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#Comédias#Literatura Brasileira

O Noviço

Por Martins Pena (1845)

Florência — Sua primeira mulher?

Rosa, dando-lhe a certidão — Leia (Para AMBRÓSIO:) Conheceis-me, senhor? Há seis anos que nos não vemos, e quem diria que assim nos encontraríamos? Nobre foi o vosso proceder!... Oh, para que não enviaste um assassino para esgotar o sangue destas veias e arrancar a alma deste corpo? Assim devíeis ter feito, porque então eu não estaria aqui para vingar-me, traidor!

Ambrósio, à parte — O melhor é deitar a fugir. (Corre para o fundo. Prevenção.)

Rosa — Não o deixem fugir! (Aparecem à porta meirinhos, os quais prendem

Ambrósio)

Meirinho — Está preso!

Ambrósio — Ai! (Corre por toda a casa, etc. Enquanto isto se passa, Florência tem lido a certidão.)

Florência — Desgraçada de mim, estou traída! Quem me socorre? (Vai para sair, encontra-se com Rosa.) Ah, para longe, para longe de mim! (Recuando.) Rosa — Senhora, a quem pertencerá ele? (Execução.)

FIM DO SEGUNDO ATO

ATO TERCEIRO

Quarto em casa de Florência: mesa, cadeiras, etc., etc., armário, uma cama grande com cortinados, uma mesa pequena com um castiçal com vela acesa. É noite.

CENA I

Florência deitada, Emília sentada junto dela, Juca vestido de calça, brincando com um carrinho pela sala.

Florência — Meu Deus, meu Deus, que bulha faz esse menino!

Emília — Maninho, estais fazendo muita bulha a mamãe...

Florência — Minha cabeça! Vai correr lá para dentro...

Emília — Anda, vai para dentro, vai para o quintal. (JUCA sai com o carrinho.)

Florência — Parece que me estala a cabeça... São umas marteladas aqui nas fontes. Ai, que não posso! Morro desta!...

Emília — Minha mãe, não diga isso, seu incômodo passará.

Florência — Passará? Morro, morro...(Chorando:) Hi.... (Etc.)

Emília — Minha mãe!

Florência, chorando — Ser assim traída, enganada! Meu Deus, quem pode resistir?

Hi, hi!

Emília — Para que tanto se aflige? Que remédio? Ter paciência e resignação.

Florência — Um homem em quem havia posto toda a minha confiança, que eu tanto amava... Emília, eu o amava muito!

Emília — Coitada!

Florência — Enganar-me deste modo! Tão indignamente, casado com outra mulher.

Ah, não sei como não arrebento...

Emília — Tranqüilize-se, minha mãe.

Florência — Que eu supunha desinteressado... Entregar-lhe todos os meus bens, assim iludir-me... Que malvado, que malvado!.

Emília — São horas de tomar o remédio. (Toma uma garrafa de remédio, deita-o em uma xícara e dá a FLORÊNCIA.)

Florência — Como os homens são falsos! Uma mulher não era capaz de cometer ação tão indigna. O que é isso?

Emília — O cozimento que o doutor receitou.

Florência — Dá cá. (Bebe.) Ora, de que servem estes remédios? Não fico boa; a ferida é no coração...

Emília — Há de curar-se.

Florência — Ora, filha, quando eu vi diante de mim essa mulher, senti uma revolução que te não sei explicar... um atordoamento, uma zoada, que há de oito dias me tem pregado nesta cama.

Emília — Eu estava no meu quarto quando ouvi gritos na sala. Saí apressada e no corredor encontrei-me com meu padrasto...

Florência — Teu padrasto?

Emília — ... que passando como uma flecha por diante de mim, dirigiu-se para o quintal e saltando o muro, desapareceu. Corri para a sala...

Florência — E aí encontraste-me banhada em lágrimas. Ela já tinha saído, depois de ameaçar-me. Ah, mas eu hei de ficar boa para vingar-me!

Emília — Sim, é preciso ficar boa, para vingar-se.

Florência — Hei de ficar. Não vale a pena morrer por um traste daquele!

Emília — Que dúvida!

Florência — O meu procurador disse-me que o tratante está escondido, mas que já há mandato de prisão contra ele. Deixa estar. Enganar-me, obrigar-me a que te fizesse freira, constranger a inclinação de Carlos...

Emília — Oh, minha mãe, tenha pena do primo. O que não terá ele sofrido, coitado!

Florência — Já esta manhã mandei falar ao D. Abade por pessoa de consideração, e além disso, tenho uma carta que lhe quero remeter, pedindo-lhe que me faça o obséquio de aqui mandar um frade respeitável para de viva voz tratar comigo este negócio.

Emília — Sim, minha boa mãezinha.

Florência — Chama o José.

Emília — José? José? E a mamãe julga que o primo poderá estar em casa hoje?

Florência — És muito impaciente... Chama o José.

Emília — José?

CENA II

Ambas e José

José — Minha senhora...

Florência — José, leva esta carta ao convento. Onde está o Sr. Carlos, sabes?

José — Sei, minha senhora.

Florência — Procura pelo Sr. D. Abade, e lha entrega de minha parte.

José — Sim, minha senhora

Emília — Depressa. (Sai JOSÉ)

Florência — Ai, ai!

Emília — Tomara vê-lo já!

Florência — Emília, amanhã lembra-me para pagar as soldadas que devemos ao José e despedi-lo do nosso serviço. Foi metido aqui em casa pelo tratante, e só por esse fato já desconfio dele... Lé com lé, cré com cré... Nada; pode ser algum espião que tenhamos em casa...

Emília — Ele parece-me bom moço.

Florência — Também o outro parecia-me bom homem. Já não me fio em aparências.

Emília — Tudo pode ser.

Florência — Vai ver aquilo lá por dentro como anda, que minhas escravas pilhandome de cama fazem mil diabruras.

(continua...)

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