Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
Cândido, com o mais eloqüente silêncio, apontou com a mão esquerda para sua mãe, e deixou cair a direita sobre a luz.
Enquanto as duas folhas de papel ardiam, Salustiano olhava para as chamas com a estupidez de um idiota, e Cândido com o sorrir de um anjo.
Só restavam cinzas... Mariana lançou-se com entusiasmo sobre Cândido.
– Meu filho!
Cândido recebeu-a de joelhos.
– Agora eu! disse uma voz.
Todos olharam: era João que acabava de entrar na sala.
– Que é isto?...
– É a vingança! bradou de.
Salustiano deixou-se cair aterrado sobre uma cadeira.
– Falsário!... falsário!... exclamou João sacudindo o processo subtraído a Jacó, diante dos olhos de Salustiano. Falsário! falsário! eis aqui a vingança!...
– O que quer dizer isto? perguntou Cândido a Rodrigues.
Breves palavras do velho explicaram tudo.
Cândido avançou para João.
– Meu bom amigo, eu sou o filho de Leandro, eu sou o herdeiro da amizade de cem anos.
A voz do moço era doce e tão terna, como foi o olhar que João lançou sobre ele.
– Em nome de meu pai, em nome da sagrada amizade que doravante há de ligar-nos até a morte, João, meu amigo, dá-me esse processo!...
João ficou imóvel, arrasaram-se-lhe os olhos d’água.
Cândido estendeu o braço e tirou-lhe o processo das mãos... sem que o velho fizesse a menor resistência.
– Por mais que queiras, João, disse Rodrigues comovido...? tu não podes ser mau...
Cândido tinha-se chegado outra vez junto da luz, e queimava o processo. – É meu irmão, disse de soluçando.
CONCLUSÃO
A FELICIDADE e o prazer estavam sorrindo de mil modos no “Céu cor-derosa”.
Cândido freqüentava de novo e mais assiduamente que nunca a casa de Anacleto; dirigindo-se a Mariana, tratava-a por – minha senhora; – mas sua voz tinha um tom de indizível ternura.
Mariana estava bela e deslumbradora como em seus primeiros dias de ventura; chamava o mancebo como dantes – sr. Cândido, – porém seus olhos ardentes e amorosos lhe davam ao mesmo tempo o mais carinhoso dos nomes.
Anacleto não podia compreender aquela metamorfose; mas respeitava o segredo da felicidade de sua filha, tanto quanto havia respeitado outrora o de seus tormentos.
Celina sorria para a vida... amava, era amada, e enfim esperava ser feliz; que lhe importava o mais?...
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Chegou o dia destinado para o casamento de Henrique e Mariana.
Tudo estava pronto: o altar, o sacerdote, os dois amantes e os convidados.
Só faltava Cândido. Debalde o esperaram por muito tempo.
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Na manhã desse dia Cândido, ao erguer-se do leito, recebeu da mão de Irias uma volumosa carta a ele dirigida.
Abriu e leu a carta curioso.
“Meu irmão: – Deste-me uma grande lição de virtude: mostrar-te-ei que a não gastaste mal comigo.
“Eu era um moço perdido, sem nobreza, sem generosidade e sem amor do que é verdadeiramente belo. Provarei que, com o exemplo da honra, soube conhecer os meus erros.
“Meu irmão, quando eu tornar a aparecer a teus olhos, não te envergonharás de me apertar a mão. Eu parto, para onde não sei ainda.
“Voltarei talvez um dia... quando o estudo, a meditação, as lágrimas, e as viagens tiverem gasto todos os meus remorsos, e me disserem que já não sou o mesmo.
“Voltarei digno de meu irmão; digno daquele que fez arder a meus olhos um milhão e um processo.
“No entretanto, meu irmão, eu te deixo a minha casa, confio-te a riqueza que nos deixou nosso pai. Acompanham a esta a escritura e todas as disposições necessárias para que tomes a direção da casa, como seu administrador-geral e meu sócio.
“Não é possível recusar, meu irmão; em nossa casa te esperam, e quando receberes esta, já estarei longe do Rio de Janeiro.
“Adeus, meu irmão. Eu te agradeço me teres feito bom... me teres feito cristão.
“Adeus! até um dia.
“Teu irmão, – Salustiano.”
Acabando de ler a carta, Cândido vestiu-se apressadamente, e saiu agitado. Encontrando João e Rodrigues, contou-lhes o que havia, e correram todos três em procura de Salustiano.
Perderam quase todo o dia em inúteis indagações; finalmente descobriram que o mancebo tinha tirado um passaporte e que se embarcara ao romper da aurora em um navio europeu.
Os três amigos correram à praia... tomaram informações; um inconveniente inesperado demorava o navio por algumas horas. Cândido, Rodrigues e João atiraram-se dentro de um bote e mandaram remar com toda a força para o navio.
Já não estavam longe... reconheceram em pé sobre a tolda, com os olhos embebidos na cidade que ia deixar, o infeliz Salustiano. Cândido soltou um grito de prazer; era-lhe possível arredar seu irmão daquela triste viagem.
Salustiano ouviu o grito... lançou os olhos sobre o batel... e estendeu os braços...
Mas o navio abriu de repente as asas... e gracioso deslizou sobre as águas.
– Adeus! gritou Salustiano, agitando seu lenço branco, adeus! até um dia!
– Adeus! respondeu Cândido chorando.
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(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.