Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Ema, como Hugo de Mendonça, ignorava que Lauro tinha um rival poderoso nesse homem sem nome, que à sombra da noite ou do mistério velava por Honorina, e em troca disso fazia entranhar sua imagem pela alma dela.
E assim como Félix estremecera e se apoiara no corrimão da casa de Hugo, este, sua mãe, e sua filha estremeceram também, ouvindo que os sinos marcavam oito horas da noite.
Porque Hugo de Mendonça avisara a sua filha de que a essa hora lhe viria ela dar a resposta... a decisão... a sentença.
Honorina ergueu-se, deixando seu quarto, dirigiu-se e entrou para a sala, onde a esperavam seus maiores.
Honorina estava pálida e melancólica; mas em seu rosto lia-se a expressão da coragem: seu porte tinha tomado um não sei quê de majestoso e grande, que assombrou a Ema e a Hugo de Mendonça; ela trazia nos lábios triste e brando sorriso... dir-se-ia um sorrir de mártir, votado em despedida ao mundo.
Honorina, obedecendo a seu pai, sentou-se entre ele e sua avó.
— Minha filha, disse Hugo, pensaste bem?...
— Estou determinada, meu pai.
— E o que decides?... perguntou o pai com espantador sangue-frio.
— Decidi confessar-me a meu pai, respondeu a moça, dizer-lhe tudo o que comigo se tem passado e se está passando, e pedir-lhe que me aconselhe como amigo.
— A decisão deve partir de ti, minha filha.
— E o conselho de vós, meu pai.
— Fala pois...
No instante mesmo em que Honorina ia começar, ouviu-se bater na escada, e uma escrava anunciou o Sr. Félix.
— Que entre, disse Hugo.
— Uma nova desgraça!... exclamou Ema.
— Não, minha mãe, tornou o negociante, não há mais desgraça possível para nós, à exceção do martírio desta menina.
Félix entrou na sala. A fisionomia do moço demonstrava por quantas torturas lhe faziam passar a vergonha e os remorsos; a fisionomia de Félix espantava!... era um condenado, que se mostrava de cima do patíbulo, horrorizado... covarde... Hugo de Mendonça temeu vê-lo cair no assoalho, e correu para ele, levando-lhe uma cadeira...
— Que é isto, Félix?!
O moço, sem responder, deu alguns passos para a frente da sala, e, lançando os olhos para o jardim, através das vidraças viu o desconhecido, estático e firme, debaixo da árvore fronteira.
Ema, Hugo e Honorina estavam em derredor do infeliz mancebo.
— Que é isto, Sr. Félix?!
— Perdão!... perdão!... perdão!... exclamou ele, caindo aos pés da filha do negociante. Hugo de Mendonça e as duas senhoras recuaram de surpresa e espanto; só depois de alguns minutos foi que o negociante fez assentar e sossegar o seu guarda-livros.
— Félix, disse-lhe enfim, tu nos estás assustando; deves explicar-nos o que é que se passa, e que tanto te perturba; ouvimos que pedias perdão à minha filha... fala; tens razão de sobra para contar com a bondade do coração de Honorina.
— Sr. Hugo de Mendonça, o que eu vou fazer é a relação de uma infâmia!... relação que os senhores me jurarão que não há de passar daqui...
— Mas uma infâmia de quem?...
— Minha! minha só.
E, dizendo isto, Félix trancou por dentro as portas, que davam entrada para a sala.
Os três continuavam estupefatos do que viam e ouviam. Félix parecia haver adquirido força admirável comparativamente com o estado de prostração que mostrara há pouco: era como o vigor e aspecto animado de um febrífugo no maior acesso.
— Os senhores me prometem inviolável segredo?...
— Sim, disseram os três.
— Pois bem, eu o vou dizer, e dito seja em castigo de meu crime; possa a minha vergonha lavar a mancha que me nodoa... quanto ao meu perdão... no fim, eu o conseguirei de joelhos!...
— Tu aumentas nosso espanto, Félix!
— Ouvi-me, senhores, disse Félix. Eu fui ainda bem criança recebido por vós, criado e educado como se fora vosso filho; tive para camarada de meus passatempos, para colega de meus estudos, para companheiro nos meus trabalhos um moço pouco mais ou menos de minha idade, que me estimou como seu melhor amigo: foi o Sr. Lauro de Mendonça. Esse moço, porém, era do vosso sangue, tinha pais, e, portanto, recebia mais desvelos que eu; ainda mais, a natureza lhe havia dado talento, espírito, imaginação, coragem e nobreza de ações; valia, pois, o dobro de mim. Semelhante certeza me torturava, e eu, que devia tudo à família desse mancebo, eu, que era por ele tratado como irmão, senhores, eu tinha inveja do Sr. Lauro de Mendonça!... eu o detestava!...
— Félix!...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.