Por José de Alencar (1857)
— Não é luto, minha mãe: é gosto. Tenho paixão por esta cor; parece-me que ela veste melhor que as outras.
— Não digas isto, Carolina; pois o azul desta seda não te assenta perfeitamente?
— Já gostei do azul; hoje o aborreço! É uma cor sem significação, uma cor morta.
— E o preto?
— Oh! O preto é alegre!
— Alegre! exclamou um caixeiro, admirado dessa opinião original em matéria de cor.
— Eu pelo menos o acho, replicou a moça, tomando de repente um ar sério: é a cor que me sorri.
Esta conversa durou ainda alguns minutos.
Poucos instantes depois, as duas senhoras saíram e o carro que as esperava à porta desapareceu no fim da rua.
Carlos despediu-se do seu companheiro. Então amanhã sem falta!
— Ah! Ainda insistes no negócio?
— Mais do que nunca!
— Bem. Já que assim o queres...
— Posso contar contigo?
— Como sempre.
— Obrigado.
Henrique continuou a arruar, fazendo horas para o jantar.
Carlos dobrou a rua dos Ourives e dirigiu-se a casa. Morava em um pequeno sótão de segundo andar no fim da rua da Misericórdia.
CAPÍTULO XII
A razão por que o moço, saindo da rua Direita, dera uma grande volta para recolher-se não fora unicamente o desejo de acompanhar Henrique. Havia outro motivo mais sério.
Ele ocultava a sua morada a todos; o que, aliás lhe era fácil, porque depois de dois anos que estava no Rio de Janeiro não tinha amigos e bem poucos eram os seus conhecidos.
Havia muito de inglês no seu trato. Quando fazia alguma transação ou discutia um negócio, era de extrema polidez. Concluída a operação, cortejava o negociante e não o conhecia mais. O homem tornava-se para ele uma obrigação, um título, uma letra de câmbio.
De todas as pessoas que diariamente encontrava na praça, Henrique era o único com quem entretinha relações e essas mesmas não passavam de simples cortesia.
Entrando no seu aposento, Carlos fechou a porta de novo; e, sentando-se em um tamborete que havia perto da carteira, escondeu a fronte nas mãos com um gesto de desespero.
O aposento era de uma pobreza e nudez que pouco distava da miséria. Entre as quatro paredes que compreendiam o espaço de uma braça esclarecido por uma janela estreita, via-se a cama de lona pobremente vestida, uma mala de viagem, a carteira e o tamborete.
Nos umbrais da porta, dois ganchos que serviam de cabide. Na janela, cuja soleira fazia as vezes de lavatório, estavam o jarro e a bacia de louça branca, uma bilha d'água e um copo com um ramo de flores murchas. Junto à cama, em uma cantoneira, um castiçal com uma vela e uma caixa de fósforos. Sobre a carteira, papéis e livros de escrituração mercantil.
Era toda a mobília.
Quando, passado um instante, o moço ergueu a cabeça, tinha o rosto banhado de lágrimas.
— Era um crime, murmurou ele, mas era um grande alívio! Coragem!
Enxugou as lágrimas e, recobrando a calma, abriu a carteira e dispôs-se a trabalhar. Tirou do bolso um maço de títulos e bilhetes no valor de muitos contos de réis, contou-os e escondeu tudo em uma gaveta de segredo; depois tomou nos seus livros notas das transações efetuadas naquele dia.
Fora um dia feliz.
Tinha realizado um lucro líquido de 6:000$000. Não havia engano; os algarismos ali estavam para demonstrá-lo: os valores que guardava eram a prova.
Mas essa pobreza, essa miséria que o rodeava e que revelava uma existência penosa, falta de todos os cômodos, sujeita a duras necessidades?
Seria um avarento?.
Era um homem arrependido que cumpria a penitência do trabalho, depois de ter gasto o seu tempo e os seus haveres em loucuras e desvarios. Era um filho da riqueza, que, tendo esbanjado a sua fortuna, comprava, com sacrifício do seu bem-estar, o direito de poder realizar uma promessa sagrada.
Se era avareza, pois, era a avareza sublime da honra e da probidade; era a abnegação nobre do presente para remir a culpa do passado. Haverá moralista, ainda o mais severo, que condene semelhante avareza? Haverá homem de coração, que não admire essa punição imposta pela consciência ao corpo rebelde e aos instintos materiais que arrastam ao vício?
Terminadas as suas notas, esse homem, que acabava de guardar uma soma avultada, que naquele mesmo dia tinha ganho 6:000$000 líquidos, abriu uma gaveta, tirou quatro moedas de cobre, meteu-as no bolso do colete e dispôs-se a sair.
Aquelas quatro moedas de cobre eram um segredo da expiação corajosa, da miséria voluntária a que se condenara um moço que sentia a sede do gozo e tinha ao alcance da mão com que satisfazer por um mês, talvez por um ano, todos os caprichos de sua imaginação.
Aquelas quatro moedas de cobre eram o preço do seu jantar; eram a taxa fixa e invariável da sua segunda refeição diária; eram a esmola que a sua razão atirava ao corpo para satisfação da necessidade indeclinável da alimentação.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. A Viuvinha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16674 . Acesso em: 09 jan. 2026.