Por Joaquim Manuel de Macedo (1880)
agora estou em talas... eu podia meter-me entre aquela gente; mas de calções e em mangas de camisa não fujo: (Abrindo portas e olhando) xadrez... safa... (Olhando para um quarto) Oh!... (Vai à sentinela) Camarada, quem dorme rocando ali?
SENTINELA – É o Despacha, o velho cirurgião do regimento.
BENJAMIM – E está ainda mais a fresca do que eu...
SENTINELA – E seu costume: mas quem é você?...
BENJAMIM – Vim ver meu irmão que foi recrutado; agora estava admirando como aquele homem ronca (Afasta-se e disfarça) ora... quem não se arrisca não ganha (Entra no quarto).
CORO
— Quem é moço, é recruta;
Sanha bruta
O vice-rei devora
Governo do diabo!
Que dele dêem cabo
Em boa hora!
(Antes de acabar o coro Benjamim sai do quarto com a farda, cabeleira branca, chapéu etc., do cirurgião e vai-se.)
Cena VII
Pestana, homens e mulheres, Pina e logo depois Paula.
PINA – Que motim é este? ... soldados! ponham fora essa gentalha! prendam os que não quiserem sair (Movimento de soldados: a gente vai saindo a empurrões de coice de armas, etc.)
CORO DA GENTE QUE SAI
A’ el-rei! á el-rei!
A queixa do povo Paula
Contra o vice-rei
Não é caso novo (Vão-se. Os soldados saem)
PINA (À parte) – O descontentamento do povo aumenta... o conde da Cunha devia tornar-se mais brando...
PAULA – Não encontrei o Peres nem na casa de negócio, nem no trapiche...
PINA – Pois ei-lo aí: tanto melhor...
Cena VIII
Pestana, Pina, Paula, Peres; logo Fr. Simão, uma cadeirinha e carregadores que esperam.
PERES (Muito grave.) – Trago uma ordem do senhor vice-rei (Entrega a ordem).
PINA (Abre e lê) – Em poucos minutos farei dar baixa e lhe entregarei o recruta que com o nome de Benjamim... perdão! Sargento Pestana!
PESTANA – Pronto.
PINA – O recruta que te confiei: imediatamente...
PESTANA (À parte) – E esta?... não me esqueci!... que estará fazendo ainda na arrecadação?... (Vai-se).
PINA (Baixo a Peres) – O Sr. Peres esteja certo que, adivinhando um segredo... fiz observar aqui o mais profundo respeito... (Pestana sai da arrecadação e aflito corre o quartel).
PERES —Obrigado.
FR. SIMÃO (Cumprimenta) – Vim rogar que me seja entregue o noviço que nos fugiu do convento..
PESTANA (Trêmulo.) – O recruta... desertou...
PINA – Que!...
PERES – Fugiu?
FR. SIMÃO – E o noviço?
PESTANA – Esse foi-se logo...
PINA – Chamada geral!... (Pestana corre para o quartel) Sr. Peres, hoje mesmo será plenamente cumprida a ordem do senhor vice-rei (A Paula) Alferes, siga com soldados de escolha... quero preso o desertor!... (Toque de chamada geral, os soldados formam-se:
movimento).
FR. SIMÃO – E o noviço?... (Continua o toque e o movimento).
PINA – Ora, reverendíssimo!... que tenho eu com o noviço? mande uma escolta de frades atrás dele!... (Fr. Simão benze-se).
PANTALEÃO (Pondo a cabeça muito calva fora da porta) – Capitão! não posso acudir à chamada, porque me furtaram todo o fardamento e a cabeleira!...
PINA – Sr. alferes Paula, escolha a escolta e siga (Paula obedece) Sargento Pestana!
PESTANA – Pronto!
PINA – Está preso: recolha-se ao xadrez (Pestana aterrado recolhe-se; Paula sai com a escolta) Sr. Peres, vou proceder a indagações...
PERES – E eu esperarei aqui até a noite pelo cumprimento do seu dever..
FR. SIMÃO – E por fim de contas o noviço?...
PINA – Que teima!... por fim de contas faça de conta que o noviço desnoviciou-se.
VOZES (Em coro dentro)
— Á el-rei!... á el-rei!.
A queixa do povo
Contra vice-rei
Não é caso novo!...
PINA – Ainda mais isto!... motim do povo!... (Aos soldados em forma) Firme!...
sentido!... (Dá um sinal ou ordem; os tambores e cornetas dão sinal de reunião extraordinária, que se mistura com o coro repetido A el-rei, á el-rei).
FIM DO ATO TERCEIRO
ATO QUARTO
Sala na casa de Mendes: À esquerda, três janelas com engradamento de madeira e nele postigos à altura dos parapeitos e outros rentes com o assoalho; porta de entrada, ao fundo; portas à direita, mobília do tempo.
Cena primeira
Mendes e Inês com vestido de seu sexo e logo Benjamim.
MENDES – Estou reduzido a ama-seca!
INÊS – Sou-lhe pesada, meu padrinho, bem o vejo.
MENDES – Tu não pesas nada, a começar pela cabeça, que é de vento; mas quebraste-me as pernas: não posso sair, deixando-te só...
INÊS – Mas meu padrinho podia ao menos escrever a alguns amigos seus...
MENDES – Escrever o que?...
INÊS – Bem sabe... a favor... dele... (Vergonhosa)
MENDES (À parte) – Não faz mais cerimônias!... e eu que ralhe!... ora... seria ralhar com a natureza!...
INÊS – Que diz, meu padrinho?... escreve? ...
MENDES – Preciso antes de tudo livrar-te da fúria do compadre...
INÊS – Sim... por certo: entretanto... Benjamim deve estar em torturas naquele quartel...
MENDES – Hei de ocupar-me dele... mas ainda não jantaste...
INÊS – Não tenho fome... pobre Benjamim!
MENDES – Benjamim!... Benjamim! come alguma coisa, menina...
INÊS – Não posso... é impossível, meu padrinho (Sussurro, movimento na rua).
MENDES – Que será isto?... (A um postigo algo).
INÊS – Também quero ver... (Indo).
MENDES – Sim... mostra-te ao postigo... teu pai...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Antonica da Silva. 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=213 . Acesso em: 02 jan. 2026.