Por José de Alencar (1874)
— Jurandir é moço; ainda conta os anos pelos dedos e não viveu bastante para saber o que os anciões da grande nação tocantim aprenderam nas guerras e nas florestas.
"O moço é o tapir que rompe a mata, e voa como a seta. O velho é o jabuti prudente que não se apressa.
"O tapir erra o caminho e não vê por onde passa. O jabuti observa tudo, e sempre chega primeiro.
"Jurandir é moço; mas conhece as grandes florestas; e atravessou mais rios do que as veias por onde corre o sangue valente de seu pai.
"A primeira água em que Jaçanã, sua mãe, o lavou, quando ele rasgou-lhe o seio, foi a do grande lago onde Tupã guardou as águas do dilúvio, depois que as retirou da terra.
"Ainda Jurandir não era um caçador, quando ele se banhou no pará sem fim (46), onde os rios despejam a sua corrente, e cujas águas quando dormem se mudam em sal.
"Duas vezes Jurandir seguiu o pai dos rios, desde a grande montanha onde nasce, até a várzea sem fim que ele enche com suas águas.
"Ele viu o grande rio combater com o mar, no tempo da pororoca. Os dois chefes tocam a inúbia antes da peleja, para chamar seus guerreiros.
"Vêm de um lado as águas do mar; são os guerreiros azuis, com penachos de araruna; vêm do outro as águas do rio; são os guerreiros vermelhos com penachos de nambu.
"Começa a batalha. Os guerreiros se enrolam, como a corrente da cachoeira, batendo no rochedo; a terra estremece com o trovão das águas.
"Mas o grande rio agarra o mar pela cintura. Arranca do chão o inimigo; carrega-o nos ombros; solta o grito de triunfo.
"Por muito tempo os Tetivas, que habitam sobre as árvores, vêem passar correndo as águas do marzão os guerreiros azuis que fogem espavoridos e vão esconder-se na sombra das florestas.
"Jurandir também viu a terra onde habitam as mulheres guerreiras, senhoras de seu corpo, que vivem embaixo das águas do grande rio.
"Só elas sabem o segredo das pedras verdes, que tornam os guerreiros cativos de seu amor, sem privá-las da liberdade.
"Por isso, todas as luas, grande número de guerreiros as visitam em sua taba; e elas guardam para os mais valentes a flor de sua beleza.
"Quando chega o tempo de vir o fruto do amor, guardam somente as filhas; e enviam aos guerreiros os filhos, donde saem os maiores chefes.
"Feliz o guerreiro que acha uma terra valente e fecunda para a flor do seu sangue. O filho será maior do que ele; e o neto maior do que o filho.
"Sua geração vai assim crescendo de tronco em tronco; e forma uma floresta de guerreiros, onde o último cedro se ergue mais frondoso e robusto, porque recebe a seiva de seus avós. "
Quando Jurandir proferiu as últimas palavras, seus olhos que tinham muitas vezes buscado Araci, repousaram nela.
A virgem tocantim compreendeu que o estrangeiro se referia a si; e não escondeu sua alegria, como não esconde sua flor a juquiri que o rio beija.
A formosa caçadora cantou. Sua voz era límpida e sonora como o gorjeio do sabiá, quando se deleita com o calor do sol.
— Feliz a terra que recebe a semente do cedro frondoso e robusto; ela se cobrirá de sombra e frescura. Os guerreiros gostarão de reunir-se aí para falar da paz e da guerra.
"Ela é como a virgem que um chefe ilustre escolheu para sua esposa, e que se povoa de uma prole numerosa. As nações a respeitam porque é a mãe de valentes guerreiros; os anciões escutam seu conselho na paz e na guerra.
"As mulheres guerreiras, senhoras de seu corpo, são como a palmeira do muriti, que rejeita o fruto antes que ele amadureça e o abandona à correnteza do rio.
"A esposa não desprende de si o filho, senão quando ele não chupa mais seu peito. Ela é como a mangabeira; nutre o fruto com seu leite, que é a flor de seu sangue.
"Não é na terra das mulheres guerreiras que o estrangeiro deve buscar a esposa; mas na taba de sua nação, onde Tupã guarda para seu valor a mais bela das virgens, aquela que tem o sorriso de mel." O hóspede respondeu:
— Jurandir sabe onde encontrará a virgem que deseja para esposa. A luz do céu o guia, e nada resiste à força de seu braço.
Depois de responder ao canto de Araci, o estrangeiro continuou sua maranduba, que todos ouviram silenciosos.
Ele contou o que havia aprendido nas praias do mar, habitadas pela valente nação dos tupinambás, descendentes da mais antiga geração de Tupi.
Os pajés dos tupinambás lhe disseram que nas águas do pará sem fim vivia uma nação de guerreiros ferozes, filhos da grande serpente do mar.
Um dia esses guerreiros sairiam das águas para tomarem a terra às nações que a habitam; por isso os tupinambás tinham descido às praias do mar, para defendê-las contra o inimigo.
Os guerreiros do mar também tinham suas guerras entre si, como os guerreiros da terra. Então as águas pulavam mais altas do que os montes; seu estrondo era como o trovão.
Jurandir contou mais, que nas praias do mar se encontrava uma resina amarela, muito cheirosa, a qual a grande serpente criava no bucho.
Os tupinambás faziam dessa goma contas para seus colares; Jurandir mostrou a pulseira que lhe cingia o artelho, presente de um guerreiro daquela nação.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Ubirajara. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16679 . Acesso em: 28 jan. 2026.