Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

A Moreninha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)

— Pois que dúvida? Para viver-se vida boa e livre, é preciso andar com o olho aberto e o pé ligeiro. Então as tais sujeitinhas que, com a felicidade e indústria com que a aranha prende a mosca na teia, são capazes de tecer de repente, com os olhares, sorrisos, palavrinhas doces, suspiros a tempo, me deixes aproximando-se, zelos afetados e arrufos com sai e pimenta, uma armadilha tão emaranhada que, se o papagaio é tolo e não voa logo, mete por força o pé no laço e adeus minhas encomendas, fica de gaiola para todo o resto de seus dias... E, portanto, meu Augusto, deixa-te de insípidos escrúpulos e ajuda-me a sair dos apuros em que me vejo.

— Torno a dizer-te que estás doido, Fabrício, pois que me acreditas capaz de servir de instrumento para um enredo… uma verdadeira traição. Então, que pensas? Eu requestaria d. Joaninha, não é assim?... Tu a deixavas, fingindo ciúmes, e depois quem me livraria dos apertos em que necessariamente tinha de ficar?...

— Ora, isso não te custava cinco minutos de trabalho: tu... inconstante por índole e por sistema!

— Fabrício, deixa-te de asneiras; já que te meteste nisso, avante! Além de que, d. Joaninha é um peixão.

— Oh! Oh! Oh!... Uma desenxabida...

— Que blasfêmia!

— Além disso é impossível... Não posso suportar o peso: escrever quatro cartas por semana... Só o talento que é preciso para inventar asneiras e mentiras dezesseis vezes por mês! ... E depois, o Tobias...

— Puxa-lhe as orelhas.

— Como?... Se ele é a cria de d. Joaninha, o alfenim da casa, o São Benedito da família!

— Não sei, meu amigo, arranja-te como puderes.

— Lembra-te que foste a causa principal de tudo isso.

— Quem?... Eu?... Eu apenas te disse que não sabias o gosto que tinha o amor à moderna.

Pois bem, saí do meu elemento, fui experimentar a paixão romântica... aí a tem! ... A tal paixãozinha me esgotou já paciência, juízo e dinheiro. Não a quero mais.

— Tu sempre foste um papa-empadas.

— Sim, e há dois meses que não sei o que é cheiro delas. Anda, meu Augustozinho, ajuda-me!

— Não posso e não devo.

— Vê lá o que dizes! Tenho dito.

— Augusto!

— Agora digo mais que não quero.

— Olha que te hás de arrepender!

Esta é melhor! ... Pretendes meter-me medo?... Eu sou capaz de vingar-me.

— Desafio-te a isso.

— Desacredito-te na opinião das moças.

— E um meio de tornar-me objeto de suas atenções. Peço-te que o faças.

Descubro e analiso o teu sistema de iludir a todas. Tornar-me-ás interessante a seus olhos.

— Direi que és um bandoleiro.

— Melhor, elas farão por tornar-me constante.

— Mostrarei que a tua moral a respeito de amor é a pior possível. Ótimo! ...

Elas se esforçarão por fazê-la boa.

— Hei de, nestes dois dias, atrapalhar-te continuamente.

— Bravo!... Não contava divertir-me tanto! Então tu teimas no teu propósito?...

— Pois, se é precisamente agora que estou vendo os bons resultados que ele me promete!

— Portanto... estes dois dias, guerra!

— Bravíssimo, meu Fabrício; guerra!

— Antecipo-te que o meu primeiro ataque terá lugar durante o jantar.

— Oh! Por milhares de razões, tomara eu que chegasse a hora dele!...

— Augusto, até o jantar!

— Fabrício, até o jantar!

Neste momento Filipe abriu a porta do gabinete e, dirigindo-se aos dois, disse:

— Vamos jantar.

CAPÍTULO V

Jantar Conversado

Ao escutar aquele aviso animador que, repetido pela boca de Filipe, tinha chegado até o gabinete onde conversavam Augusto e Fabrício, raios de alegria brilhavam em todos os semblantes. Cada cavalheiro deu o braço a uma senhora e, par a par, se dirigiram para a sala de jantar. Eram, entre senhoras e homens, vinte e seis pessoas.

Coube a Augusto a glória de ficar entre d. Quinquina, que lhe dera a honra de aceitar seu braço direito, e uma jovem de quinze anos, cuja cintura se podia abraçar completamente com as mãos. Um velho alemão ficava à esquerda dela e, sem vaidade, podia Augusto afirmar que d. Clementina prestava mais atenção a ele que ao jogadores, que, também, a falar a verdade, por seu turno, mais se importava com o copo que com a moça.

D. Quinquina (como a chamam suas amigas) conversa sofrível e sentimentalmente: é meiga, terna, pudibunda, e mostra ser muito modesta. Seu moral é belo e lânguido como seu rosto; um apurado observador, por mais que contra ela se dispusesse, não passaria de classificá-la entre as sonsas. D. Clementina pertencia, decididamente, a outro gênero: o que ela é lhe estão dizendo dois olhos vivos e perspicazes e um sorriso que lhe está tão assíduo nos lábios, como o copo de vinho nos do alemão. D. Clementina é um epigrama interminável; não poupa a melhor de suas camaradas: sua vivacidade e espírito se empregam sempre em descobrir e patentear nas outras as melhores brechas, para abatê-las na opinião dos homens com quem pratica.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1011121314...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →