na alma; os arroubos de sua imaginação, o ardor de sua coragem, a grandeza, a galhardia de suas nobres ações eram para mim um tormento cruel... doloroso... incessante!...
— Félix! Félix!...
— Uma consideração única me animava: eu conheci que os avós dele, que o falecido Sr. Raul de Mendonça, e que a respeitável viúva, diante de quem falo, pouco se interessavam por Lauro. A viveza e o talento do moço, acendidos nas chamas dos novos princípios, nas inspirações do século, desagradavam a seus avós, arraigados aos costumes e idéias das passadas eras; fingime, pois, inimigo das inovações e das novas instituições... ganhei, assim, a confiança dos chefes da família, ao mesmo tempo que o Sr. Lauro perdia tanto quanto eu lucrava. Todavia, isto não era tudo: eu sofria sempre os tormentos da inveja; porque o Sr. Lauro era feliz... tinha uma mãe, que o amava!... Um dia...
Félix interrompeu-se, estremecendo.
— Um dia... disse Hugo.
— Senhores; nos planos e nos desejos que me inspirava a inveja, eu esperava, eu contava achar um meio de perder para sempre na opinião de seus parentes ao Sr. Lauro de Mendonça; um dia...
O infeliz guarda-livros hesitou de novo.
— É preciso concluir, Félix!
Eu concluo, senhores, tornou o moço, animando-se. Um dia... foi há sete anos, pouco mais ou menos, a Sr.ª D. Honorina acabava de contar nove anos de idade. Houve um belo jantar de família, ao qual eu fui presente; findo ele a Sr.ª D. Ema de Mendonça chamou sua neta para junto de si, convidou-nos a ouvi-la, e contou uma história de uma cruz de família, cruz milagrosa, que por direito pertencia à Sr.ª D. Honorina, desde o dia em que fizesse nove anos de idade.
Consequentemente, a cruz apareceu riquissimamente preparada, cravada de preciosos brilhantes...
— Aí esteve o meu primeiro erro... disse Ema.
— Deixe-o continuar, acudiu Hugo.
— A Sr.ª D. Honorina, criança como era naquele tempo, demonstrou com todas as graças infantis o prazer que sentia por possuir a bela cruz. Então, o Sr. Lauro, que amava e muito a sua prima, e que gostava de mover suas respostas, com ela gracejando, disse-lhe — eis uma bela cruz para ser furtada... tem ricos brilhantes, que se podem vender... — e foi a Sr.ª D. Ema quem lhe respondeu, dizendo: — Lauro, tu és um louco; não se graceja sobre um objeto sagrado.
— Foi assim, disse Ema; eu me lembro de tudo isso.
— Nós nos demoramos até à noite; uma salva contendo a cruz foi deposta sobre um aparador no quarto da Sr.ª D. Honorina; às dez horas da noite a jovenzinha dormia; então, o Sr. Lauro foi pé por pé... entrou no quarto... e quis acordar sua prima... depois, vendo-a nos braços do mais sossegado sono, arrependeu-se do que ia fazer... e retirou-se sem acordá-la, e depois de beijá-la nos lábios...
Honorina corou até à raiz dos cabelos.
— E a cruz de brilhantes?! perguntou Ema.
— A cruz de brilhantes?! exclamou Félix; a cruz de brilhantes?!... ouvi-me até o fim, senhores. Um homem, que ouvira a história dessa cruz, e o gracejo do Sr. Lauro, introduziu-se furtivamente no quarto da menina; já estava aí, quando este entrou, querendo acordá-la; esse homem escondeu-se; e depois, tendo saído o Sr. Lauro, ele apoderou-se da cruz... e saiu cuidadosamente. O Sr. Lauro entrara nesse quarto, como homem honrado que era, e, pois, mais de dois olhos o viram também sair; o outro entrou como um ladrão... e, com as precauções de um ladrão, retirou-se sem ser percebido.
— Meu Deus!... exclamou Ema levantando as mãos.
Hugo e Honorina estavam tão silenciosos como estupefatos.
— Quando se procurou a cruz... ela tinha desaparecido; a princípio julgaram todos que o Sr. Lauro a havia escondido por zombaria... ele jurou que não, mas algumas pessoas asseguraram tê-lo visto entrar no quarto... ele o confessou também... finalmente, os senhores o sabem: o Sr.
Lauro de Mendonça foi expulso desta casa como um homem infame!...
— Tu o denunciaste!... bradou Ema exasperada.
— Eu fui um miserável caluniador!...
— E o ladrão?
— O ladrão?!... o ladrão?!... o ladrão?!... exclamou Félix com voz lúgubre; o ladrão fui eu!
— Maldito!... gritou Ema levantando a mão como querendo amaldiçoá-lo.
— Miserável!... bradou Hugo.
— Desgraçado!... disse Honorina.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.