Por Aluísio Azevedo (1897)
O próprio Alcazar, onde campeara ela no Rio de Janeiro os seus decisivos triunfos de mulher formosa e pública, caía também de moda, e só era já freqüentado por uma velhada quieta e conservadora, metodicamente pagodista. E pouco sobreviveu ele ao desmaio da sua última estréia de primeira grandeza depois de agonizar por alguns meses, repetindo velhas e estafadas canções dos seus tempos felizes, entregou a alma ao diabo, quase juntamente com o esperto Arnaud, cuja vida parecia identificada com a do endemoninhado teatrinho.
De repente, viuse Ambrosina cercada de uma negra nuvem de meirinhos e credores de dentes refilados, que lhe fariscavam rendas e alfaias, jóias e baixelas, móveis, carros e cavalos, sem que tudo isso lhe desse não obstante para pagar em juízo a metade do que devia a executada.
Dentre os meirinhos, um, que se mostrava diretamente interessado por ela, procurou falarlhe em particular.
Ambrosina agarrouse a ele, como o náufrago à primeira mão que se lhe estende; mas, ao encarálo de perto, e ao reconhecêlo afinal, teve um instintivo retraimento de surpresa e de repugnância.
XLVII
RELAPSIA
Céus! o meirinho era o Melo Rosa, o seu primitivo cúmplice!
Mas que estranha cara tinha agora o trampolineiro! parecia raspada a caco de telha! o diabo do homem estava escamoso, descabelado e cor de brasa; não dava absolutamente idéia do que fora quinze anos antes! Que sinistro mal o poria naquele repulsivo estado?
— Não se deixe ficar aqui... É pior! segredou ele a Ambrosina, arrastandoa para um canto escuro. Trate quanto antes de apanhar o que de melhor puder carregar dentro das malas, e neguese a futuras intimações... O escrivão ainda não chegou... Se não fizer o que lhe digo, estes cães lhe arrancarão a camisa do corpo! Mas mexase sem perda de um segundo! Daqui a pouco a casa estará interdita!
— Mas para onde hei de ir?...
— Tome este cartão. É de um chalé da rua dos Arcos... Lá encontrará quartos com pensão, ou sem pensão. Boa gente! Diga que vai em meu nome — eu agora me chamo Melo Júnior.
A Condessa Vésper aceitou o alvitre do seu exofício transformado em beleguim, e lá foi, com um nome suposto, dar consigo ao latíbulo por aquele inculcado.
Era uma casa de ar muito tranqüilo, mas suspeito, de um luxo encardido e mofado em que as capas dos sofás e das cadeiras acolchoadas serviam, não para as resguardar do pó, mas para esconder aos olhos dos hóspedes os ultrajes do tempo e do uso. Por toda a parte cortinas, tapetes, biombos, quadros e mesinhas, tudo, porém, repuído e amolambado.
Pelo esvaziamento das portas mal cerradas, lobrigavamse vultos brancos de mulheres em penteador, arrastando chinelas de veludo e fumando cigarros. E pelos corredores sentiase um cheiro impertinente da cozinha de hotel.
Ambrosina, ao tomar pé nos seus novos aposentos, desatou a chorar, e foi com o coração desfeito em amargura que a reformada loureira essa noite se recolheu à cama, depois de haver jantado no Dori, para se não encontrar com o Melo Rosa, que ficara de ir ter com ela ao pôr do sol.
Mas, no dia seguinte, logo pela manhã, ao correr os olhos pelo primeiro jornal que lhe caiu nas mãos, teve uma grande alegria: na lista dos passageiros do Rio da Prata estava o nome de Gabriel.
— Que felicidade! exclamou ela, secando o vestígio das lágrimas com um sorriso.
E correu à escrivaninha, onde de um fôlego minutou uma extensa carta, que terminava deste modo:
"Venha Gabriel; não é por capricho de amor que lhe faço este pedido, mas porque me dói e me pesa na consciência todo o mal que lhe causei. Quero que me perdoe de viva voz, ou de viva voz me castigue, lançandome ao rosto todos os insultos da sua maldição. Não me revoltarei! anátema ou perdão, hei de receber o que vier de seus lábios, como divino orvalho para esta minha pobre alma requeimada pela agonia. Se soubesse como estou mudada, como é outro o meu coração, e outro o meu espírito... Se me vir de perto, e se me ouvir por um instante, juro que terá dó de mim! Não lhe peço amor, não! sei perfeitamente qual É o alcance de todo o mal que lhe fiz; quero porém, desafogarme dos remorsos que me devoram, quero beijarlhe os pés depois de ser por eles batida, como um vil animal que lhe pertença; quero chorar das suas pancadas e das suas injúrias, para não chorar de vergonha e de arrependimento. Venha! É só isto que lhe suplico. Lembrese de que ninguém, além do Senhor, resta no mundo, dos que deveras me amaram; venha verme neste penitencial retiro em que definho sob o obscuro nome de Elvira Branco. Será uma esmola, um serviço piedoso levado à cabeceira de uma desgraçada, que não tem ânimo de largar o mundo sem ouvir, pela última vez, a palavra do único homem que amou. Venha! seja digno do seu coração! — Ambrosina.. — Rua dos Arcos, n.o 90, primeiro andar, quarto n.o 5".
Gabriel leu esta carta sem tirar o charuto da boca, e foi, menos levado pelo reflexo do seu maldito amor, do que pela traidora curiosidade do coração, que o relapso pecador decidiu aceder à invocação da sua primeira amante.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.