Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Pulgas há poucas no Brasil, a que os índios chamam tungaçu, e nenhuns piolhos do corpo entre a gente branca; entre os índios se criam alguns nas redes em que dormem, como estão sujas, os quais são compridos com feição de pernas, como os piolhos-ladros, e fazem grande comichão no corpo.Para se arrematar esta parte das informações dos bichos prejudiciais, e de nenhum proveito que se criam na Bahia, convém que se diga que são esses bichos tão temidos em Portugal, que se metem nos pés da gente, a que os índios chamam tungas, os quais são pretinhos, pouco maiores que ouções. Criam-se em casas despovoadas, como as pulgas em Portugal, e em casas sujas de negros que as não alimpam, e dos brancos que fazem o mesmo, mormente se estão em terra solta e de muito pó, nos quais lugares estes bichos saltam como pulgas nas pernas descalças; mas nos pés é a morada a que eles são mais inclinados, mormente junto das unhas; e como estes bichos entram na carne, logo se sentem como picadas de agulha. Há alguns que doem ao entrar na carne, e outros fazem comichão como de frieiras; e não andam nas casas sobradadas, nem nas térreas que andam limpas, nem fazem mal a quem anda calçado; aos preguiçosos e sujos fazem estes bichos mal, que aos outros homens não; porque em os sentindo os tiram logo com a ponta de alfinete, como quem tira um oução; e os que estão entre as unhas, doem muito ao tirar, porque estão metidos pela carne, os quais se tiram em menos espaço de uma ave-maria; e de onde saem fica uma covinha, em que põem-lhe uns pós de cinza ou nada, e não se sente mais dor nenhuma; mas os preguiçosos e sujos, que nunca lavam os pés, deixam estar os bichos neles, onde vêm a crescer e fazerem-se tamanhos como camarinhas e daquela côr; porque estão por dentro todos cheios de lêndeas e como arrebentam vão estas lêndeas lavrando os pés, do que se vêm a fazer glandes chagas.No princípio da povoação do Brasil vieram alguns homens a perder os pés, e outros a encherem-se de boubas, o que não acontece agora, porque todos os sabem tirar, e não se descuidam tanto de si, como faziam os primeiros povoadores. Daqui por diante vão arrumados os peixes que se criam no mar da Bahia e nos rios delaPois queremos manifestar as grandezas da Bahia de Todos os Santos, a fertilidade da terra, e abastança dos mantimentos, frutos e caça dela, convém que se saiba se tem o mar tão abundoso de pescado e marisco como tem a terra do muito que se nela cria, como já fica dito; e porque havemos de satisfazer a' esta obrigação, gastando um pedaço em relatar a diversidade de peixes que este mar e os rios que nele entram criam comecemos logo no capítulo seguinte.
C A P Í T U L O CXXV
Que trata das baleias que se entram no mar da Bahia.
Entendo que cabe a este primeiro capítulo dizermos das baleias que entram na Bahia (como do maior peixe do mar dela), a que os índios chamam "pirapuã"; das quais entram na Bahia muitas no mês de maio, que é o primeiro do inverno naquelas partes, onde andam até o fim de dezembro que se vão; e neste tempo de inverno, que reina até o mês de agosto, parem as fêmeas abrigada da terra da Bahia pela tormenta que faz no mar largo, e trazem aqui os filhos, depois que parem, três e quatro meses, que eles têm disposição para seguirem as mães pelo mar largo; e neste tempo tornam as fêmeas a emprenhar, na qual obra fazem grandes estrondos no mar. E enquanto as baleias andam na Bahia, foge o peixe do meio dela para os baixos e recôncavos onde elas não podem andar, as quais às vezes pelo irem seguindo dão em seco, como aconteceu no rio de Pirajá o ano de 1580, que ficaram neste rio duas em seco, macho e fêmea, as quais foi ver quem quis; e eu mandei medir a fêmea, que estava inteira, e tinha do rabo até a cabeça setenta e três palmos de comprido, e dezessete de alto, fora o que tinha metido pela vasa, em que estava assentada; o macho era sem comparação maior, o que se não pôde medir, por a este tempo estar já despido da carne, que lhe tinham levado para azeite; a fêmea tinha a boca tamanha que vi estar um negro metido entre um queixo e outro, cortando com um machado no beiço de baixo com ambas as mãos, sem tocar no beiço de cima; e a borda do beiço era tão grossa como um barril de seis almudes; e o beiço de baixo saía para fora mais que o de cima, tanto que se podia arrumar de cada banda dele um quarto de meação; a qual baleia estava prenhe, e tiraram-lhe de dentro um filho tamanho como um barco de trinta palmos de quilha; e se fez em ambas de duas tanto azeite que fartaram a terra dele dois anos. Quando estas baleias andam na Bahia acompanham-se em bandos de dez, doze juntas, e fazem grande temor aos que navegam por ela em barcos, porque andam urrando, e em saltos, lançando a água mui alta para cima; e já aconteceu por vezes espedaçarem barcos, em que deram com o rabo, e matarem a gente deles.
C A P Í T U L O CXXVI
Que trata do espadarte e de outro peixe não conhecido que deu à costa.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.