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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

É verdade que a Justiça e a Fazenda moravam com o vice-rei debaixo do mesmo teto; convém, porém, saber que o vice-rei e o tribunal da relação tratavam-se tão cerimoniosamente que nem ao menos se falavam, passando de umas a outras salas pelo interior da casa.

Nos dias da reunião do tribunal, que era presidido pelo vice-rei, o carro deste vinha recebê-lo à entrada principal do paço e o levava a apear-se à porta que se abria para o terreiro do Paço, e que era a que pertencia aos domínios da relação.

Mandava a regra que o vice-rei não fosse exercer tão importantes funções, fazendo a pé um passeio, embora tão curto, e que se comunicasse com o tribunal da relação aos olhos de todos, e não pelas portas travessas. Já naquela época tinha-se medo da influência dos corredores e das ante-salas.

Com a fábrica da moeda, ou não havia tantas cerimônias, ou, além dos seus domínios no pavimento inferior, tinha ela no primeiro andar ainda uma sala para o lado da travessa do Paço; porque aí se via uma grande balança, pendendo de uma mão de ferro, e destinada ao serviço daquela fábrica.

A balança desapareceu, quando se mudou a fábrica para o edifício em que hoje se acha. Ficou, porém, a mão de ferro, que somente no reinado do Sr. D. Pedro I foi arrancada como se se quisesse dizer que, depois de fundado o governo constitucional, não devesse mostrar-se mão de ferro no palácio do chefe do Estado.

Agora fechei definitivamente o parêntesis, e para que não haja a menor dúvida a esse respeito, fechei-o com uma potente mão de ferro.

Vou continuar a descrição interrompida.

Era vice-rei do Brasil o conde dos Arcos, quando, a 14 de janeiro de 1808, entrou no porto do Rio de Janeiro o brigue de guerra Voador, trazendo a notícia da próxima chegada da família real portuguesa. O brigue fizera honra ao nome que lhe tinham dado: voara para dar aquela nova ao vice-rei, ainda a tempo de serem por ele tomadas algumas providências.

O conde dos Arcos não descansou mais um momento, e enquanto mandava ordens para descerem de S. Paulo e Minas todos os víveres que se pudessem logo conduzir, despejava ele próprio o palácio e preparava não só as suas salas e as que tinham servido à relação, mas ainda as que eram ocupadas pelo expediente da casa da moeda, para receber tão comodamente quanto fosse possível os augustos hóspedes.

Em breve, porém, viu-se que eram indispensáveis proporções mais vastas ao palácio real. Começou-se, pois, por unir a ele o convento do Carmo e a antiga casa da câmara e cadeia. Ao convento foi ligado o palácio pelo passadiço que ainda existe e que tem três janelas de sacada para o largo do paço, três outras para a Rua da Misericórdia e se apóia sobre dois arcos que facilitam a comunicação entre o largo e a rua que ficam designados. À casa da câmara uniu-se o palácio por um outro passadiço de que apenas resta a memória.

Ainda novas obras foram executadas no tempo do reino do Brasil pertencendo a essa época o pequeno corpo de janelas de peitoril que se observam na face do sul.

Em que pese aos meus companheiros de passeio, abro aqui outro parêntesis, e de novo interrompo a minha descrição.

Não sou tão alheio às leis da cortesia que me exponha a deixar desalojados e na rua os frades do Carmo, os desembargadores da relação e os presos da cadeia. Os carmelitas trocaram o seu convento do terreiro do Paço pelo hospício dos barbadinhos italianos, na Rua da Ajuda, onde permaneceram até que se extinguiu o seminário de Nossa Senhora da Lapa, para o qual passaram de propriedade.

Os barbadinhos foram ocupar as casas dos romeiros de Nossa Senhora da Glória.

A relação não se achava mais nas suas salas do palácio, quando chegou a família real: tinha-se estabelecido, desde algum tempo, na casa da câmara municipal. Mas dali mesmo teve de retirar-se, alugando-se primeiro, e enfim comprando-se para ela a casa da rua do Lavradio em que até hoje continua a funcionar, e que pertencia a João Marcos Vieira da Silva Pereira, fazendeiro de Campo Grande. Convém lembrar que ainda então não existia, e só muito depois se abriu a rua que tomou o nome da Relação, tribunal que, aliás, em 1808, foi elevado ao grau de Casa da Suplicação do Brasil.

Provavelmente todas estas mudanças incomodaram não pouco aos desalojados. Mas é seguro que aos presos nem sequer um só instante ocupou o espírito e cuidado de um novo asilo. Para eles, porém, tomou-se casa destinada a outros, que, sou capaz de jurar, não lamentaram a perda que sofreram.

Os presos foram removidos para o Aljube, que o bispo D. Francisco Antônio de Guadalupe fizera preparar exclusivamente para reclusão dos eclesiásticos que merecessem uma tal punição.

Quem não mudou de casa em conseqüência da chegada da família real, apesar de pensarem alguns o contrário disso, foi a câmara municipal.

(continua...)

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