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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Meu pai, disse Raquel, então há enormes dívidas?...

— Que sobem talvez a mais de cem contos de réis!

— E o Sr. Hugo não achará nenhum meio de salvar-se?...

— Se no mês que corre, pudesse conseguir a terça parte dessa quantia, ainda poderia sustentar-se por algum tempo... para cair mais tarde...

— E então?...

— Não haverá, portanto, quem se atreva a expor a uma perda quase certa tão avultada soma, indo oferecê-la a Hugo; e Hugo mesmo rejeitaria, porque conhece que não poderá pagá-la.

— O que lhe resta pois?...

— Ir, como um homem honrado, entregar tudo o que possui aos credores.

— Oh, minha boa Honorina! exclamou outra vez Raquel.

E, correndo para seu toucador, abriu uma gaveta, tirou dela seu cofre de jóias, que despejou sobre o leito; devorou, então, com os olhos os antigos e os novos e numerosos presentes de seu pai; contou um por um seus braceletes, adereços, brincos, bandós e flores de brilhantes; contou um por um todos os seus anéis, todas as suas jóias, enfim, e, depois, apontando com o dedo para a riqueza de seu toucador:

— Meu pai, disse ela, o valor de tudo isto?...

— É grande, sem dúvida muito elevado.

— Poderia chegar para salvar o Sr. Hugo de Mendonça de suas primeiras dificuldades?...

— Seguramente!... respondeu o velho, admirado.

Raquel caiu de joelhos aos pés de Jorge, e com lágrimas nos olhos, com voz comovida exclamou:

— Meu pai!... meu pai!... se me tem amor, permita que eu faça alguma coisa pela minha amiga!...

Havia na ação que praticava Raquel para salvar a sua própria rival, aquela que era amada pelo homem que ela amava; havia na dor dessa moça, no oferecimento de suas jóias um não sei quê de tão nobre, de tão grande e generoso, que Jorge pretendeu debalde falar... e começou a soluçar, chorando abraçado com o seu querido anjo. Porque Raquel tinha, na verdade, uma alma de anjo.

XXXVI

A cruz da família

O desconhecido e Félix saíram da casa de comércio de Hugo de Mendonça às sete horas e meia da noite, e, subindo ambos para uma sege, que esperava esse homem misterioso, que se nomeara simplesmente o moço loiro, foram caminho do bairro da Glória.

Segundo as ordens que recebeu, o boleeiro fez levar a sege a galope, e, deixando atrás de si diversas ruas tortuosas e feias da nossa cidade velha, e depois o Largo da Ajuda, o Passeio Público, o Largo da Lapa e o cais da Glória, entrou finalmente na rua diplomática, e foi parar exatamente defronte da casa de Hugo de Mendonça.

Toda a curta viagem se fizera em completo silêncio entre os dois; e só quando parou a sege, foi que o desconhecido, saltando para fora, e ajudando Félix a descer, disse-lhe, apontando para uma árvore frondosa, que ficava dentro do jardim, e a alguns passos da casa de Hugo: — Ali vou eu esperá-lo; no meu rosto poderá o senhor ler o propósito em que estou de me não deixar iludir; vá pois... cumpra o que prometeu, e receba o perdão de que carece.

E, conduzindo a Félix pela mão, até o corredor de entrada da casa de Hugo de Mendonça, o desconhecido empurrou-o para dentro, e foi colocar-se debaixo da árvore como firme sentinela. Félix, sempre trêmulo e irresoluto, arrastou-se até chegar à escada, e aí, apoiando-se sobre o corrimão... demorou-se por minutos.

Nesse instante os sinos das igrejas deram o sinal das oito horas da noite.

Havia luzes na casa de Hugo de Mendonça, porém todas as vidraças estavam cerradas. E por detrás de uma das vidraças desenhou-se uma sombra de mulher, que se voltou para o lado da árvore, e que desapareceu imediatamente, percebendo ali um homem, que agitou no ar seu lenço branco.

Esse movimento teria sido feito por acaso, ou era um sinal de antes ajustado?...

Como o resto do dia tinha corrido para Honorina, é fácil de pensar; mas o que não é por demais explicável, depois daquele sim escrito à viúva, sim à primeira vista tão simples, como bem compreendido prenhe de terríveis conseqüências, era o sossego que a moça mostrava na sua dor.

Honorina suspirava, gemia sempre, porém em uma espécie de inércia; nem falava, nem mais lamentava o seu estado, como se de uma vez, certa de que não estava em sua mão remediar o mal que sofria, não quisesse também dar-se a inúteis reflexões, ela suspirava, gemia sempre, esperando a noite, que devia ser a de seu último julgamento; semelhante a um relógio, que vai em sua marcha, gastando o tempo que lhe foi marcado até à hora em que irrevogavelmente deve parar, se a mão de alguém não fizer andar de novo a mola de sua vida.

Hugo de Mendonça continuara frio e resoluto, como homem que havia tomado um partido, que julga o único possível... o único; se de seus olhos esperava alguma lágrima, pertencia ela toda inteira à filha de seu coração.

Ema não pronunciara mais uma só palavra em todo o resto do dia. Ela conhecia que sua influência já pouco podia no ânimo de seu filho, no estado em que se achavam os negócios da casa, e, sobretudo, lembrando-se da má vontade que sua neta mostrara a Otávio, temia cada vez dobradamente ver ultimado o projeto que a fazia corar, o casamento de Honorina com Lauro.

(continua...)

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