Por Aluísio Azevedo (1884)
Também, só elas, só as mães, podem servir a tão delicado mister. O que se lança ao peito da amante desde logo arde e se evapora, porque aí o fogo é por demais intenso; o que se atira ao de um estranho gela-se de pronto na indiferença e na aridez; mas, tudo aquilo que um filho semeia no coração materno — brota, floreja e produz consolações. Neste não há chama que devore, nem, frio que enregele, mas um doce amornecer, suave e fecundo, como a trepidez de um seio intumescido e ressumbrante de leite.
E escreveu : “Mamãe ”
Hesitou logo. Aquele modo de tratar não lhe pareceu conveniente; queria uma carta de efeito, com estilo, uma carta a primor, que desse idéia de seu talento e ao mesmo tempo de sua afeição :
“Minha querida mãe.
Eis-me na grande Corte, que aliás me parece estúpida e acanhada por acharme longe de vossemecê...”
Vinham, em seguida, muitos protestos de amor filial e depois uma extensa descrição da cidade, a qual ocupava duas laudas da carta. Na terceira escreveu o seguinte:
“ Desde que vim daí, o Sabino só me tem dado maçadas; a bordo vivia a brigar com os outros criados; aqui nunca me aparece; sai pela manhã e já faz muito quando volta à noite. Pilhou-se sem castigo e abusa desse modo. Ainda não lhe consegui arranjar a matrícula no Tesouro e nem sei como isso se obtém; o Campos é que há de ver.
“ Como sabe, há mês e meio que me acho hospedado em cada deste. Aqui nada me falta, é certo, mas igualmente nada me satisfaz, porque estou muito isolado e aborrecido. A família é atenciosa o quanto pode ser comigo; eu, porém , apesar disso , não deixo de ser para eles um estranho e , como tal, apenas recebo cortesias e hospitalidade. D. Maria Hortênsia é amável, mas por uma simples questão de delicadeza; da irmã, D. Carlotinha, nem é bom falar!Esta, se já me dispensou duas palavras, foi o máximo, parece até que tem medo de olhar para mim; talvez com receio de desagradar ao guarda-livros, que, pelos modos, é lá o seu namorado. Do que não resta dúvida é que o tal guarda-livros é de todos o mais antipático e difícil de suportar. Um hipócrita! Está sempre com a carinha n’ água e já, por várias vezes, se tem querido meter a espirituoso cá para o meu lado. — São ditinhos, indiretas de instante a instante. Eu, qualquer dia destes, o chamo à ordem! Ainda não há uma semana, veja isto! fui a um espetáculo dramático no São Pedro de Alcântara e à volta, quando cheguei à casa, quis acender a vela para estudar. Quem disse?...o fogo não se comunicava ao pavio. Verifico : — no lugar da torcida haviam posto um prego; fiquei com os dedos queimados. E esta graça não foi de outro senão o tal cara de mono!
“Já me lembrou mudar-me; o Campos, porém, acha que o não devo fazer enquanto não descobrir por aí um bom cômodo, em alguma casa de pensão.”
E no mesmo teor ia por diante, até encher duas folhas de papel marca pequena. Amâncio narrava à mãe todos os seus passos e todos os seus desgostos, sem lhe confessar, todavia, que o principal motivo daquele descontentamento estavas em não poder recolher de noite às horas que entendesse; em ter por único companheiro de passeios o Luís Campos, cuja sobriedade nos gestos e costumes, discrição nos termos, cujo aspecto repreensivo e pedagógico, de mentor, faziam-no já perfeitamente insuportável aos olhos do estudante.
— Ora adeus! considerava este, deveras enfiado. — Não foi para a me fazer santo, que vim ao Rio de Janeiro!
Boas! Podia lá estar disposto a sofrer aquele ele maçante do Campos!...Mas também não seria muito divertido andar sozinho pela cidade, a trocar pernas, sem um companheiro, sem um amigo. Além disso temia do seu provincialismo, receava “fazer figura triste”; ainda não conhecia o preço das coisa e o nome das ruas. No Maranhão falavam com tanto assombro dos gatunos da Corte! — os tais capoeiras! E Amâncio sobressaltava-se pensando num encontro desagradável, em que lhe cambiassem o dinheiro e as jóias por uma navalhada.
Seu maior desejo era ter ali um dos amigos da província, a quem confiasse as impressões recebidas e com quem pudesse conversar livremente, à franca, sem medir palavras, nem tomar as enfadonhas reservas e composturas, que lhe impunha a censória presença do negociante.
Por isso, numa ocasião, em que atravessava pela manhã o Beco do Cotovelo, sentiu grande alegria ao dar cara a cara com o Paiva Rocha. O Paiva era seu comprovinciano e fora seu condiscípulo; pertenceram à mesma turma de exames na aula do Pires e matricularam-se juntos no Liceu. Mas, enquanto o filho do Vasconcelos estudou as três primeiras matérias, o outro fez todos os preparatórios. Abraçaram-se. Houve exclamações de parte a parte.
— Ora o Paiva! disse Amâncio afinal, encarando o amigo com um olhar muito satisfeito. — Não te fazia aqui na Corte!
— Estou na Politécnica.
— Ah! exclamou Amâncio, com interesse. — Que ano?
— Terceiro.
— Bom. Estás quase livre!
— Qual! resmungou o Paiva, mascando o cigarro. — tenho ainda muito que aturar!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.