ASSIS, Machado de. Linha reta e linha curva. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1871.
Por Machado de Assis (1871)
- Agora é a sorte grande, disse Emília.
- Que número é o seu bilhete, minha senhora?
- Número doze, isto é, doze horas que tenho tido o prazer de ter hoje aqui o Sr. Diogo...
- Doze horas! exclamou Tito voltando-se para o velho.
- Sem que ainda o nosso bom amigo nos contasse uma história... - Doze horas! repetiu Tito.
- Que admira, meu caro senhor? perguntou Diogo.
- Acho um pouco estirado...
- As horas contam-se quando são aborrecidas... Peço para me retirar...
E dizendo isto, Diogo travou do chapéu para sair lançando um olhar de despeito e ciúme para a viúva.
- Que é isso? perguntou esta. Onde vai?
- Dou asas às horas, respondeu Diogo ao ouvido de Emília; vão correr depressa agora.
- Perdôo-lhe e peço que se sente.
Diogo sentou-se.
A tia de Emília pediu licença para retirar-se alguns minutos. Ficaram os três.
- Mas então, disse Tito, nem ao menos uma história contou? - Nenhuma.
Emília lançou um olhar a Diogo como para tranqüilizá-lo. Este, mais calmo então, lembrou-se do que Adelaide lhe havia dito, e voltou às boas.
- Afinal de contas, disse ele consigo, o caçoado é ele. Eu sou apenas o meio de prendê-lo... Contribuamos para que se lhe tire a proa.
- Nenhuma história, continuou Emília.
- Pois olhe, eu sei muitas, disse Diogo com intenção.
- Conte uma de tantas que sabe, disse Tito.
- Nada! Por que não conta o senhor?
- Se faz empenho...
- Muito... muito, disse Diogo piscando os olhos. Conte lá, por exemplo, a história do taboqueado, a história das imposturas do amor, a história dos viajantes encouraçados; vá, vá.
- Não, vou contar a história de um homem e de um macaco. - Oh! disse a viúva.
- É muito interessante, disse Tito. Ora, ouçam...
- Perdão, interrompeu Emília, será depois do chá.
- Pois sim.
Daí a pouco servia-se o chá aos três. Findo ele, Tito tomou a palavra e começou a história:
HISTÓRIA DE UM HOMEM E DE UM MACACO
“Não longe da vila ***, no interior do Brasil, morava há uns vinte anos um homem de trinta e cinco anos, cuja vida misteriosa era o objeto das conversas das vilas próximas e o objeto do terror que experimentavam os viajantes que passavam na estrada a dous passos da casa.
A própria casa era já de causar apreensões ao espírito menos timorato. Vista de longe nem parecia casa, tão baixinha era. Mas quem se aproximasse conheceria aquela construção singular. Metade do edifício estava ao nível do chão e metade abaixo da terra. Era entretanto uma casa solidamente construída. Não tinha porta nem janelas. Tinha um vão quadrado que
servia ao mesmo tempo de janela e de porta. Era por ali que o misterioso morador entrava e saía.
Pouca gente o via sair, não só porque ele raras vezes o fazia, como porque o fazia em horas impróprias. Era nas horas da lua cheia que o solitário deixava a residência para ir passear nos arredores. Levava sempre consigo um grande macaco, que acudia pelo nome de Calígula.
O macaco e o homem, o homem e o macaco, eram dous amigos inseparáveis, dentro e fora de casa, na lua nova.
Mil versões corriam a respeito deste misterioso solitário.
A mais geral é que era um feiticeiro. Havia uma que o dava por doudo; outra por simplesmente atacado de misantropia.
Esta última versão tinha por si duas circunstâncias: a primeira era não constar nada de positivo que fizesse reconhecer no homem hábitos de feiticeiro ou alienado; a segunda era a amizade que ele parecia votar ao macaco e o horror com que fugia ao olhar dos homens. Quando a gente se aborrece dos homens toma sempre a afeição dos animais, que têm a vantagem de não discorrer, nem intrigar.
O misterioso... É preciso dar-lhe um nome: chamemo-lo Daniel. Daniel preferia o macaco, e não falava a mais homem algum. Algumas vezes os viajantes que passavam pela estrada ouviam partir de dentro da casa gritos do macaco e do homem; era o homem que afagava o macaco.
Como se alimentavam aquelas duas criaturas? Houve quem visse um dia de manhã abrir-se a porta, sair o macaco e voltar pouco depois com um embrulho na boca. O tropeiro que presenciava esta cena quis descobrir onde ia o macaco buscar aquele embrulho que levava sem dúvida os alimentos dos dous solitários. Na manhã seguinte introduziu-se no mato; o macaco chegou à hora do costume, e dirigiu-se para um tronco de árvore; havia sobre esse tronco um grande galho, que o bicho atirou ao chão. Depois, introduzindo as mãos no interior do velho tronco, tirou um embrulho igual ao da véspera e partiu.
O tropeiro persignou-se, e tão apreensivo ficou com a cena que acabava de presenciar que não a contou a ninguém.
Durava esta existência três anos.
Durante esse tempo o homem não envelhecera. Era o mesmo que no primeiro dia. Longas barbas ruivas e cabelos grandes caídos para trás. Usava um grande casaco de baeta, tanto no inverno, como no verão. Calçava botas e não usava chapéu.
Era impossível aos passageiros e aos moradores das vizinhanças penetrar na casa do solitário. Não o será decerto para nós, minha bela senhora, e meu caro amigo.
(continua...)
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