Por Adolfo Caminha (1896)
E na mesma tarde, ao anoitecer, foram ambos dar um giro à Rua do Ouvidor.
CAPÍTULO III
Luís Furtado era homem de meia-idade, alto, robustez física invejável, pele rósea e conservada, bigode negro, tratado a brilhantina, olhos negros e comunicativos, um pouco lânguidos, talvez por afetação, talvez por temperamento.
Belo, verdadeiramente belo, ninguém o diria sem risco de profanar o ideal antigo da beleza máscula; no entanto, podia dizer-se dele que era, na acepção moderníssima, um bonito homem. A convivência na Corte dera-lhe tintas de nobreza ao rosto largo de provinciano setentrional. O Rio de Janeiro, com o seu maravilhoso poder de cidade cosmopolita, afinara-lhe a cútis e a educação. Davam-lhe doutor, mas, em verdade, nunca pusera os pés numa academia; os preparatórios mesmo, ele os não completara; e como no Rio de Janeiro, na Corte, toda a gente é doutor, ninguém punha dúvida no fictício diploma de Luís Furtado.
Mas a qualidade característica do secretário do Banco Industrial era o amor às mulheres, uma tendência notável para as conquistas de boudoirs, para o livre câmbio de afeições delicadas, para o culto imoderado de Vênus. Esse fraco, longe de o desprestigiar no conceito das rodas aristocráticas, tornava-o ainda mais querido de um e outro sexo, que viam no esposo de D. Branca, um homem de bom gosto, entendido em essências finas e em cotillons. Quem é que, em Botafogo, não o admirava, quem? Chegava-se até a dizer, num exagero, que era a alma do bairro!
O casamento não lhe tirava a liberdade de homem que se governa; cumpria seus deveres conjugais; nada faltava à mulher, nem aos filhos, todos em casa o estimavam; queria, portanto, sua liberdade; "a melhor coisa que Deus deu ao homem". Tinha idéias definitivas, absolutas, sobre o casamento e opunha-as a qualquer moralista indiscreto que lhe fosse criticar os atos.
D. Branca nunca se agastava com ele, nunca lhe fizera a menor objeção no tocante às suas aventuras donjuanescas. Quando alguém, homem ou mulher, os queria intrigar e levava ao conhecimento dela fatos particulares da vida do esposo, a ilustre senhora tinha sempre um risinho de incredulidade: "— O Furtado era um bom marido e um bom pai de família. Os invejosos é que o queriam desmoralizar".
No entanto, conhecia o gênio do Furtado e uma ocasião surpreendera-lhe no bolso do paletó uma cartinha de mulher, muito cheirosa e dentro da qual havia um amor-perfeito já desbotado como essas flores raras que se eternizam entre as paginas dos álbuns. D. Branca sorriu e devorou com os olhos a misteriosa epístola, em verdade bem misteriosa, porque nada tinha de indiscreto senão o caráter visivelmente feminino da letra. Nunca se vira maior laconismo, nem tão cautelosos dizeres numa correspondência de mulher. Assinavam as iniciais B. F. — "Branca Furtado!", pensou com estranheza e admiração.
E tornou a colocar o papel no bolso do marido, respeitosamente. Era um segredo e ela não tinha o direito de violar segredo a quem quer que fosse.
Outra ocasião deparou com o retrato da cuja. - "Sim senhor: uma mulher esplêndida! O Luís tinha gosto para mulheres..." No dorso da fotografia, em cartão imperial, a seguinte dedicatória: Ao Luís — B. F.
PETRÓPOLIS, 18..
— Petrópolis! - exclamou D. Branca. — É gente fina... (e com uma ponta de despeito) esses homens... esses homens!...
O retrato voltou ao lugar onde estava, sem um arranhão.
Impossível haver mais liberdade e mais confiança entre marido e mulher.
O procedimento de Luís para com D. Branca era igualmente recatado e tudo fazia crer que a víbora do ciúme não lhe mordera ainda o coração de esposo. Compreendiam-se um ao outro, e, quando em um casal, a mulher compreende o marido e o marido compreende a mulher, não há mais bela instituição que o casamento. Ninguém peca por aceitar a vida como a vida sempre foi - tal a filosofia de D. Branca, e com pequenas restrições, a do secretário.
Dizer que se não amavam? Erro gravíssimo. Adoravam-se quase, e, em certos momentos, era como se fossem noivos em plena lua-de-mel. Segredos da alma humana...
Uns olhos cobiçosos e apaixonados como os de Luís não podiam, decerto, ver indiferentemente um rosto lindo de mulher. Foi o que se deu com relação a Adelaide, a meiga esposa de Evaristo de Holanda. O secretário viu-a no dia da chegada e admirou-a intimamente, com olhadelas furtivas e traiçoeiras, enquanto o carro rodava para Botafogo. Ria, e o seu riso tinha um tique muito delicado, muito nobre, muito fino, de cavalheiro gentil, que se aprimora numa cortesia de salão. E, era a todo o instante - "vossa excelência", a todo o instante uma frase elogiosa e comedida e mais uma perguntazinha discreta que Adelaide respondia com o natural embaraço de quem chega a um lugar estranho e pela primeira vez ouve linguagem desconhecida.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Tentação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16515 . Acesso em: 27 mar. 2026.