Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— A conseqüência é esta: o Sr. Brás, que é amigo da família, e que se não o fora, não me ouviria falar com tanta liberdade, conhece esse moço; dir-nos-á se é solteiro ou casado, e há de fazer-nos o obséquio de oferecer-lhe um convite para assistir ao sarau que tencionamos dar no dia do batizado de minha filha.
— Pois, minha senhora, disse Brás-mimoso, pode contar com o moço da gravata azulceleste, que é sem mais nem menos o meu amigo Otávio.
— Otávio!... exclamou Félix.
— Também o conheces?...
— Perfeitamente.
— Então, podes dizer-nos...
— Sem dúvida, tudo quanto minha tia quiser; bem entendido, se o Sr. Brás der licença, e minha prima Rosa se ameigar um pouco.
— Pois anda, sobrinho, dize-nos o que sabes.
— Sei que o Sr. Otávio vai completar trinta anos.
— Pois quê! é quase da minha idade?... perguntou Tomásia, não deixando passar aquele ensejo de caçoar com o tempo.
— Pouco mais ou menos, prosseguiu Félix rindo-se; vai, como disse, fazer trinta anos, posto que mais novo pareça; é rapaz de ótimas qualidades, de muito bom gosto, e, ainda mais, negociante rico.
— Mas como é possível que nós não o conhecêssemos?... eu então, eu que conheço todos os homens solteiros e ricos, desde que a minha Rosinha completou quatorze anos, como? como me escapou este?...
— Facilmente, minha tia; Otávio era, ainda há cinco anos, guarda-livros de seu pai; não tinha licença para freqüentar nem saraus, nem assembléias; não contava amigos, eu era o único que o podia visitar e ser por ele visitado; há cinco anos morreu-lhe o pai, e depois...
— E depois?...
— Teve de embarcar para arranjar certos negócios... enfim, para facilitar o comércio de certas fazendas, que não pagam direito na alfândega, porque desembarcam em praias desertas, e...
— Entendo... entendo...
— Tem sido por isso obrigado a repetir a miúdo as suas viagens, e apenas chegou ontem; eis o que lhe posso dizer, minha tia; o resto pertence à prima Rosinha.
— Vamos lá...
— Prima, Otávio é solteiro... bonito... bem-feito... rico... sensível... e provavelmente não poderá resistir aos seus olhos pretos.
— Otimamente! disse Tomásia, será um convite de conseqüências!
— Mas espere, minha tia! continuou Félix, posto que devamos contar muito com o poder dos olhos da prima Rosa, contudo...
— Contudo o quê?...
— Quem é a madrinha da menina?...
— Pois não disse já que era D. Lucrécia?!...
Félix soltou uma risada.
— De que te ris, Félix?
— De uma coincidência, minha tia.
— E qual?...
— Paciência, prima Rosa; mas a madrinha de sua mana é há dois dias a dama dos pensamentos de Otávio. — É possível?...
— Tão possível como a minha prima tirar-lhe o lance.
— Ora... quem diria?!... mas, enfim, Sr. Brás, não se perde nada em trazê-lo para perto de nós.
— Sua comadre, minha tia, há de agradecer-lhe muito.
Tomásia arrastou a sua cadeira para perto da de Brás-mimoso, e com ele travou uma conversação cerrada, e em tom de quem não queria ser ouvida.
Félix escondia debaixo da sua fingida jovialidade uma dose de ciúme, que já muito cruelmente o incomodava; Rosa afetava ter tomado pouco interesse no que dissera sua mãe, e Manduca continuava a devorar pão com manteiga.
Rosa aproveitou aquele momento e dirigiu-se a Félix, falando-lhe também em tom baixo.
— Mas não tem razão, meu primo, que culpa tenho eu em que me achem bonita?
— Não você tem razão, minha prima, eu ainda não a acusei de nenhuma falta.
— Sempre lhe conheci ciumento.
— Ora... quando se ama uma moça tão firme como minha prima...
— Senhor!... basta de ironias!
— Senhora! eu estou falando como Salomão, com o coração na mão.
— Eu não desço da minha dignidade para fazer caso do que o senhor diz.
— Bravo, mana Rosa! bravo! exclamou Manduca com a boca cheia.
— Então que é isso? perguntou Tomásia.
— Era uma história que eu contava, respondeu Félix!
— É verdade, minha mãe, era uma história que ele contava à minha mana.
— Pois, se era uma história, nós todos queremos ouvi-la.
— Agora, meu primo! exclamou outra vez Manduca, conte lá a história à minha mãe.
— Pois então lá vai, disse Félix sem hesitar; é uma história muito verdadeira, e acontecida há pouco tempo: ia ontem para S. Cristovão no ônibus das cinco horas da tarde, quando chegamos à ponte do aterrado vimos vir um homem que, montado em um vivo cavalo, todavia acompanhava a custo uma jovem que cavalgava branco palafrém, boleado, ardido e fogoso; nem eu, nem nenhum dos que vinha no ônibus se importou mais com o cavaleiro que a seguia; os nossos olhos ficaram embebidos na jovem cavaleira.
— Isso é muito natural, disse Brás-mimoso.
— O vestido da moça era verde-escuro; nada mais engraçado que a sua cinturinha delicada, do que o justo corpinho do seu vestido, que desenhava as mais encantadoras e voluptuosas formas; trazia na cabeça um simples boné preto que, muito pequeno para esconder os seus cabelos, deixava cair uma imensa multidão de lindos anéis de madeixas negras, que voavam pelos ares na impetuosidade da carreira que trazia o cavalo! oh!... ela passou junto do ônibus!...
— E então?...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.