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#Crônicas#Literatura Brasileira

No País dos Ianques

Por Adolfo Caminha (1894)

Parecerá uma fantasia de poeta adolescente isto que acabo de dizer, mas é a verdade, a expressão sincera do que eu sentia ao atravessar a região que ia ter lá, ao palácio da Exposição.

A tristeza da neve comunicava-se ao meu espírito imprimindo nele não sei que despretensiosas ambições de silêncio e recolhimento. Alguém já procurou explicar a influência que exerce o estado higrométrico da atmosfera no estado psicológico do indivíduo.

Eu de mim só sei que o patriotismo, longe da pátria, duplica.

E fechemos esta espécie de parêntesis.

Uma comissão de cavalheiros, competentemente encasacados, veio receber-nos ao desembarque.

Entramos. Nossa entrada foi verdadeiramente triunfal.

Dentro e fora do edifício era grande a agitação. Ondas de povo entravam e saíam percorrendo o pitoresco Upper City Park.

Felizmente "levantou o tempo", como se costuma dizer.

Ao assomar à porta do grande salão de honra o primeiro oficial brasileiro, o comandante do Barroso, ao lado do cônsul e do presidente da Exposição, a orquestra de professores, brilhantemente organizada, rompeu lá dentro o hino nacional americano (não conheciam o nosso hino aliás tão vulgarizado), os espectadores que enchiam o vasto recinto ergueram-se, e uma salva estrepitosa de palmas acolheu o resto da oficialidade.

Houve um momento de verdadeiro delírio, em que todos batiam palmas sem interrupção, levantando vivas ao Brasil.

Serenado o entusiasmo, um entusiasmo indescritível, apoplético, tomou a palavra Mr. Richardson, que proferiu o discurso de encerramento, saudando a armada brasileira.

Seguiu-se na tribuna o orador oficial, que, num improviso eloqüentíssimo, patenteou a necessidade de uma união entre todas as nações americanas, desenvolvendo largamente as vantagens que daí proveriam a todas elas.

Falou também o governador da Luisiana, e, finalmente, os Srs. Salvador de Mendonça e Saldanha da Gama, cujas palavras foram cobertas dos mais significativos aplausos.

Terminada a cerimônia oratória, foi-nos franqueado o edifício da Exposição, que percorremos examinando com interesse os diferentes pavilhões industriais.

O Brasil — é triste dizê-lo — fizera-se representar de modo bem insignificante.

Brilharíamos pela ausência, se o Governo não tivesse a lembrança de mandar o Almirante Barroso.

Amostras de madeiras, café em grão, fumo, artigos de borracha, constituíam os principais produtos brasileiros expostos à curiosidade dos visitantes de quase todas as partes do mundo civilizado. O pavilhão do Brasil deixava-se ficar em plano inferior aos das outras nações, como se fôssemos um pobre país, cujos produtos não valessem a pena de ser expostos num certame internacional!

Daí, talvez, o assombro dos americanos ao verem o Almirante Barroso, esse esplêndido vaso de guerra de envergadura possante, capaz de resistir aos mais fortes temporais e que eles, os estrangeiros, duvidavam fosse obra nossa.

— Como? Pois no Brasil também se fabricam navios de guerra? Está muito adiantado o Brasil!

E repetiam com um ar de dúvida e de ironia medindo de alto a baixo e de popa a proa o majestoso cruzador, que balouçava de leve sobre o Mississipi:

— Está muito adiantado o Brasil!

Entretanto o México, a América Central e as repúblicas sul-americanas, sem os recursos invejáveis da grande nação, sobressaíam admiravelmente. O pavilhão do México, sobretudo, desafiava a maior parte dos outros não só em abundância de artigos, mas, principalmente, em beleza e bom gosto, em elegância e riqueza.

Escusado, parece, falar do importante lugar que coube aos Estados Unidos. Que profusão de máquinas e instrumentos industriais de invenção puramente americana! Ali mesmo, à vista do observador, fabricavam-se os mais curiosos objetos de fantasia e de uso doméstico; o linho, o algodão, a seda — eram tecidos rapidamente aos olhos de todos.

Imagine-se agora o ruído, a algazarra, a movimentação que devia reinar ali dentro daquele imenso edifício, certamente muito longo de ser comparado aos palácios de exposições universais, mas ainda assim um dos maiores que se tem levantado nesse gênero.

Para dar uma idéia de suas dimensões — não o chamaremos vaticano da indústria para não exagerar — basta dizer que o salão de música — music-hall — acomodava 11.000 pessoas, inclusive uma vasta área para 600 figuras.

Impossível descrever as amabilidades, as gentilezas que nos foram prodigalizadas largamente pelas adoráveis americanas de Nova Orleans nessa festa democrática de confraternização internacional; recordar as frases deliciosas, os galanteios irresistíveis.

O que posso afirmar é que o brazilian day há de perdurar por muito tempo no coração daqueles que tiveram a felicidade de assistir essa belíssima festa.

Dias depois voltei ao palácio da Exposição, sozinho, como simples curioso que não tivera tempo bastante para examinar tudo no pequeno espaço de doze horas.

(continua...)

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