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#Comédias#Literatura Brasileira

As Asas de um Anjo

Por José de Alencar (1860)

Araújo – É também a minha opinião. Tenho-lhe dito muitas vezes que a honra de um homem é uma coisa muito preciosa para estar sujeita ao capricho de qualquer mulher, só porque o acaso a fez sua parente.

Luís – Não é por mim, Araújo, é por ela que procuro salvá-la. Reconheço que é bem difícil; mas resta-me ainda uma esperança: talvez a mãe obtenha pelo amor, aquilo que nem a voz da razão nem o grito do dever puderam conseguir.

Meneses – Pensa bem, Sr. Viana.

Luís – Para isso, porém, é preciso encontrá-la um só instante; soube que costuma vir à casa desta mulher que a perdeu e de quem é amiga. Araújo disse-me que o senhor a conhecia; e fomos imediatamente procurá-lo. Eis o verdadeiro motivo do incômodo que lhe demos; o Sr. Meneses é homem para o compreender e apreciar.

Meneses – Não se enganou, Sr. Viana; farei o que me for possível.

Meneses – Não tem de que; é dever de todo homem honesto proteger e defender a virtude que vacila e vai sucumbir ou mesmo ajudá-la a reabilitar-se. Mas devo corresponder à sua fraqueza com igual franqueza. Creio que o senhor, e tu mesmo, Araújo, não conhecem bem o terreno em que pisam.

Luís – Não, decerto.

Araújo – Quanto a mim estou em país estrangeiro.

Meneses – Pois é preciso estudar o movimento e a órbita destes planetas errantes para acompanhá-los na sua rotação. Aqui não se conhece nem um desses objetos como a honra, o amor, a religião, que fazem tanto barulho lá fora. Neste mundo à parte, só há um poder, uma lei, um sentimento, uma religião; é o dinheiro. Tudo se compra e tudo se vende; tudo tem um preço.

Luís – Que miséria, meu Deus!

Meneses – Quem vê de longe este mundo, não compreende o que se passa nele, e não sabe até onde chega a degeneração da raça humana. O oriente desses astros opacos é o luxo; o ocaso é a miséria. Começam vendendo a virtude; vendem depois a sua beleza, a sua mocidade, a sua alma; quando o vício lhes traz a velhice prematura, não tendo já que vender, vendem o mesmo vício e fazem-se instrumento de corrupção. Quantas não acabam vendendo suas filhas para se alimentarem na desgraça!

Araújo – Tu exageras!... Ninguém se avilta a esse ponto.

Meneses – Não exagero. Muitas são boas e capazes de um sacrifício; têm coração.

Mas de que lhes serve esse traste no mundo em que vivem!

Araújo – Para amar o homem a quem devem tudo.

Meneses – Ele seria o primeiro a escarnecer dela.

CENA II

(Os mesmos, Vieirinha e Helena)

Vieirinha (cantarolando) – De suis le sire de Framboisy! meus senhores!... Não se incomodem, estejam a gosto.

Meneses – Adeus. Como vais?

Vieirinha – Bem, obrigado.

Meneses – Que se faz de bom?

Vieirinha – Nada; enche-se o tempo.

Meneses – Enfim apareceu!

Helena – Desculpe; se me tivesse prevenido da sua visita... Mas chega de repente e no momento em que estava me penteando.

Meneses – Tem razão!... Aqui lhe trouxe o Sr. Viana e o Sr. Araújo que muito desejam conhecê-la. São meus amigos; isto diz tudo.

Helena – A minha casa está às suas ordens. Estimo muito...

Meneses – Se não me engano, o Sr. Viana deseja conversar com a senhora; portanto não o faça esperar.

Helena – Fazer esperar é o nosso direito, Sr. Meneses!

Meneses – Quando se trata de amor, mas não quando se trata de um negócio.

Helena – Ah! É um negócio...

Luís – Sim, senhora...

Helena – Pois quando quiser...

Vieirinha – Já almoçaste, Helena?

Helena – Há pouco; mas o almoço ainda está na mesa.

Vieirinha – Com licença, meus senhores. (Luíse Helena conversam no sofá;

Meneses e Araújo recostados à janela)

CENA III

(Meneses, Araújo, Luís e Helena)

Araújo – Não me dirás que figura faz este Vieirinha no meio de tudo isto?

Meneses – A figura de um desses sagüis com que os moços se divertem. Neste mundo de mulheres, Araújo, existem duas espécies de homens, que eu classifico como animais de penas. Uns são os moços ricos e os velhos viciosos que se arruinam e estragam a sua fortuna para merecerem as graças dessas deusas pagãs; esses se depenam. Os outros são os que vivem das migalhas desse luxo, que comem e vestem à custa daquela prodigalidade; esses se empenam.

Araújo – O Vieirinha pertence a esta última classe.

Meneses – É o tipo mais perfeito. Em todas estas casas encontra-se uma variedade do gênero Vieirinha.

Araújo – Mas por que razão suportam elas esse animal? Será amor?

Meneses – Às vezes é; outras é simples orgulho e vaidade. Esta gente que profana tudo, que faz de tudo, dos sentimentos mais puros uma mercadoria, depois de tanto vender, quer também ter o gosto de comprar. Umas compram logo um marido; outras contentam-se em comprar um amante. É mais cômodo: deixa-se quando aborrece.

Araújo – É o que Helena fez com o Vieirinha?

Meneses – Justamente.

Meneses – E sai-lhe caro esse capricho?

Meneses – Sem dúvida; mas o dinheiro como vem, assim vai. Depois ela dá por bem empregado qualquer sacrifício. Não quer parecer velha.

Araújo – Mas quando ceamos juntos, aquela noite ao sair to teatro, me pareceu que o Pinheiro...

(continua...)

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