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#Relatos#Literatura Brasileira

História da Província de Santa Cruz

Por Pero de Magalhães Gândavo (1576)

Outros animais ha nesta Província mui feros e prejudiciais a toda esta caça, e ao gado dos moradores: aos quais chamam Tigres, ainda que na terra a mais da gente os nomeia Onças: mas algumas pessoas que os conhecem e os virão em outras partes, afirmam que são Tigres. Estes animais parecem-se naturalmente com gatos, e não diferem deles em outra cousa; salvo na grandeza do corpo porque alguns são tamanhos como bezerros e outros mais pequenos. Tem o cabelo dividido em varias e distintas cores, convém a saber, em pintas brancas, pardas e pretas. Como se acham famintos entram nos currais do gado e matam muitas vitelas, e novilhos que vão comer ao mato, e o mesmo fazem a todo o animal que podem alcançar. E pelo conseguinte quando se vem perseguidos da fome, tão bem cometem aos homens, e nesta parte são tão ousados, que já aconteceu trepar-se um Índio a uma arvore por se livrar de um destes animais que o ia seguindo, e pôrse o mesmo Tigre ao pé da arvore, não bastando a espanta-lo alguma gente que acudiu da povoação aos gritos do Índio, antes a todos os medos se deixou estar muito seguro guardando sua preza até que sendo noite se tornaram outra vez sem ousarem de lhe fazer nenhuma ofensa, dizendo ao Índio que se deixasse estar, que ele se enfadaria de o esperar, e quando veio pela manhã (ou porque o Índio se quis descer parecendo-lhe que o Tigre era já ido, ou por acertar de cair per algum desastre, (ou pela via que fosse) não se achou ai mais dele que os ossos. Porem pelo contrario, quando estão fartos são mui cobardes, e tão pusilânimes que qualquer cão que remete a eles, basta a faze-los fugir: algumas vezes acossados do medo se trepam a uma arvore e ali se deixam matar ás frechadas sem nenhuma resistência. Enfim que a fartura supérflua, não somente apaga a prudência, a fortaleza do animo, e a viveza do engenho ao homem, mais ainda aos brutos animais inabilita e faz incapazes de usarem de suas forças naturais posto que tenham necessidade de as exercitarem para defensão de sua vida.

Outro gênero de animais ha na terra, a que chamam Cerigoês, que são pardos e quase tamanhos como raposas: os quais tem uma abertura na barriga ao comprido, de maneira que de cada banda lhes fica um bolço onde trazem os filhos metidos. E cada filho tem sua teta pegada na boca, da qual a não tirão nunca até que se acabam de criar. Destes animais se afirma que não concebem nem geram os filhos dentro da barriga senão em aqueles bolsos, porque nunca de quantos se tomarão se achou algum prenhe. E alem disto ha outras conjeturas mui prováveis por onde se tem por impossível parirem os tais filhos como todos os outros animais (segundo a ordem da natureza) parem os seus. Um certo animal se acha tão bem nestas partes, a que chamam Preguiça (que é pouco mais ou menos do tamanho destes) o qual tem um rosto feio, e umas unhas muito compridas quase como dedos. Tem uma gadelha grande no toitiço que lhe cobre o pescoço, e anda sempre com a barriga lançada pelo chão sem nunca se levantar em pé como os outros animais; e assim se move com passos tão vagarosos que ainda que ande quinze dias aturados, não vencerá distancia de um tiro de pedra. O seu mantimento é folhas de arvores e em cima delas anda o mais do tempo, aonde ha pelo menos mister dous dias para subir e dous para descer. E posto que o matem com pancadas nem que o persigam outros animais, não se meneia uma hora mais que outra.

Outro gênero de animais ha na terra, a que chamam Tamanduás que serão tamanhos como carneiros, os quais são pardos e tem um focinho muito comprido e delgado para baixo; a boca não tem rasgada como a dos outros animais, e é tão pequena, que escassamente caberão por ela dous dedos: tem uma língua muito estreita e quase de três palmos em cumprido. As fêmeas tem duas tetas no peito como de mulher, e o ubre lançado em cima do pescoço entre as pás, donde lhes desce o leite ás mesmas tetas com que criam os filhos. E assim tem mais cada um deles duas unhas em cada mão, tão compridas como grandes dedos, largas á maneira de escouparo. Tão bem pelo conseguinte tem um rabo mui cheio de sedas, e quase tão compridas com as de um cavalo. Todos estes extremos que se acham nestes animais, são necessários para conservação de sua vida, porque não comem outra cousa se não formigas. E como isto assim seja vão-se com aquelas unhas arranhar nos formigueiros onde as ha, e tanto que as tem agravadas lançam a língua fora e põem-na ali naquela parte onde arranharão, a qual como se enche delas recolhem para dentro da boca, e tantas vezes fazem isto, até que se acabam de fartar. E quando se querem agasalhar ou esconder de alguma cousa, levantam aquele rabo e lançam-no por cima de si, debaixo de cujas sedas ficam todos cobertos sem se enxergar deles cousa alguma.

(continua...)

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