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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

Eram nove horas da noite quando, em companhia de João e Irias, Cândido entrou no “Céu cor-de-rosa”.

O sarau já tinha começado.

O mancebo desculpou o melhor que pôde sua ausência, dirigindo-se a Anacleto e Henrique.

Correu depois aos pés de Mariana, e, aproveitando um momento, disse-lhe toda a verdade em duas palavras.

Faltava Celina.

A “Bela Órfã” saudara com sorriso de amor a chegada de seu amado, e não podendo esconder sua perturbação, saiu da sala e fugiu para o jardim.

Mariana compreendeu o olhar de Cândido que se voltava a-lhes por toda a sala, e apontando para a porta do corredor, disse sorrindo:

– No jardim.

Cândido voou para o jardim.

Celina estava em pé junto de uma roseira.

Os dois amantes ficaram defronte um do outro perturbados, suspirando, e sem dizer palavra durante muito tempo.

Quando enfim Cândido ia pronunciar a primeira frase de amor... ouviu-se uma voz melancólica e trêmula que cantava perto:

“Era um dia um mancebo, que ardente “Pobre vida esquecido vivia;

“E uma virgem formosa, inocente,

“Que outra igual não se viu, não se via.

“Quem separa o ardor da beleza?...

“Um abismo fatal: – a pobreza.”

Cândido e Celina reconheceram a voz do velho Rodrigues e ficaram suspensos escutando o romance da virgem.

Finalmente o bom velho chegou à última estrofe do romance e cantou:

“E o mancebo, que tinha tentado A paixão que nascia abafar, Hoje a ela de todo curvado

Stá cos olhos no céu a clamar:

“Quem não fora nascido; – ou então

“Quem colhera o terceiro botão!...”

Cândido, sem pensar talvez no que fazia, repetiu como um eco o último verso da estrofe.

“Quem colhera o terceiro botão...”

A “Bela Órfã” compreendeu o pensamento de Cândido; tirou da roseira um botão de rosa e o ofereceu ao feliz mancebo.

Dava-lhe o seu coração.

Cândido recebeu de joelhos o presente de amor.

– Parabéns!... disse uma voz doce.

Os dois amantes voltaram-se e viram junto de si Mariana e Henrique.

Ficaram ambos confusos.

– Não se perturbem, exclamou Mariana: nós aprovamos o vosso amor.

Depois, dirigindo-se a Henrique, continuou:

– Olha, Henrique, não são bem dignos um do outro?...

Henrique sorriu.

– Queres tu que os adotemos por nossos filhos?...

Henrique abriu os braços a Celina.

– Minha filha!... disse o esposo de Mariana abraçando a “Bela Órfã”.

– Meu filho! exclamou Mariana com um grito d’alma.

– Minha mãe! respondeu Cândido caindo-lhe aos pés.

– Graças a Deus! disse o velho Rodrigues, que acabava de mostrar-se.

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