Por Bernardo Guimarães (1872)
O casamento dele com a prima também não passava de uma coisa apenas conversada entre as duas famílias, uma hipótese plausível no futuro, e nada tinha de um compromisso sério, que rigorosamente os obrigasse. Roberto portanto, se bem que nenhum obstáculo até então se opunha à futura realização de seu mais ardente desejo, todavia nenhuma garantia segura tinha também que o pudesse tranqüilizar, e por isso razão de sobejo tinha ele para andar com alma entregue a contínuos cuidados e inquietações.
À vista disto faça-se idéia de como não ficaria o coração do pobre rapaz, quando viu instalar-se em casa de seu tio aquele belo e galhardo mancebo, debaixo de tão lisonjeiros auspícios, e rodeado do prestígio das extraordinárias e romanescas circunstâncias, que ali o trouxeram. O moço, além de seu nobre e belo porte, tinha maneiras as mais polidas e afáveis, e todas as qualidades próprias para inflamar o coração das moças, e atrair as simpatias dos homens, prescindindo mesmo desse ato de dedicação e coragem, que o tornara um ídolo aos olhos do dono da casa.
Considere-se tudo isso, e diga-se se o pobre Roberto tinha ou não carradas de razão para ficar rebentado de inveja, de despeito e de ciúme.
Naquelas ardentes regiões, tão cheias de largos e luminosos horizontes, de grandiosas perspectivas, naquelas veigas risonhas, onde tudo convida a amar, onde a viração quente e embalsamada só respira amor e voluptuosidade, naquele clima de luz e fogo, se o amor é uma chama voraz, o ciúme é uma peçonha que mata.
E tanto mais cruel e pungente devia ser o ciúme de Roberto quanto mais leal e extremosa era a sua afeição; pois o amor que o pobre moço consagrava a sua prima, era puro e santo, como primícias que eram de um coração virginal e novo, de uma alma infantil e cândida. Debaixo daquela crosta grosseira havia muita força de amor, muita paixão, muita energia de sentimento.
Roberto, pois, que tinha o coração quente, mas a cabeça fraca e a índole estouvada, não gostou nada de ver a terna e assídua solicitude com que Paulina e seu pai tratavam do caçador ferido, e dava aos diabos a maldita caçada, que deu ocasião a que viesse parar à casa da sua querida aquele importuno trambolho.
Para desvanecer a impressão que o jovem caçador tinha feito, ou porventura poderia fazer no espírito de Paulina, Roberto no seu bestunto de criança julgou que não havia melhor meio do que menoscabá-lo, deprimilo, procurando desmerecer aos olhos da prima o imenso serviço que acabava de fazer-lhe.
Tempo perdido!
Capítulo IV
Paulina
Eduardo livrando a filha do fazendeiro das garras de um animal feroz, sem querer a tinha entregado indefesa nas mãos de um algoz talvez ainda pior, – a uma forte e irresistível paixão. A onça a teria estrangulado em poucos instantes; mas a paixão enleando-se astuta e sutilmente como uma serpente em torno de seu coração, nele distilava gota a gota toda a sua mortífera peçonha.
O caráter melancólico e apaixonado de Paulina, a solidão plácida, porém monótona e triste em que vivia, sua imaginação viva inflamada pelos raios daqueles vagos horizontes uberabenses, cujas linhas se perdem indecisas por longes fumacentos, tudo contribuía para que suas impressões fossem vivas e enérgicas, seus sentimentos profundos e cheios de paixão. O primeiro amor que lhe entrasse na alma, devia decidir por uma vez de sua sorte futura, e torná-la para sempre feliz, ou eternamente desventurada.
Enfim aquele vago de emoções, em que lhe ondeava o espírito perdido em cismas melancólicas, aquele anelo de uma felicidade ignota, que lhe fazia ofegar intumescido o seio num doce e indefinível anseio, achou um objeto em que fixar-se, deparou a encarnação do seu ideal; concentrou-se em Eduardo.
Se bem que até ali não tivesse descoberto nem nas palavras nem nos olhares de Eduardo o menor sintoma de amor, todavia nem lhe passava pelo espírito a idéia de que pudesse deixar de ser amada por ele mais tarde ou mais cedo, – credulidade e confiança muito natural naquela alma ingênua e inexperiente, que no enlevo e exaltação de seu afeto acreditava que aquele mancebo não podia ter aparecido a seus olhos tanto a propósito e em tão extraordinária situação, senão expressamente enviado pelo céu para ser seu companheiro e protetor, seu anjo tutelar durante toda a sua existência.
Paulina era bonita, muito bonita, e posto que nada tivesse de vaidosa, nem de faceira, tinha plena consciência de sua incomparável formosura. Não era só no espelho, que se fiava; a impressão de assombro, que produzia em qualquer parte, onde chegava, os cumprimentos e homenagens de que se via rodeada em qualquer reunião que se achasse, a inveja das outras moças, os rumores, que lhe chegavam aos ouvidos quando rompia alguma multidão – que linda moça! – que prodígio! – é um anjo!... é um sol! – tudo a confirmava na convicção de que era a mais bela dentre as belas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.