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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

José Lino Coutinho, muito estimado da população, influente na Câmara temporária, justamente apreciado por seu talento, instrução e por uma grande e bem merecida reputação de probidade, foi logo chamado pela regência permanente para o primeiro Ministério que ela organizou em 1831, e aceitando a pasta do Império, teve por companheiros no gabinete, entre outros, o Padre Feijó e Vasconcelos.

Lino Coutinho foi um ministro do Império ativo e dedicado. Apesar das dificuldades da situação, achou tempo e meios de reformar a Academia de Medicina, a Imperial Academia das Belas-Artes, e, além de muito mais, de atender à situação em que se achava o seminário dos pobres órfãos de S. Joaquim.

Vou dizer o que ele fez deste estabelecimento.

Ou porque achasse que bastava o seminário de S. José para habilitar os jovens que se destinassem à carreira eclesiástica, ou porque julgasse que o de S. Joaquim, com as suas aulas de latim e de cantochão, não era o mais útil aos órfãos pobres, o certo é que mudou completamente a natureza da instituição, como se vai ver.

Por decreto de 12 de dezembro de 1831, foi reformado o seminário de S. Joaquim, dando-se a inspeção dele à Câmara Municipal, e adotando-se por fim do estabelecimento educar convenientemente e habilitar os órfãos desvalidos nos exercícios de misteres honestos e proveitosos. Admitiam-se também pensionistas que deviam pagar cinqüenta mil-réis por trimestre, e determinava-se que, em identidade de circunstâncias, fossem preferidos para os lugares de alunos gratuitos os filhos de militares e empregados públicos.

Criaram-se no estabelecimento as seguintes cadeiras: de primeiras letras, pelo método de Lancaster, de matemáticas e de desenho, e ensinavam-se os misteres de torneiro, entalhador, litógrafo e abridor.

E ensinava-se mais o jogo das armas e o exercício e manejo da guarda nacional.

Evidentemente, pois, o seminário dos pobres órfãos de S. Joaquim perdeu com o decreto de 12 de dezembro de 1831 a sua natureza primitiva. O sistema de administração e inspeção da casa estava mudado e era outro o fim da instituição.

Em consciência me parece que a reforma do seminário de S. Joaquim, executada pelo Ministro Lino Coutinho, devia e podia ser ainda mais útil aos pobres órfãos do que a antiga instituição tal qual fora por muitos anos, porque nesta a instrução secundária limitava-se apenas ao latim, e a educação era só tendente a preparar os jovens a seguir a carreira eclesiástica, que, aliás, exige, mais do que outra qualquer, uma decidida vocação, ao mesmo tempo que no estabelecimento organizado pelo Governo da regência oferecia-se instrução menos resumida e muito bem calculada para aproveitar aos jovens em qualquer dos misteres que ali também se aprendiam, e que podiam dar aos alunos meios de vida diversos, seguros e honestos.

Pode-se notar que ainda se limitava bastante o ensino de ofícios e artes, mas convém não esquecer que a 12 de dezembro de 1831 o Governo da regência começava apenas a ensaiar uma instituição que podia depois receber um grande desenvolvimento.

A reforma de que trato apresenta ainda dois pontos que eram próprios da época, duas idéias que eram frutos do tempo.

Uma delas era a inspeção do estabelecimento confiada à Câmara Municipal. Naquele tempo dava-se uma consideração muito elevada às câmaras municipais e aos juízes de paz, chegando-se até às vezes a exagerar as suas atribuições e a atarefá-los exageradamente, e daí resultavam não poucos inconvenientes. Veio depois a reação, que, em vez de parar em um meio-termo que seria muito útil, atirou-se desenfreada no extremo oposto, reduziu os juízes de paz a juízes de conciliação e fazedores de eleições, e foi pouco a pouco despojando as câmaras municipais de todas as suas atribuições até colocá-las em tão apertada dependência do Governo, que elas hoje quase que não passam de simples comissões do Poder Executivo.

E o que é verdade na matéria de que estou tratando é que oGoverno não se arrependeu de ter confiado à Câmara Municipal da cida de a inspeção do estabelecimento que fundara, reformando o seminário de S. Joaquim, porque essa inspeção foi sempre zelosa e digna, e produziu sensíveis vantagens.

O outro fruto do tempo era o ensino do manejo da guardanacional.

O ministro do Império de 1831 não se contentou em mandar que os alunos do estabelecimento que substituiu o seminário de S. Joaquim se preparassem para ganhar a vida com um trabalho honesto. Quis também que se habilitassem para, com as armas na mão, e como soldados da pátria, defender o país e a ordem pública em caso de necessidade.

Coisas daquela época! A guarda nacional estava então muito na moda.

Mas é preciso lembrar que não era uma guarda nacional que se limitava a fazer grandes paradas e rondas, ou montar guarda no tesouro nacional e em outros lugares.

Em 1831, pode-se dizer que todos eram soldados, ou antes, guardas do país, e em exercício ativo.

(continua...)

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