Por Adolfo Caminha (1895)
A essa voz o movimento foi geral. Imediatamente soaram apitos e a tolda encheu-se de marinheiros e oficiais, que surgiam das escotilhas num alvoroço, correndo, empurrando-se. A figura do guardião Agostinho destacava à proa, calma e solene, medindo a mastreação.
— Arria, carrega!
Trilaram de novo os apitos num desespero de manobra açodada: avalanches de marinheiros precipitaram-se de um bordo e doutro, alando os cabos, atropelandose em correrias de horda selvagem, batendo os pés, ao barulho dos moitões que chiavam como carro de bois na roça.
— Agüenta o leme! avisava o oficial todo embuçado na sua capa impermeável.
O tempo escurecera completamente, e a ventania refrescando, esfuziava na mastreação de modo sinistro, com a força extraordinária de titãs invisíveis. Mar e céu confundiam-se na escuridão, formando um só conjunto negro em torno da corveta, abarcando-a em todos os sentidos, como se tudo ali dentro fosse desaparecer debaixo das águas e das nuvens... Passavam grandes ondas altaneiras, rugindo sob a quilha, dançando uma dança medonha e vertiginosa na proa, cada vez que o navio mergulhava o bojo com risco de abrir pelo meio... Chuva copiosíssima alagava o convés obrigando os marinheiros a se arregaçar, encharcando as pilhas de cabo, numa baldeação geral e inesperada.
A corveta ficara somente em gáveas e mezena, e corria, agora, sobre o mar, como se fosse um simples iatezinho de recreio, leve, enfunada, cavalgando as ondas — a bordas quase rente com a água...
Que orgulho para o oficial de quarto! Como ele sentia-se bem naquele momento, debaixo de seu sueste, molhado té à ponta dos pés, todo olhos para que o navio não saísse fora do rumo, cheio de responsabilidade, calmo no seu posto, enquanto os outros descansavam na praça d’armas! De vez em quando olhava para a popa e via, com grande júbilo d’alma, a larga esteira de espuma que a corveta ia deixando atrás. Sentia-se forte, sentia-se homem! — Decididamente a marinha é, por excelência, uma escola de coragem! pensava.
Durou hora e meia o aguaceiro, uma chuva cerrada e insistente de revés, que parecia não acabar mais. O céu abriu-se de repente, claro e azul; a luz tornou a iluminar os horizontes; e pouco a pouco foram desaparecendo os últimos vestígios da “brincadeira”, como dizia, depois, o tenente Souza, o da calmaria, que entrava de quarto.
O vento, porém, continuava rijo, açoitando os cabos, fustigando a superfície d’água, gemendo tristemente salmodias de violoncelo fantástico, em lufadas que faziam estremecer todo o navio.
Dez milhas, acusava a barquinha, dez milhas por hora.
— Cuidado com o leme!
Marinheiros vassoiravam o convés, enquanto outros iam passando o lambaz onde já não havia água. De cima, da tolda, ouvia-se a voz dos oficiais conversando na bateria, sentados por ali numa desordem grotesca, fumando, rindo... O comissário, um de suíças longas, magro, estudava clarinete, embaixo, na praça d’armas, com admirável paciência, equilibrando-se. A chuva reanimara-os a todos, oficiais e marinheiros, desentorpecendo-lhes o corpo.
Bom-Crioulo, cansado da faina, descera à coberta, e conversava também com Aleixo, de quem só se separava na hora do serviço.
A umidade, o frio que entra pelas escotilhas, aquele ambiente glacial comunicava-lhe um desejo louco de amor físico, um enervamento irresistível. Unido ao grumete num quase abraço, a mão no ombro de Aleixo que, àquele contacto, experimentava uma vaga sensação de carícia, o negro esquecia todos os seus companheiros, tudo que o cercava para só pensar no grumete, no “seu bonitinho” e no futuro dessa amizade inexplicável.
— Tiveste muito medo?
— De quê?
— Do tempo...
— Não, nem por isso.
E Aleixo aproveitou o ensejo para narrar rum caso de vento sul em Santa Catarina: — Tinham saído, ele e o pai, numa canoa de pesca, assim pelo meio-dia. De repente o mar começa a encrespar, o vento desaba... e agora? Estavam sozinhos perto da ilha dos Ratones dentro de uma canoa que era ver uma casquinha de noz. O velho, coitado, não teve dúvida, não! puxou pelo remo: — vuco, te vuco..., vuco, te vuco...— Segura-te, meu filho! E o vento cada vez mais forte, zunindo no ouvido que nem o diabo. Mas veio uma rajada de supetão, um golpe de vento medonho, e quando ele, Aleixo, quis agarrar-se ao pai, era tarde: a canoa emborcou!
— Emborcou?
— Emborcou de verdade, pois então? Sei bem que fui ao fundo e voltei à tona. Aí perdi o sentido... quando acordei estava na praia, são e salvo, graças a Deus!
— Assim mesmo foste feliz, disse o negro com interesse. Podias morrer afogado...
Bom-Crioulo também quis contar sua história, e a conversa prolongou-se té ao anoitecer, quando todos subiram par a distribuição do serviço.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Bom-crioulo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16513 . Acesso em: 27 mar. 2026.