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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

Agora tinha um par de suíças e parecia menos tolo, porém muito mais míope. Falaram superiormente contra aquele modo bárbaro de dançar. O estudante descreveu as dores que sentiu quando lhe pisaram o cato e jurou nunca mais dançar com semelhantes estouvados. Depois, conversaram a respeito do novo presidente; Freitas queixou-se do partido liberal. “Uma súcia de criançolas!... dizia ele, indignado Era fechar os olhos e apanhar o primeiro!... O tal Gabinete de 5 de janeiro podia limpar as mãos à parede!... Incúrias! só incúrias!” Em seguida ocuparam-se do passado; lembraram-se do defunto Manuel Pescada e da falecida Maria Bárbara. — A velha Babu! .. murmurou o Freitas, cheio de recordações

Outro pediu noticias de Lindoca.

Sempre gorda! Agora estava lá pela Paraíba, com o marido, o Dudu Costa, que fora removido para a alfândega dessa província. Sabe? A Eufrasinha fugiu com um cômico!...

— Ah, sei! sei!

Estonteada! O pobre Casusa, coitado, é que estava perdido! — Extravagâncias!... Rosinha, se o visse, não o conheceria. - Muito desfigurado, cheio de cãs! Faisca declarou que ainda não o tinha encontrado em parte alguma.

— Qual encontrado o quê! Estava de cama!. entrevado! Uma perna, que era isto!

E o Freitas mostrou a cintura.

— E o Sebastião? perguntou o rapaz.

Metido na fazenda. Já não havia quem o visse. E acrescentou sem transição.

— Homem, quer saber quem está... O nosso cônego Diogo!

— Sim. Já ouvi dizer

— Coitado! retenção de urina. Ele sempre sofreu de estreitamento!

— Um santo! — Se o é!...

E ambos sacudiram a cabeça, no recolhimento da mesma convicção.

Faisca calculava escrever o necrológio do cônego. caso este morresse antes da sua volta para Pernambuco. Falaram também do Cordeiro, que se tinha estabelecido com Manuelzinho. O Freitas afirmava que iam muito bem, porque o Bento Cordeiro deixara o diabo do vicio. F interrompeu-se, para segredar ao outro:

— Você conhece este rapaz, que vai passando de braço dado a uma moça?

— Não

— É o Gustavo!

— Que Gustavo?

— De Vila Rica! Aquele que foi caixeiro do Pescada!...

Ah, sim! já sei! Mas, como ficou mudado! ele que era um rapaz tão bonito!...

De fato, Gustavo perdera inteiramente as suas belas cores européias e tinha agora a cara sarapintada de funchos venéreos.

Estava para casar com a moça, que levava pelo braço. Uma filha do velho Furtado da Serra.

— Hum! Bravo! Está bom!

Dava meia-noite e algumas famílias embrulhavam-se nas capas para sair O Freitas despediu-se logo do Rosinha, apressado.

— Depois da meia-noite — nada! nada absolutamente!... observava ele, sempre metódico

Mas, no patamar da escada, teve de esperar um instante que descesse um casal que se despedia. Adivinhava-se que era gente de consideração pelo riso afetuoso com que todos o cumprimentavam; muitos se arredavam pressurosos, para lhe dar passagem. O próprio presidente acompanhara-o até ali e agradecia lhe o obséquio do comparecimento ao baile, com um enérgico aperto de mão, à inglesa.

O par festejado eram o Dias e Ana Rosa, casados havia quatro anos. Ele deixara crescer o bigode e aprumara-se todo; tinha até certo emproamento ricaço e um ar satisfeito e alinhado de quem espera por qualquer vapor o hábito da Rosa; a mulher engordara Um pouco em demasia, mas ainda estava boa, bem torneada, com a pele limpa e a came esperta.

Ia toda se saracoteando muito preocupada em apanhar a cauda do seu vestido, e pensando, naturalmente, nos seus três fiihinhos, que ficaram em casa a dormir.

— Grand'chaine, double, serré! berravam nas salas

O Dias tomara o seu chapéu no corredor e, ao embarcar no carro, que esperava pelos dois lá embaixo, Ana Rosa levaram-lhe carinhosamente a gola da casaca.

Agasalha bem o pescoço, Lulu! Ainda ontem tossiste tanto à noite, queridinho!...

Fim

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