Por Inglês de Sousa (1891)
Ouviu-a responder que não tinha nada, mas ao passo que isso dizia, saltavam-lhe as lágrimas dos olhos, e com grande volubilidade contava, para disfarçar a emoção, que viera colher cacau para preparar o vinho que o avô gostava muito de ter à sua vontade quando viajava. Queria preparar um pote de vinho porque, bebendo-o na viagem, o senhor padre, talvez, conservasse por mais tempo a recordação do sítio da Sapucaia... que queria deixar a todo o custo, como se desagradável lhe fora a convivência com os pobres habitantes de tão mesquinha tapera. Viu-a, ao pronunciar essa última frase, deixar o trabalho que encetara e, encostada ao cacaueiro, olhar para ele com um misto encantador de ternura e de zanga, sacudindo a cabeça muito sentida pela ingratidão que lhe faziam, toda ela respirando amor e volúpia, com os seios a arfar brandamente, o tronco do corpo, vergado para trás, salientando o ventre numa postura provocante; o ligeiro prognatismo de raça, dando-lhe ao rosto uma graça peculiar, parecendo oferecer a beijos apaixonados aquela linda boca vermelha de lábios fortes e carnudos. Um braço erguido e descansando sobre um galho de árvore, deixava pender a manga do vestido e oferecia à vista uma carne rija e colorida, enquanto o outro braço, caindo ao longo do corpo, exprimia uma passividade resignada... Viu-a finalmente manter-se nessa posição por algum tempo, e depois com um risinho irônico disporse a continuar o trabalho, abaixando-se para levantar o alguidar do chão.
Então ele, saindo de uma luta suprema, silencioso, com um frio mortal no coração, com o cérebro despedaçado por um turbilhão de sentimentos contrários, atirou-se à moça, agarrou-a pela cintura e mordeu-lhe o lábio inferior numa carícia brutal. Foi breve a luta. A neta de João Pimenta caiu exausta sobre o tapete de folhas úmidas do orvalho, douradas pelo sol. Entre os ramos dos cacaueiros os passarinhos sensuais cantavam.
Quando a Clarinha voltou para a casa, levando o alguidar cheio de bagos brancos e aveludados, padre Antônio de Morais vagava pela floresta, com a cabeça oca, sentindo uma grande necessidade de andar.
CAPITULO XII
A notícia que o Felisberto trouxera de Maués, na volta de sua ultima viagem, alterara profundamente a preguiçosa tranqüilidade em que vivia padre Antônio de Morais, havia exatamente três meses, no sítio da Sapucaia, em companhia da Clarinha, cada vez mais terna e amorosa, sabendo com segredos feiticeiros avivarlhe a paixão sensual que o dominava. A narrativa o arrancara de chofre àquela calaçaria monótona em que jazia, bem nutrido, dormindo noites sem cuidado, passando dias sem trabalho nem preocupações, sentindo um bem-estar extraordinário, que satisfazia plenamente a sua natureza de matuto amazonense.
E naquela tarde, ao pôr-do-sol, enquanto a Clarinha ia ao porto ajudar o irmão a descarregar as chitas e os diversos objetos e galantarias que trouxera de Maués, o missionário, sozinho no copiar, sentado junto à mesa, vendo a figura graciosa da moça desaparecer entre as árvores do caminho, tivera um despertar da consciência, e fizera um exame introspectivo daqueles três meses decorridos, com a absoluta segurança de perito desapaixonado. Uma luz nova se fazia no seu cérebro, os fatos evocados lhe apareciam nus, destacados e salientes no exame duma crítica imparcial. O amor-próprio não devia influir na apreciação do seu procedimento. Juiz severo e reto, como se fossem atos de outro, ele os via pela lente fria e segura do observador desinteressado. O seu temperamento, a sua organização íntima, toda a sua individualidade patenteavam-se à lucidez da consciência, sem um refolho, sem um ponto obscuro. Os motivos que lhe haviam determinado o procedimento revelavam-se pela primeira vez à análise fria a que se entregava, lembrando-se, pesando, classificando, filiando os efeitos às causas, com uma penetração, uma perspicácia de que até então não dispunha o seu cérebro, povoado de idéias e sentimentos antagônicos. Tinha naquele momento a percepção exata do que fora, do que era, do que viria a ser, na situação que as circunstâncias lhe faziam, em que o futuro aio era mais do que a continuação indetenninada do presente e a conseqüência inevitável do passado. Como a Clarinha desaparecera entre as árvores do porto, deixando o vago perfume da sua adorada pessoa, cessara a embriaguez da paixão correspondida em que o mergulhara o amor da mameluca, deixando-lhe a sensação agradável do bem-estar gozado, abalado agora por uma notícia inesperada, que lhe despertara a consciência adormecida.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.