Por José de Alencar (1853)
Caminhava elle, ou antes se arrastava de joelhos, e levava em bandeja de metal um objecto, que tinha figura de mão cortada acima do punho.
Pensou Ayres que era esta a scena, muito com mum n'aquelles tempos, do cumprimento solem ne de uma promessa; e seguiu a procissão com olhar indifferente.
Ao aproximar-se porém o penitente, conheceu com horror que não era um ex-voto de cera, ou milagre, como o chamava o vulgo, o objecto posto em cima da salva; mas a propria mão cortada do braço direito do devoto, que ás vezes levantava para o céo o coto mal cicatrisado ainda.
Inquiriu dos que o cercavam a explicação do estranho caso; e não faltou quem lh'a desse com Tivera o penitente, que era mercador, um panaricio na mão direita; e sobreveiu-lhe grande inflammação de que resultou a gangrena. No risco de perder a mão, e talvez a vida, valeu-se o homem de S. Miguel dos Santos, advogado contra os cancros e tumores, e prometteu-lhe dar para sua festa o peso em prata do membro enfermo.
Exalçou o Santo a promessa, pois sem mais auxilio de mesinhas, veiu o homem a ficar inteiramente são, e no perfeito uso da mão, quando no juizo do physico pelo menos devia ficar aleijado.
Restituido á saude, o mercador que era muito agarrado ao dinheiro, espantou-se com o peso que lhe haviam tomado do braço enfermo; e achando salgada a quantia, revolveu de esperar pela decisão de certo negocio, de cujos lucros tencionava tirar o preciso para cumprir a promessa.
Um anno decorreu porém sem que o tal negocio se concluisse, e ao cabo d'esse tempo começou
a mão do homem a mirrar, a mirrar, até que ficou de todo secca e rija, como si fôra de pedra.
Conhecendo então o mercador que estava sendo castigado por, não haver cumprido a promessa, levou sem mais detença a prata que devia ao Santo; mas este já não a quiz receber, pois ao amanhecer do outro dia achou atirada á porta da igreja a offerenda que ficára sobre o altar.
O mesmo foi da segunda e terceira vtez, ate que o mercador vendo que era sem remissão a sua culpa e devia expial-a, decepou a mão já secca e vinha trazel-a, não só como symbolo do milagre, mas como lembrança do castigo.
Eis o que referiram a Ayres de Lucena.
XIII
AO MAR
Já tinha desfilado a procissão e ficára a rua deserta, que ainda lá estava no mesmo lugar Ayres de Lucena quedo como uma estatua.
Seus espiritos se tinham afundado em um pensamento que os submergia como em um abysmo. Lembrára-se que tambem fizera um voto e ainda não o havia cumprido, dentro do anno que estava quasi devolvido.
Horrorizava-o a idéa do castigo, que talvez já estava imminente. Tremia não por sua pessoa, mas por Maria da Gloria, que a Virgem Santissima ia levar, como S. Miguel seccára a mão que antes havia sarado.
Quando o corsario deu acordo de si e viu onde se achava, correu á praia, saltou na primeira canôa de pescador, e remou direito para a escuna, cujo garboso perfil se desenhava no horizonte illuminado pelos arrebóes da tarde.
— Prepara para largar! Leva ancora!... gritou elle apenas pisou no tombadilho.
Acudiu a maruja á manobra com a presteza do costume e aquelle fervor que sentia sempre
que o commandante a conduzia ao combate.
No dia seguinte ao amanhecer tinha a escuna desapparecido do porto, sem que houvesse noticia d'ella, ou do destino que levára.
Quando em casa de Duarte de Moraes soube-se da nova, perderam-se todos em conjecturas ácerca d'essa partida subita, que nada explicava; pois não havia indicios de andarem pichelingues na costa, e nem se falava de qualquer expedição contra aventureiros que por ventura se tivessem
estabelecido em terras da colonia.
Maria da Gloria não quiz acreditar na partida de Ayres, e tomou por gracejo a noticia.
Afinal rendeu-se á evidencia, mas convencida de que ausentára-se o corsario por alguns dias, sinão horas, no impeto de combater algum pirata e não tardaria voltar.
Succederam-se porém os dias, sem que houvesse novas da escuna e de seu commandante. A esperança foi murchando no coração da menina, como a flôr crestada pelo frio, e afinal desfolhou-se.
Apagára-se-lhe o sorriso dos labios, e o brilho dos lindos olhos empanou-se com o soro das lagrimas choradas em segredo.
Assim foi se finando de saudades pelo ingrato que a tinha desamparado levando-lhe o coração.
Desde muito que a gentil menina estremecia o cavalheiro; e d'ahi nascêra o sossobro que sentia em sua presença. Quando a cruel enfermidade assaltou-a, e que ella prostrada no leito, teve consciencia de seu estado, o primeiro pensamento foi pedir a Nossa Senhora da Gloria que não a deixasse morrer, sem dizer adeus áquelle por quem sómente quizera viver.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Alfarrábios: O ermitão da Glória. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43220 . Acesso em: 30 jan. 2026.