Por Inglês de Sousa (1891)
Na verdade, a vida já lhe corria sem aquelas lutas intimas da consciência com o pecado, que se lhe refletiam no semblante, imprimindo-lhe na fronte o sinete do sofrimento mortal. Nobres ambições de glória, ardores de propaganda desapareciam sob a calmaria podre duma consciência adormecida, em que o quase desconhecimento de si mesmo era o resultado dum esgotamento das forças vivas da inteligência e da vontade. O temperamento abafara, no enérgico desenvolvimento das tendências hereditárias e dos instintos famélicos de matuto independente, a moralidade relativa e os sentimentos elevados que a educação do Seminário tentara aproveitar para um fim acanhado, mas que não conseguira disciplinar por insuficiência da doutrina que desconhece a verdadeira natureza do homem; e num rapaz de vinte e três anos, exemplo da sua classe e honra do colégio que o atirara ao mundo como apto para as lutas da vida na espinhosa carreira que procurara, aparecera somente o matuto grosseiro e sensual. Fora bastante o contato da realidade mundana, auxiliado pelo isolamento e pela vaidade, para raspar a caiação superficial que lhe dera o Seminário, e patentear o couro do animal. O hábito fizera o monge. Quem reconheceria no rapaz moreno, de espesso bigode preto, cabeleira penteada, rescendendo a patchuli, com calças e camisa de riscado, o ardente missionário da Mundurucânia, o padre de semblante angélico, a cuja voz as beatas de Silves estremeciam de gozo místico? De vestido talar ou de calças de riscado, Antônio de Morais era fisiologicamente o mesmo homem, mas a diferença que o hábito externo estabelecia entre o presente e o passado duma mesma pessoa exprimia apenas a relação entre o homem que a natureza formara e o indivíduo que a sociedade moldara à sua feição. Tirara a batina e aparecera o filho legítimo de Pedro Ribeiro, o rapazola que levara uma infância livre, satisfazendo o apetite sem peias nem precauções nas goiabas verdes, nos araçás silvestres e nos taperebás vermelhos, tentadores e ácidos.
Eram monótonos os dias no sítio do furo da Sapucaia. Padre Antônio de Morais acordava ao romper da alva, quando os japiins, no alto da mangueira do terreiro, começavam a executar a ópera-cômica cotidiana, imitando o canto dos outros pássaros e o assovio dos macacos. Erguia-se molemente da macia rede de alvíssimo linho, a que fora outrora do padre santo João da Mata -, espreguiçava-se, desarticulava as mandíbulas em lânguidos bocejos e depois de respirar por algum tempo no copiar a brisa matutina, caminhava para o porto, onde não tardava a chegar a Clarinha, de cabelos soltos e olhos pisados, vestindo uma simples saia de velha chita desmaiada e um cabeção de canículo enxovalhado. Metiam-se ambos no rio, depois de se terem despido pudicamente, ele oculto por uma árvore; ela acocorada ao pé da tosca ponte do porto, resguardando-se da indiscrição do sol com a roupa enrodilhada por sobre a cabeça e o tronco. Depois do banho longo, gostoso, entremeado de apostas alegres, vestiam-se com idênticas precauções de modéstia, e voltavam para a casa, lado a lado, ela falando em mil coisas, ele pensando apenas que o seu colega João da Mata vivera com a Benedita da mesma maneira que ele estava vivendo com a Clarinha. Quando chegavam à casa, ele ficava a passear na varanda, para provocar a reação do calor, preparando um cigarro enquanto ela lhe ia arranjar o café com leite. João Pimenta e Felisberto passavam para o banho, depois duma volta pelo cacaual e pela malhada, a ver como ia aquilo. Servido o café com leite, auxiliado de grossas bolachas de carregação ou de farinha-d'água, os dois tapuios saíam para a pesca, para a caça ou iam cuidar da sua lavourazinha. A rapariga entretinha-se em ligeiros arranjos de casa, em companhia de Faustina, a preta velha, e ele, para descansar da escandalosa mandriice, atirava o corpo para o fundo duma excelente maqueira de tucum, armada no copiar — para as sestas do defunto padre santo. A Clarinha desembaraçava-se dos afazeres domésticos, e vinha ter com ele, e então o padre, deitado a fio comprido, e ela sentada na beira de rede, passavam longas horas num abandono de si e num esquecimento do mundo, apenas entrecortado de raros monossílabos, como se se contentassem com o prazer de se sentirem viver um junto do outro, e de se amarem livremente à face daquela esplendorosa natureza, que num concerto harmonioso entoava um epitalâmio eterno.
Às vezes saíam a dar um passeio pelo cacaual, primeiro teatro dos seus amores, e entretinham-se a ouvir o canto sensual dos passarinhos ocultos na ramagem, chegando-se bem um para o outro, entrelaçando as mãos. Um dia quiseram experimentar se o leito de folhas secas que recebera o seu primeiro abraço lhes daria a mesma hospitalidade daquela manhã de paixão ardente e louca, mas reconheceram com um fastio súbito que a rede e a marquesa, sobretudo a marquesa do padre santo João da Mata, eram mais cômodas e mais asseadas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.