Por José de Alencar (1857)
AZEVEDO (a EDUARDO) - Realmente não pensava encontrar no Rio de Janeiro uma moça tão distinta como tua irmã. É uma verdadeira parisiense.
CARLOTINHA - Vamos para a sala! Venha Sr. Azevedo. Mano...
CENA II
VASCONCELOS, PEDRO, D. MARIA, JORGE
VASCONCELOS - É preciso também pensar em casar a Carlotinha, D. Maria; já é tempo!
D. MARIA - Sim, está uma moça, mas, Sr. Vasconcelos, não me preocupo com isto. Há certas mães que desejam ver-se logo livres de suas filhas, e que só tratam de casá-las; eu sou o contrário.
VASCONCELOS - Tem razão; também eu se não estivesse viúvo!... Mas isso de um homem não ter a sua dona de casa, é terrível! Anda tudo às avessas.
D. MARIA - Por isso não; Henriqueta é uma boa menina! Bem educada!...
VASCONCELOS - Sim; é uma moça do tom; porém não serve para aquilo que se chama uma dona de casa! Estas meninas de hoje aprendem muita coisa: francês, italiano, desenho e música, mas não sabem fazer um bom doce de ovos, um biscoito gostoso! Isto era bom para o nosso tempo, D. Maria!
D. MARIA - Eram outros tempos, Sr. Vasconcelos; os usos deviam ser diferentes. Hoje as moças são educadas para a sala; antigamente eram para o interior da casa!
VASCONCELOS - Que é o verdadeiro elemento. Confesso que hoje, que vou ficar só, se ainda encontrasse uma daquelas senhoras do meu tempo, mesmo viúva!...
D. MARIA - Vamos ouvir as meninas tocarem piano!... Cá deve estar mais fresco!
(Durante as cenas seguintes ouve-se, por momentos, o piano.)
CENA III
PEDRO, JORGE
PEDRO - Hô!... Tábua mesmo na bochecha! Sinhá velha não brinca! Ora, senhor. Homem daquela idade, que não serve para mais nada, querendo casar. Para ter mulher que lhe tome pontos nas meias!
JORGE - Vou me divertir com ele.
PEDRO - Não; sinhá briga. Vá sentar-se lá junto de nhanhã Carlotinha, e ouça o que Sr.
Azevedo está dizendo a ela.
JORGE - Para quê?
PEDRO - Para contar a Pedro depois.
JORGE - Eu, não.
PEDRO - Pois Pedro não leva nhonhô para passear na Rua do Ouvidor.
JORGE - Ora, eu já vi!
PEDRO - Mas agora é que está bonita! Tem homem de pau vestido de casaca, com barba no queixo, em pé na porta da loja, e moça rodando como corrupio na vidraça de cabeleireiro.
JORGE - Está bom! Eu vou!
CENA IV
PEDRO, VASCONCELOS, JORGE
VASCONCELOS - Não deixaria por aqui a minha caixa e o meu lenço?
PEDRO (a JORGE} - Um dia é capaz também de deixar o nariz!... Vintém é que não esquece nunca! Está grudado dentro do bolso!
JORGE - Lá no sofá, Sr. Vasconcelos!
VASCONCELOS - Ah! Cá está! Acabou-se-me o rapé! Chega aqui, Pedro!
PEDRO (a JORGE) - Já vem maçada! (Alto.) Sr. quer alguma coisa?
VASCONCELOS - Vai num pulo ali em casa, pede a Josefa que me encha esta caixa de rapé, e traze depressa.
PEDRO - Sim, senhor; Pedro vai correndo.
VASCONCELOS - Olha, não te esqueças de dizer-lhe que eu sei a altura em que deixei o pote. Às vezes gosta de tomar a sua pitada à minha custa.
PEDRO - Mas, Sr. Vasconcelos...
VASCONCELOS - O que é? (JORGE sai.)
PEDRO - Nhonhô dá uns cobres para comprar... uma jaqueta.
VASCONCELOS - Ora que luxo!... Uma jaqueta com este calor?
PEDÚO - É para passear num domingo, dia de procissão!
VASCONCELOS - Pede a teu senhor!
PEDRO - Qual!... Ele não dá!
VASCONCELOS - Bom costume este! Vocês fazem pagar caro o chá que se toma nestas casas! Mas eu não concorro para semelhante abuso!
PEDRO - Ora! dez tostões; moedinha de prata! Chá no hotel custa mais caro!
VASCONCELOS - Sim; vai buscar o rapé e na volta falaremos. (Batem palmas.)
CENA V
EDUARDO, ALFREDO
ALFREDO - Boa noite. Ah! Dr. Eduardo...
EDUARDO - Sente-se, Sr. Alfredo; preciso falar-lhe.
ALFREDO - Peço-lhe desculpa de me ter demorado; mas quando levaram o seu bilhete não estava em casa; há pouco é que recebi e imediatamente.
EDUARDO - Obrigado; o que vou dizer-lhe é para mim de grande interesse, e por isso espero que me ouça com atenção.
ALFREDO - Estou às suas ordens.
EDUARDO - Sr. Alfredo, minha irmã me pediu que lhe entregasse esta carta.
ALFREDO - A minha!...
EDUARDO - Sim. Quanto à resposta, é a mim que compete dá-la. É o direito de um irmão, não o contestará, decerto.
ALFREDO - Pode fazer o que entender. (Ergue-se.)
EDUARDO - Queira sentar-se, senhor, creio que falo a um homem de honra, que não deve envergonhar-se dos seus atos.
ALFREDO - Eu o escuto!
EDUARDO - Não pense que vou dirigir-lhe exprobrações. Todo o homem tem o direito de amar uma mulher; o amor é uni sentimento natural e espontâneo, por isso não estranho, ao contrário, estimo, que minha irmã inspirasse uma afeição a uma pessoa cujo caráter aprecio.
ALFREDO - Então não sei para que essa espécie de interrogatório!...
EDUARDO - Interrogatório? Ainda não lhe fiz uma só pergunta, e nem preciso fazer. Tenho unicamente um obséquio a pedir-lhe; e depois nos separaremos amigos ou simples conhecidos.
ALFREDO - Pode falar, Dr. Eduardo. Começo a compreendê-lo; e sinto ter a princípio interpretado mal as suas palavras.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O demônio familiar. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7547 . Acesso em: 26 jan. 2026.