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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Rondavam senadores e deputados, e até o bispo do Rio de Janeiro fez rondas.

E a guarda nacional não brincava. E se duvidam, lembrem-se do ano de 1832, em que ela acudiu por vezes ao toque de rebate, e marchou impávida a combater as falanges políticas desvairadas que se arrojavam ao campo armado.

E, quem o diria hoje? Foi isso no tempo em que os oficiais da guarda nacional eram eleitos pelos guardas! Com essa utopia política salvou-se a capital do Império e o Brasil, e tivemos uma guarda nacional como não se conseguiu mais ver entre nós mesmo depois que se substituiu a utopia popular pela verdade prática dos oficiais nomeados pelo Governo.

O que era essa guarda nacional, filha da utopia, que confiança chegou a merecer, pode-se bem deduzir das respostas que deu um ministro de Estado a um deputado.

Era ministro da Justiça desde 1831 o enérgico e honradíssimo

Padre Diogo Feijó, que em 1832 apresentou às Câmaras um relatório notável pela fortaleza e valentia de proposições que atacavam de frente o espírito exaltado e violento dos partidos em oposição.

Mal tinha o ministro acabado a leitura do seu relatório na Câmara temporária, quando um deputado chegou-se a ele e perguntou-lhe, sorrindo:

– V. Exª tem na corte quarenta mil homens para sustentar as idéias que apresenta no seu relatório?

– Não – respondeu prontamente o Padre Feijó. – Não tenhoquarenta mil homens, mas tenho quatro mil guardas nacionais.

À vista do que acabo de expor podem-se bem compreender as razões que levaram o Ministro Lino Coutinho a mandar ensinar o manejo da guarda nacional aos alunos do seminário de S. Joaquim, que ele reformara.

Não estou habilitado para informar precisamente se a princípio prosperou ou não o estabelecimento organizado pela regência, no seminário de que falo. É muito de presumir que não houvesse produzido os resultados que se esperavam, porque, se assim não fosse, não teria aparecido a reforma de 2 de dezembro de 1837, de que vou em breve falar, ou pelo menos não se acabaria com a instituição criada pelo Ministro Lino Coutinho, embora se fundasse, como era preciso e justíssimo, o Imperial Colégio de Pedro II.

Se, porém, não prosperava o ensino no seminário, a administração deste, correndo debaixo das vistas desveladas da Câmara Municipal, se apresentava em uma situação realmente animadora, graças em grande parte ou particularmente à atividade e à caridade exemplar do vereador Filipe Ribeiro da Cunha, que das obras do seminário com um cuidado especial se ocupava, sendo para isso comissionado pela Câmara.

O ensino, como disse, ia tão mal que, segundo as informações de diversas pessoas, o seminário chegou por fim a fechar-se. Mas a administração econômica corria tão regular e animada, que a casa se aumentava com obras novas e começava-se a executar o plano da conclusão da igreja.

No fim do ano de 1837, porém, entendeu o Governo do regente o Sr. Pedro de Araújo Lima, depois marquês de Olinda, sendo ministro da Justiça e interinamente do Império Bernardo Pereira de Vas concelos – entendeu o Governo, digo, e entendeu bem, que era tempo de criar um grande colégio público de instrução secundária, e resolveu, por decreto de 2 de dezembro desse ano, converter o antigo seminário dos pobres órfãos de S. Joaquim em uma bela instituição daquele gênero, que digna e acertadamente denominou Imperial Colégio de Pedro II.

A realização desta idéia exigia prontos trabalhos na casa; e assim era preciso que a administração econômica do novo estabelecimento entrasse em exercício logo e antes de funcionar o colégio, que devia abrir as suas portas à mocidade estudiosa no ano seguinte, que era o de 1838.

O Governo nomeou, pois, um tesoureiro, entendendo que cumpria libertar a Câmara Municipal daquela administração alheia das atribuições dela.

Então, o vereador Filipe Ribeiro da Cunha exibiu na Câmara Municipal, nesse tempo presidida pelo atual conselheiro Francisco Gomes de Campos, as suas contas escrituradas com clareza, precisão e minuciosidade em um in-folio que deve se achar no respectivo arquivo e do qual se deprendia que haviam custado as obras feitas no seminário, inclusive a Casa nº 66 da Rua Estreita de S. Joaquim, casa em que depois habitaram os reitores do Imperial Colégio de Pedro II, para cima de cem contos de réis, e que ficavam no corpo da igreja cerca de dez contos de réis em materiais que se destinavam à conclusão do templo.

Filipe Ribeiro da Cunha tinha tomado amor ao seminário e interessava-se tanto pelo adiantamento das obras que fiscalizava, que por vezes não poupara a sua própria bolsa, ocupava-se dessa comissão como si de seus próprios negócios tratasse, e, segundo consta, causou-lhe um pesar profundo o ver passar a outrem o cuidado daquela administração.

(continua...)

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