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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

Ao mesmo tempo lembrava-se de que o Zuza podia lhe sair um marido muito besta e casmurro, cuidando somente da papelada de autos e requerimentos, um advogado com escritório e tabuleta à porta para fazer... nada! Ela, por outro lado, a cuidar dos filhos, muito besuntada, da sala para a cozinha numa azáfama de burguesinha reles. Boas!

E não assentava idéias, a mente que nem um rodopio, fantasiando situações disparatadas, coisas impossíveis.

Leu outra vez a carta, analisando-a palavra por palavra, repetindo as frases à meia voz. Aquela linguagem alambicada e dengosa quis-lhe parecer tosca demais para ter sido do punho dum estudante de direito. — Que idiota! pensava; comparar seus olhos com olhos de madona e sua voz com uma harpa eólia! — E, num arrebatamento, levantou-se e guardou a carta na caixinha de fitas. — “Qual olhos de madona! Qual harpa eólia, qual nada, seu besta!”

Daí a pouco também ressonava com a respiração leve como uma carícia.

O dia seguinte era domingo. Todos em casa do amanuense acordaram muito bem-dispostos. Havia missa cantada na Sé. Espocavam foguetes e repicavam sinos. Meninos apregoavam numa voz cantada a Matraca a 40 réis! — um jornaleco imundo que falava da vida alheia e que por duas vezes trouxera sujidades contra João da Mata. Maria do Carmo quis ver o que dizia a Matraca, apesar de o padrinho ter proibido expressamente a entrada do pasquim em sua casa. Ali só lhe entrava a Província, dissera ele; isso mesmo porque o José Pereira não exigia pagamento de assinatura. O mais era uma súcia de papéis nojentos que só serviam para... — Maria deu um pulo até a casa da viúva Campelo e aí pôde comprar a Matraca. O padrinho estava no banho. — O Namoro do Trilho de Ferro! gritavam os vendedores. Maria teve um palpite. Certo aquilo era com ela. Que felicidade o padrinho estar no banho! Pagou ao menino, pedindo-lhe pelo amor de Deus que não gritasse mais o Namoro do Trilho de Ferro. Abriu o jornal ansiosa. Que horror! Havia, com efeito, uma piada sobre ela e o Zuza. Mais que depressa correu a mostrar à Lídia.

— Estás vendo, menina? Lê isto aqui. E apontou com o dedo.

Eram uns versos de pé de viola que contavam o recente namoro do Zuza:

“A normalista do Trilho,

ex-irmã de caridade,

está caída pelo filho

dum titular da cidade.

O rapazola é galante

e usa flor na botoeira:

D. Juan feito estudante

a namorar uma freira...

Eis por que, caros leitores,

eu digo como o Bahia:

— Falem baixo, minhas flores,

Senão... a chibata chia!...”

Lídia achou graça na versalhada. Ela também já saíra na Matraca.

— Um desaforo, não achas? perguntou a normalista indignada.

— Que se há de fazer, minha filha? Ninguém está livre destas coisas no Ceará moleque. Não se pode conversar com um rapaz, porque não faltam alcoviteiros. Olha, eu aposto em como isto que aqui está saiu da cachola do Guedes.

— Que Guedes?

— Ó mulher, o Guedes, um do Correio... Dizem até que está feito redator principal da Matraca.

— E que mal fiz eu a esse Guedes que nem sequer me conhece?

— Eu te digo. O Guedes andou a querer namorar-me. Chegou a escrever-me uma carta muito errada e piegas, pedindo uma entrevista... Que fiz eu? Ri-me muito das asneiras do bicho, troceio-o a valer e mandeio-o pastar bem... Ora, o Guedes sabe que nós somos muito amigas e talvez queira vingar-se indiretamente. Aí está o que é, menina. Manda-o plantar couves e rasga esta baboseira, que isto não vale senão nada.

— Não vale nada, mas toda a gente lê e acredita, é o que é. — Sabem lá qual é a “normalista do Trilho”!

A propósito Maria contou as ocorrências da véspera, a carta do Zuza, a cólera do padrinho, muito vexada.

Estavam à janela, em pé, frente a frente. D. Amanda andava para os fundos da casa a mourejar. No fim da rua, do lado da Estrada de Ferro, uma locomotiva fazia manobras, chiando, a deitar vapor fora. Chegou até a frente da casa da viúva, soltou um guincho rápido e voltou estralejando sobre os trilhos.

...E os sinos a repicarem na Sé e girândolas de foguetes estourando no ar. Chegavam espaçados sons de música que o vento trazia.

— Não sei se deva responder, disse Maria dando a carta à amiga. Ele com certeza vem hoje para o víspora...

— De forma que tens um compromisso a satisfazer...

— Compromisso?

— Sim, porque quem cala consente. Aceitaste a carta, agora é responder. Diz-lhe que o amas também e que desde já o consideras teu noivo. Nisso de amor quanto mais depressa melhor. Eu pelo menos o entendo assim. Queres, eu faço a minuta.

— Eu, escrever para um homem?

— Tola! Que crime há nisso? Eles não escrevem para nós? Olha, tolinha, não sejas criança. O homem foi feito para a mulher e a mulher para o homem.

— Mas...

— Não tem mas nem meio mas. Decide-te a namorar o rapaz e deixa-te de meninices. Tu é que tens a lucrar. O Zuza tem fortuna, está a formar-se e com mais um ano pode ser teu marido e fazer-te muito feliz.

(continua...)

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