Por José de Alencar (1873)
Esta noite, quando me esquecia a contemplá-la, seguro de mim, vi-a acenar com a mão, como se me chamasse! Duvidei que me pudesse ter descoberto ou sequer pressentido. Mas ela insistiu, e como não lhe obedecesse, enfadou-se.
O que se passou em mim, e qual poder oculto dominou meu ser, que sem vontade, nem consciência, atirou-me de joelhos em face do terrado, com as mãos súplices e a fronte abatida, implorando com paixão para a minha infinda angústia?
Esteve Úrsula algum tempo a olhar-me, entre surpresa e aflita. Mas por fim ajoelhou também, erguendo as mãos ao céu, e eu ouvi o sussurro da sua prece.
Era por mim que rezava?
Não ouso crer. Depois que te partiste, mãe, lá na mansão em que habitas, acaso viste subir a Deus uma súplica, uma só, por este desgraçado?...
20 DE ABRIL
Infame sou eu, que de minha hediondez ousei erguer os olhos para a mais bela das criaturas de Deus.
Como foi isto?... Como foi que me não acometeu o horror que ainda me transe neste momento? Por que me não fulminastes, Deus de Misericórdia, quando sem tento de mim, transpus a distância que me separava dela?
Mas não fui eu, que morreria ao primeiro passo... A insânia que me arrancava a mim mesmo, apoderou-se deste esqueleto vil, e arrastou-o miseravelmente ao sopé do terrado.
Ao ver-me ali perto de si, Úrsula debruçada à balaustrada, começou a desfolhar as. rosas sobre minha cabeça, rindo faceiramente de sua travessura..
Disto não tenho mais que uma vaga e tênue reminiscência, pois meus espíritos ainda estavam nesse momento alheios de mim com a grande torvação.
Colhia ela as rosas que me atirava e eu recolhia em meu seio. Correram assim as horas da noite, sem que as sentisse.
24 DE ABRIL
Todas as noites, as tenho passado naquele doce enlevo!
Ali, próximo a ela, sinto-me como outrora quando me recolhias em teu regaço, mãe, e à força de carinho me acalentavas a dor horrível.
Como teus braços outrora, cinge-me o olhar de Úrsula, e me envolve. As folhas das rosas, que ela esparge sobre mim, são carícias tão doces como eram teus beijos, mãe, quando derramavas em meu seio o bálsamo santo da tua alma.
Horas e horas ficamos ali, mudos a olhar-nos, eu repassando-me de sua imagem, ela talvez admirada, em sua ingênua isenção, do meu estranho pasmo.
Ontem, sem o sentir, rompeu-me da seio o seu nome, que meus lábios repetiam submissos, uma e muitas vezes, como as palavras de uma oração. Interrompeu-me a voz de Úrsula.
- Acha bonito meu nome?
Naquele instante não atinei o sentido das palavras, tão absorto fiquei a ouvir a voz melodiosa que falava. Mas quando entendesse, podia eu exprimir em linguagem o que se passava em meu ser, e pronunciar seu nome?
Movi a cabeça maquinalmente como se dissera: sim.
- E o seu? Qual é? perguntou-me ainda.
Meu nome?... Há no mundo para os desgraçados como eu outro nome que não seja o de miserável?... Tive outrora um; nem já me lembro qual fosse, pois há tanto tempo que ninguém o chama! Para ti, mãe, eu era o filho; para o mundo, o lázaro!
Não se abriram meus lábios, porém com o gesto supliquei-lhe silêncio.
Teve ela sombra do horrível mistério, que reclinou a fronte merencória? Não; se a menor suspeita passasse em seu espírito, a houvera espavorido.
Sua tristeza foi sem dúvida por não ver satisfeito seu desejo. As crianças são assim, tiranas e absolutas em seus caprichos.
27 DE ABRIL
Não mais voltarei àquele sítio! Não mais profanarei com a minha presença o olhar puro e santo do anjo que se comiserou de mim!
O mau espírito apoderou-se deste abjeto esqueleto, e fez dele um inferno. Revolvem-se em meu seio pensamentos que me enchem de pavor.
Quando há duas horas cheguei à praia, não vi Úrsula no lugar do costume, o que deu-me ânimo para aproximar-me bem perto do terraço, na impaciência de entrevê-la através da folhagem.
Ela que se tinha escondido para surpreender-me, logo se debruçou no gradil, e estendeu para mim uma rosa que tinha na mão.
Pus-me de joelhos para recebê-la como uma graça celeste. Mas Deus poupou-me a essa infâmia, abatendo sobre mim a sua cólera. Caí, prostrado ao chão, escondendo o rosto na poeira da terra.
E fugi como um louco!...
Como pôde esta miserável carcaça que me deu o Criador para repasto dos gusanos, como pôde conceber o vil desejo de tocar com a sua hediondez a mão pura e imaculada da formosa donzela?
Deus fez o homem do limo da terra; da sânie, só tirou as vespas. Mas o virulento inseto apenas destila veneno; e o meu contágio é mais do que a peste; porque não só mata o corpo, como também a alma. É o contágio da abjeção.
Ah! os felizes que morrem à vida levando a estima do mundo, não sabem o que é esse frio assassínio duma alma, que o mundo lapida, como se ela fora um perro danado, e cujo despojo lança-se ao monturo, e queima-se para não contaminar os ares!
28 DE ABRIL
Tinha jurado não voltar ao eirado; e voltei arrastado por uma força a que não posso resistir.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. A alma do Lázaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7545 . Acesso em: 8 jan. 2026.